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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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Os primeiros negros no território de Guaíba

Os escravos não eram em grande número, a fazenda possuía uma só charqueada

Os primeiros negros no território de Guaíba
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Os primeiros homens e mulheres negros vieram para a antiga localidade das Pedras Brancas, por volta de 1760, na condição de escravos, trazidos pelo posseiro português, Jacinto Roque Pereira Guimarães (genro de Jerônimo de Ornellas, um dos fundadores de Porto Alegre). Registros indicam que a posse das terras ocorreu antes da expulsão dos espanhóis da região noroeste, centro e sul do Rio Grande do Sul, em 1776, realizada pelas forças da Coroa Portuguesa. Em 1762, esse posseiro vende as benfeitorias e os animais da fazenda, ao capitão Antônio Ferreira Leitão, português, casado com Maria Meirelles de Menezes (neta de Jerônimo de Ornellas). A Sesmaria das Pedras Brancas resultou da união de duas sesmarias concedidas a Antônio Ferreira Leitão. A primeira em 1790, localizada mais a porção sul, limitada pelo arroio Petim e a outra sesmaria, comprada do citado, Jacinto Roque Pereira Guimarães, tio da esposa de Antônio Ferreira Leitão, concedida oficialmente, somente em 1793. A sesmaria, localizada na porção norte, legou a existente sede conhecida hoje, por Casa de Gomes Jardim.

Os escravos, trabalharam na Charqueada da Alegria (os alicerces do prédio estão onde existe o monumento conhecido como Marco Farroupilha, no Balneário Alegria), na lide campeira, olaria, atafona e no preparo da terra para pomares, lavoura e roça. As mulheres, tinham suas atividades cotidianas ligadas a todos os serviços domésticos como cozinhar, lavar, costurar, passar, algumas trabalhavam também nas plantações das lavouras, roças e pomares e outras ainda como amas-de-leite.

Em 1835, negros e mestiços, peões e escravos, estiveram presentes no grupo que invadiu Porto Alegre, sob o comando de Gomes Jardim, dando início a Revolução Farroupilha.Os escravos não eram em grande número, uma vez que a fazenda possuía uma só charqueada. A atividade dos matadouros e charqueadas se expandiu somente da segunda metade para o final do século XIX. Após a abolição da escravatura as charqueadas continuaram, porém, com mão-de-obra assalariada.

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Algumas tarefas desenvolvidas pelos escravos estão citadas nos inventários, tanto do período colonial como imperial brasileiro. Não temos maiores registros sobre os homens e as mulheres escravizados da antiga Pedras Brancas, nesses 128 anos em que viveram e trabalharam aqui. Todavia, não temos dúvidas quanto ao alicerce étnico cultural que dá origem a Guaíba, foram eles, os portugueses e os africanos.

Como informação geral, sabemos também, por estudos aprofundados referentes a escravidão no Brasil, que a mulher negra sofria abuso sexual, além de ser vista como um bem rentável por gerar mais escravos. Não há dados referentes a esse tema para esta localidade, mas este comportamento foi encontrado em todo o Brasil.

O Quilombo da Família Silva no Ermo

Após a abolição da Escravatura em 1888, homens e mulheres negros, da fazenda das Pedras Brancas e da fazenda do Petim (do sesmeiro Fernandes Petim), dirigiram-se a um lugar distante do centro da pequena Vila das Pedras Brancas que se formava e ocuparam um lugar denominado de “Ermo”, que significa lugar calmo, lugar desabitado.

A ocupação deste espaço se deu principalmente pela oportunidade de trabalho e sobrevivência ligados aos matadouros e charqueadas, pois muitos negros vinham de atividades campeiras, do trabalho com o charque, como tropeiros, carneadores e peões, detentores de um conhecimento essencial para o funcionamento dos matadouros da beira do Guaíba.\

Muitos descendentes dos escravos que moraram no Ermo, trabalharam em um matadouro localizado no bairro e inaugurado em 1927. O prédio, propriedade privada, Tombado como Patrimônio Histórico de Guaíba, em 1999 e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – IPHAE em 2012, chama-se “Matadouro e Saladeiro São Geraldo,” mais conhecido popularmente como Matadouro Linck, por pertencer a empresa de Frederico Linck, empreendedor que havia vindo de Hamburgo Velho para Pedras Brancas, em 1904.

Segundo relatos dos mais antigos da cidade, no início do século XX, muitos negros ocuparam as margens do Lago Guaíba, hoje Av. Getúlio Vargas, localizando-se próximos das charqueadas e matadouros, como da Charqueada dos Irmãos Conte e da Charqueada Guaíba. Porém, com o desenvolvimento do vilarejo, os negros foram sendo deslocados para os espaços periféricos e distantes do centro da Vila.
Entre as muitas famílias que moram no Ermo, destacamos a Família Silva. Segundo a história oral e o estudo de Mestrado da Professora Aline Ryzewski, podemos dizer que existem fortes indícios de existir um quilombo urbano no Ermo. Não há o reconhecimento oficial na esfera Municipal e Estadual para tal afirmação. Ao mesmo tempo, alguns dos moradores não se auto reconhecem como quilombolas. Porém, a ausência do reconhecimento oficial e a não aceitação por parte de alguns moradores, não invalida as raízes históricas deste potencial território quilombola. Vejamos o que diz, Aline Ryzewski, em seu estudo para a defesa de tese de Mestrado:

“Olhando para esses excertos, vejo que não há a negação da identidade quilombola, mas sim entrecruzamentos identitários em que, por vezes, se é quilombola-brasileiro; outras vezes quilombola–não afro-brasileiro; às vezes, se é gaúcho-quilombola; e, ainda outras vezes, se é gaúcho–afro-brasileiro, entre tantas outras identidades possíveis. Ao posicionar-se o mesmo sujeito cultural de forma tão diversa, visualizam-se muitos dos conflitos, ambiguidades e das especificidades que produzem uma cultura e seus sujeitos. Assim, esses entrecruzamentos identitários podem ser entendidos como a “expressão da tensão e do conflito que a diversidade e a fragmentação, que lhe deram origem, introduzem nas representações que pretendem fabricar sua unidade”. (RYZEWSKI, 2008, p.91).

Os diversos processos de adaptação ao novo lugar que os ex escravos ocuparam como no caso dos ancestrais da Família Silva no Ermo, sua origem negra por parte de avó e branca por parte de avô; a formação da comunidade após a abolição gera sentimentos dúbios de pertencimento entre os membros da família. Segundo Ryzewski as políticas públicas de reconhecimento de quilombos não abarcam as especificidades encontradas. Observemos o que Ryzewski coloca:

“Considerando essas questões e outras exploradas até aqui, afirmo que não é possível pensar em uma categoria identitária única e homogênea que possa definir um jeito de ser, pensar e viver como um quilombola, tal como é fixada pelas políticas públicas relativas à questão quilombola. Isso porque, parto da perspectiva de que há múltiplas identidades culturais que foram constituídas e constituintes dos sujeitos da comunidade Silva, que vão nominando-os e posicionando-os de formas variadas, que ora convergem e ora põe sob tensão a identidade quilombola. Olhando de forma mais ampla para as identidades quilombolas, gaúchas e étnicas que se confrontam e convergem para tantas outras, é possível afirmar que há muitas possibilidades de posicionar-se que foram se constituindo entremeadas aos acontecimentos que interpelam os integrantes da Comunidade Silva ao longo de diferentes tempos e espaços.” (RYZEWSKI, 2008, p.91).

No Ermo encontraremos uma das mais antigas casas de religião de Matriz Africana de Guaíba, encontraremos também, a primeira escola de Samba da cidade, “Império Serrano” (década de 70).

As territorialidades significativas para a Cultura Negra aparecem não só na beira do Guaíba e no Ermo, mas em outros espaços da cidade. No Balneário Alegria, por exemplo, temos: A Pedra de Xangô (também conhecida como, Pedra da Alegria), localizada na Praça Dom Pedro e o assentamento religioso à Mãe Oxum (década de 1970), monumentos que refletem a força da religiosidade e da cultura de matriz africana em nosso município.

Temos muito para fazer em termos de estudos e compreensão de tão rica herança cultural e das relações étnico-raciais em nossa cidade. O assunto é desafiador e o debate necessário.

Fontes:
Museu Municipal Carlos Nobre – Livros de registros de impostos sobre a produção (décadas de 30 e 40).
Arquivo particular de Míriam Leão – Monticelli e Escosteguy. Pesquisa Arqueológica nas obras de restauro da Casa de Gomes Jardim, Município de Guaíba/RS. Levantamento Histórico, 2008.
Arquivo particular de Míriam Leão - WORM, Fernando. Guaíba Terra e Povo. 1974.
Ryzewski, Aline. Comunidade Silva: identidades em jogo, São Leopoldo, Unisinos, 2008.

 

FONTE/CRÉDITOS: Manoel Honório da Silva foi descendente de escravos, quilombo Urbano do Ermo.
Comentários:
Míriam Leão

Publicado por:

Míriam Leão

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