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Pelotas: do sal ao açúcar

Além de aproveitar a Fenadoce, os turistas podem conhecer um pouco mais da cidade

Pelotas: do sal ao açúcar
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Este mês, entre os dias 3 e 19 de junho, está acontecendo na cidade de Pelotas a tradicional Fenadoce. Mas como será que o doce surgiu na cidade? Que tal entender um pouquinho dessa história.

A produção de charque, juntamente com a força da mão-de-obra escrava, propiciou à cidade uma grande movimentação de capital, motivada pela alta cotação do charque no mercado. Tal situação trouxe para Pelotas hábitos requintados proporcionados, em parte, pelo contato de  estudantes, filhos de charqueadores, com a Europa. Assim, as boas maneiras, os hábitos e  costumes europeus, tendo por palco o interior dos sobrados, por ocasião das festas, das comemorações, dos saraus e banquetes acabaram por atingir uma importância inestimável na  sociedade pelotense.

De 1860 a 1890 os investimentos dos charqueadores foram intensos, em atividades de cunho cultural que caracterizaram o apogeu econômico da cidade de  Pelotas, sendo considerada a mais aristocrática  do Rio Grande do Sul. Os saraus, companhias teatrais e as recitas musicais, entre outras atividades, tinham programações praticamente diárias no interior da arquitetura grandiosa de prédios e casarões. Os doces eram servidos nos intervalos destes saraus envolvidos em papéis de seda rendados e franjados. Sua produção era realizada de maneira caseira pelas mulheres e suas mucamas. Como existiam rigorosas regras de etiqueta na época, muitas atividades não poderiam ser desenvolvidas ao ar livre. As mulheres passaram então a praticar hábitos caseiros, com reconhecido destaque na culinária, bordado, música e pintura. Este fato, portanto, contribuiu para a intensa produção e aprimoramento dos doces em Pelotas.

Os charqueadores, detentores de um grande poder aquisitivo, ostentavam seu poder na aquisição do açúcar, vindo principalmente da região nordestina, obtido por meio do intercâmbio entre o charque de Pelotas e o açúcar da região do Nordeste do Brasil. Com isso, Pelotas destacava-se na exportação de charque, principal alimento de todos os escravos brasileiros.  Assim, a cidade importava, na troca pelo charque, o açúcar que era produzido por escravos do Nordeste. 
Portanto, o intercâmbio com o Nordeste constitui-se como um dos fatores que deram suporte à emergência da tradição doceira em Pelotas. Tradição esta que servia como indicadora  da suntuosidade, riqueza e requinte da sociedade pelotense, uma vez que os doces só eram  servidos em ocasiões especiais, sendo o açúcar um produto caro e pouco acessível a pessoas de  baixa renda ao longo do século XIX.

Nas charqueadas, cerca de 80 escravos executavam o processo de salgar a carne. Tal  processo acontecia entre os meses de novembro a abril. No restante dos meses era preciso ocupar  os escravos. Para isso, em cada charqueada funcionava paralelamente uma olaria (produção de  tijolos). Além disso, a maioria dos charqueadores era proprietário de uma chácara no interior do  município, região denominada Serra dos Tapes. Para as chácaras eram conduzidos os escravos no período de inverno, onde eram incumbidos de fazer derrubadas, plantar milho, feijão, batata e  abóbora.

Após a abolição da escravatura, intensifica-se a venda e loteamento das terras onde se encontravam estas chácaras, que, ao longo das últimas décadas do séc. XIX, deram origem a inúmeras colônias como a Santo Antônio, a Santa Eulália, a São Bento, a Santa Áurea e a Santa  Silvana, formadas por pequenos lotes. Essas colônias receberam grande contingente de imigrantes europeus, tais como franceses, austríacos, italianos e alemães. Após a consolidação desses imigrantes como colonos, verifica-se um aumento do cultivo do pêssego, da laranja, da maçã, do figo, da goiaba, do marmelo. 

Em seguida, observa-se o emprego dessas frutas na forma  de compotas, doces de massa, passas e cristalizados. Com isso, pode-se afirmar que os doces de fruta, eventualmente denominados doces de safra, doces coloniais ou mesmo doces de tacho, possuem sua origem na região de economia colonial, fortemente marcada pela fruticultura.

A concentração afrodescendente na área urbana foi um processo recorrente em todo o país, sobretudo com o final do regime escravocrata, quando boa parte dos negros alforriados. Agrupou-se nas periferias urbanas.

No que se refere à contribuição do afrodescendente para a cultura doceira, ela está bastante marcada pelo elemento da cozinha sacrificial, da cozinha sagrada relacionada aos cultos afro-brasileiros. Esta contribuição, no entanto, precisa ser compreendida na esfera da fricção inter-étnica, na medida em que os negros, desde o período da escravidão, convivem diretamente  com a produção caseira de doces de origem portuguesa, incorporando parte de seus saberes e  fazeres. O quindim, por exemplo, é um doce que foi assimilado, em várias regiões do país, ao  culto afro-brasileiro, sendo muito usado como oferenda a Oxum.

Se considerarmos a distribuição geográfica das duas grandes tradições doceiras,  constataremos que os doces finos, cuja origem é atribuída à imigração portuguesa, concentram-se  na zona geomorfológica da Planície Costeira Interna, sobretudo na sede do município, onde se  concentrou a maioria dos imigrantes de origem portuguesa, que se instalaram majoritariamente na  área urbana, estabelecendo vínculos culturais com as elites de extração luso-brasileiras  vinculadas historicamente aos latifúndios situados na Planície Costeira, com frequência ligadas a tradições familiares remanescentes do período das Charqueadas.

Observa-se em Pelotas uma variação de influências étnicas na produção de doces, ambas entorno de duas grandes tradições: os doces finos e os doces de fruta. Os primeiros vinculam-se à tradição luso-brasileira e aos seus territórios mais  característicos, o centro urbano. Neste território urbano, interagem dois grupos étnico  predominantes: o substrato luso-brasileiro e o substrato afro-descendente, o último apropriando-se de componentes da tradição doceira de influência portuguesa, incorporado-os na composição de elementos dos rituais afro-brasileiros. Os doces de fruta, por sua vez, estão intensamente ligados à contribuição cultural da  imigração européia não-ibérica (alemães, pomeranos, italianos e franceses) e ao seu território  situado na zona rural serrana do município de Pelotas, apresentando suas particularidades,  conforme o legado étnico.

A  sociedade pelotense procurou abrandar sua imagem rústica saladeiril através da adoção de requintados costumes, constantes atividades intelectuais e imponentes construções. Neste contexto é que o doce se insere, embora não como protagonista principal, pois a economia estava baseada no trabalho dos negros, na punição do escravo, na degola do boi e nas mantas de carne sob o calor do sol – atividades tipicamente das charqueadas. Enfim, Pelotas estava imersa no ciclo do sal, onde os rituais de castigo e de brutalidade eram amenizados pela produção de poesias rimadas, cortesias, amabilidades, saudações solenes e dedicatórias rebuscadas e veladamente sensuais.

Entre diversos fatores, o fim da escravidão auxiliou no declínio das charqueadas locais assim como o surgimento de uma maior concorrência devido a produção de charque em outros municípios do RS. O surgimento dos frigoríficos que dispensavam o processo de salga da carne acabaram fornecendo subsídios para uma forte projeção nacional dos doces pelotenses. A partir da década de 1920, passou−se a divulgar comercialmente em todo o Brasil a tradição doceira que até então estava restrita ao interior dos casarões.

 

Gostou da história? 

Além de aproveitar a Fenadoce, os turistas podem conhecer um pouco mais da cidade, como as Charqueadas. A Rota das Charqueadas é um roteiro por algumas propriedades remanescentes do auge do ciclo do charque no Rio Grande do Sul, quando o estado passou a ter grande importância econômica no país.

O Centro Histórico, conjunto da cidade que possui significativo valor histórico, artístico e paisagístico, é fruto e testemunho do ciclo econômico e cultural do charque que ocorreu no estado entre 1800 a 1900. O Mercado Público, construído a partir de 1846, deixa sua marca na história gaúcha quando Dom Pedro II em passagem pelo Estado veio à cidade. Essa visita do monarca foi determinante para irradiar no povo pelotense o desejo de tornar a cidade desenvolvida e próspera. 

Pelotas conta com dois teatros: o Teatro Sete de Abril, que é um dos mais tradicionais e o mais antigo no Brasil, cuja construção é de 1831, e o Teatro Guarani.

A praia do Laranjal, localizada na Laguna dos Patos com areia grossa, muitas árvores, onde os banhistas sentam-se as suas sombras para relaxar, possui uma orla é ampla, com um belo calçadão para prática de caminhadas, ou simplesmente passear. A natureza é exuberante, toda ela preservada.

O Museu da Baronesa, de 1863, época de uberdade da cidade, possui um estilo neoclássico e colonial brasileiro. Reúne um acervo com mais de mil peças, entre enxovais, mobílias de mogno, bibelôs, porcelanas, baús e vestuários da época.


Ou seja, opções não vão faltar a cidade é rica em cultura história.


Até a próxima viagem 😘 

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