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Sabado, 23 de Maio de 2026

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Próxima parada: Estação de Sonhos

A arte como algo essencial

Próxima parada: Estação de Sonhos
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Semana passada essa coluna conversou com a artista e pesquisadora Jaqueline Iepsen que divide seus dias com a palhaça Assuntina. 

Foi um bate-papo bem legal que abriu caminho para essa série de entrevistas que visam dar espaço aos nossos fazedores de cultura, sempre dando destaque para as suas trajetórias profissionais e buscando entender um pouco mais sobre os seus trabalhos, suas personalidades, destacando os desdobramentos de suas Artes e suas contribuições para nossa cidade.   

A convidada dessa semana é a atriz e empreendedora artístico-cultural Luiza Sanguanini 

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Que tal conhecer um pouco mais da história de uma das mais carismáticas atrizes locais?   

Nesta entrevista, realizada através de chamada de voz e transcrita em sua íntegra, tive a oportunidade de matar algumas curiosidades e também conversar sobre os efeitos da Pandemia na rotina da Estação de Sonhos, sua escola de Artes.  

As respostas são muito interessantes e eu tenho certeza de que vocês também vão gostar dessa conversa. 

DRONE CULTURAL – Seja bem vinda, Luiza. Quero te agradecer por ter reservado um pouquinho do teu tempo nessa manhã fria para essa conversa comigo. Eu queria que tu começasses falando um pouquinho da tua trajetória. Sei que, além da formação em Arte Dramática pela UFRGS, você possui outras credenciais. Pode nos contar um pouquinho sobre a tua formação? 

LUIZA – Em primeiro lugar, quero te agradecer pelo convite. Falando de mim um pouquinho, da minha trajetória: eu tenho duas lembranças do meu primeiro contato com a arte. A primeira lembrança foi de uma forma bem de brincadeira. Eu estudei praticamente minha vida inteira na escola Gomes Jardim e, todos os anos, eu acredito que mais de uma vez por ano, tinham os Festivais de Teatro. Eu não sei se eram especificamente festivais, ou se eram outros grupos que vinham pra se apresentar. Eu sei que as apresentações eram sempre no Itapuí. Grande parte das vezes no Itapuí. E teve uma época também, nós tínhamos o pavilhão Canadá, do Gomes Jardim, e vinham peças de teatro pra se apresentar ali também. Eu sempre fui uma criança muito lúdica, muito apaixonada pela fantasia. E a partir do momento em que eu percebi que todo ano tinha essas apresentações de teatro, eu ficava enlouquecida esperando por essas apresentações.  

A primeira vez que eu subi no palco foi para brincar, porque teve uma apresentação de teatro no Itapuí. O meu pai me levou e, no final do espetáculo, eles fizeram uma brincadeira: convidaram as crianças para brincar de morto-vivo, e quem recebesse o prêmio ia ganhar um... ah eu não me lembro do nome do brinquedo... um brinquedo que jogava pra frente e ele voltava pro lugar, sabe? Tipo... me fugiu o nome o brinquedo. Enfim... e aí eu venci essa brincadeira. Eu fui muito concentrada, porque a emoção de estar ali... Nem era pelo prêmio, mas eu queria vencer aquela brincadeira, eu queria ficar ali.  

Muito bem. Saí do palco, não foi uma experiência artística, mas só o pisar no palco mexeu de alguma forma comigo. A segunda vez foi no pavilhão do Gomes Jardim. E aí sim foi uma peça de teatro. Eu realmente não sei te dizer qual era o tema da peça, não me lembro, porque eu era muito pequena. Eu devia ter, na época, uns oito anos. Não...menos, eu acho, porque o pavilhão ainda existia... entre seis e sete anos. E, no meio do espetáculo, um dos atores desceu do palco, precisavam chamar alguém da plateia pra ajudar na encenação. E eu né, enlouquecidamente, com a mão levantada: “Eu! Eu! Eu!”, fiz com que me chamassem, né? Ok, subi no palco, vesti um macacão cinza. O personagem que eu tinha que fazer era um operador de câmera. Segurar a câmera para um repórter. Quando eu estava vestindo o macacão, a outra atriz chegou e disse: “Não, não pode ser ela. Não pode ser ela porque tem que ser um menino.”. E eu disse: “Não! Mas eu já  com a roupa, já botei a roupa. Por quê? Eu já  aqui, já me mostraram como segurar a câmera. Eu vou fazer!”. Aí, no meio da discussão, ela aceitou que eu fizesse mesmo sendo uma menina. Então essa foi a minha primeira experiência de palco.  

E aquilo ficou, mexeu muito comigo. Eu realmente sai empolgada, contando pros meus colegas. Cheguei em casa, contei pra minha mãe, e fiquei muito empolgada.  

Muito bem. Passando algum tempo, acredito que deve ter passado uns dois anos, mais ou menos... Eu não tive nenhuma outra experiência, a não ser continuar assistindo às peças que vinham pro pavilhão do Gomes Jardim e pro palco do Itapuí. E eu era, mesmo assim, muito apegada na minha mãe. Eu era meio bichinho do mato assim. Não me misturava muito com outras pessoas na época. E aí surgiu a oportunidade, no Gomes Jardim, de uma oficina de teatro, que foi com o José Renato Leão. Era uma oficina bem escolar mesmo. Acho que devia ser uns dois, três sábados. E eu participei dessa oficina, bem tímida, bem assustada, mas assim, com muita vontade de entender um pouco mais, o que se fazia como atriz. Fui me empolgando. Surgiu depois as oficinas da cidade, que também eram com o José Renato Leão. Essa oficina era um pouquinho mais profissional, vamos dizer assim, porque no final tinha uma conclusão, tinha um espetáculo. Foi A Família Adams, eu me lembro. 

DC – Que maravilha! Quem tu era? 

LUIZA – (risos) Eu era uma das gêmeas siamesas (mais risos). Junto com uma outra amiga minha. Então, não tinha o papel principal, mas eu já estava contente com aquele papel ali. 

Os meus primeiros papeis foram sempre muito secundários. O próximo que eu me lembro, eu era uma pata (risos). Mas depois, no início da minha carreira como professora, eu usei essa pata como uma forma didática também (risos). Foi bem interessante.   

Então eu fui ficando nessa oficina, e a partir dessa oficina surgiu o grupo. Era um grupo paralelo ao Núcleo Teatral grupo em que hoje eu atuo. E esse grupo paralelo tinha uma admiração muito grande pelo Núcleo Teatral. Todos que eram do grupo paralelo sonhavam um dia em ir pro Núcleo. Certa vez eu consegui a vaga no Núcleo, substituindo uma atriz que saiu. Porque, na época, eu não era muito requisitada assim, mas eu ia tentando. Eu ia me direcionando, e ia tentando conquistar. Assim eu fiquei no Núcleo, e tenho essa experiência toda de mais de vinte anos, né? Um grupo com o qual a gente viaja pelo Rio Grande do Sul todo com peças de teatro, fazemos eventos na cidade, e todo esse trabalho do Núcleo que tu já conhece. 

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Quando eu me formei no ensino médio, eu já logo entrei na faculdade. A minha formação acadêmica, minha formação universitária, é em psicologia. E eu comecei porque, meu sonho já era ser atriz, já era trabalhar com teatro, mas sempre aquela questão da dúvida sobre a escolha de uma carreira que tu possa sobreviver dela, e sabendo, ao mesmo tempo, que os artistas, em grande parte, principalmente para aqueles que não são os grandes artistas, é bem difícil, né?  

Essa carreira está sempre na luta.  

Então, por incentivo também dos meus pais, eu acabei fazendo psicologia, que é uma coisa que eu amo também, mas junto à psicologia eu entrei num outro curso, que foi o TEPA. Ele é um curso profissionalizante, um curso de formação de atores mesmo. Fiz os dois anos do curso. Eu pulei o básico, porque como eu já tinha uma certa experiência, eu entrei direto no de formação de atores. Eu já estava com dezoito anos, então eu podia entrar. Ali fiz Formação de atores, e fiz Estilo de interpretação teatral.  

Foi uma experiência muito boa que eu tive nessa época, porque, até então, nós só tínhamos feito teatro infantil. O Núcleo ainda não tinha tido... o meu Núcleo, da minha época, pelo menos, não tinha tido uma experiência com teatro adulto ainda. Quando eu entrei no TEPA, eu tive uma experiência totalmente nova de teatro. Eu não vou nem dizer melhor, porque eu acho difícil a gente comparar uma coisa com a outra, mas totalmente nova pelo fato de conhecer técnicas de teatro adulto e técnicas mais aprofundadas que tu realmente vai estudar. Porque quando a gente começa a fazer teatro lá na infância, na adolescência, a gente acha que é tudo muito na prática, e realmente é. A gente trabalha mais na prática, né? Mas existe todo um conteúdo, toda uma teoria que tu nem imagina quando se começa, quando você é muito jovem. Então quando eu entrei no TEPA, eu comecei a pesquisar mais essas teorias, comecei a estudar, comecei a ler, e isso trouxe uma experiência muito maior, muito mais inovadora, que eu não espera que fosse ser tão forte assim pra minha carreira.  

Na época, logo que eu entrei no TEPA eu comecei a dar aula em escola de educação infantil. Sempre trabalhando muito a parte lúdica. Eu sempre gostei muito de criança. Então eu adaptava as técnicas que tinha de teatro mais profissional para as brincadeiras de criança também. E aí fui estudando, fui transformando, fui dando aula em outras escolas, e fui me baseando nessas técnicas, e encaixando pra educação infantil. Fui fazendo outros cursos, outras oficinas.  

Então abrimos a Estação de Sonhos. Ela é uma escola e também é uma empresa familiar. Eu cuido da parte pedagógica, da direção de espetáculos, da produção, do marketing, faço um pouco de tudo... Sempre com o apoio dos meus pais. Meu pai fica na parte administrativa e a minha mãe ajuda na parte pedagógica.  

Sempre fui uma pessoa muito da Arte, embora eu não cante profissionalmente, não toque profissionalmente, eu faço tudo isso um pouco. Eu toco um pouco de violão, eu toco um pouco de teclado, eu canto um pouco, nada de forma profissional nessa parte, mas eu sempre gostei muito de tudo isso.  

Então a Estação de Sonhos foi realmente um sonho pra mim. Eu lancei a ideia pro pai e pra mãe, eles me apoiaram, me ajudaram a investir, no primeiro momento, pra gente conseguir abrir a escola, e a gente foi buscando outras pessoas com os mesmos sonhos. Que tinham essa vontade de fazer teatro, de dançar, de cantar. E a gente vem tentando mostrar pra todo mundo isso aí, essa Arte, querendo que as pessoas realmente acreditem, se apaixonem tanto como nós somos apaixonados. 

DC – Que legal! Eu fui construindo a tua trajetória. Fui aqui imaginando tu pequena e foi crescendo assim, sabe? Quase acompanhando o desenvolvimento de uma criança. Eu queria saber o que é Teatro pra ti? 

LUIZA – Eu sempre tive uma dificuldade de expressar realmente o que é o teatro. Expressar, colocar em palavras, na verdade. Porque eu acho que o teatro ele... ele não te dá palavras pra descrever, né? Quando tu tá no palco, o ator, ele não encontra as palavras pra descrever, elas são muito difíceis. É realmente muito difícil colocar em palavras. Porque a gente não fala, a gente sente, né? Mas aquela palpitação que tu sente, as lágrimas, o suor, a raiva, todos esses sentimentos que não são falados e sim sentidos, é o que a gente mais presa, é o que torna a magnitude do teatro. Isso falando pelo lado de atriz, dentro do palco. E quando isso chega na plateia, quando a plateia fica confusa, quando a plateia não sabe expressar em palavras o que está sentindo, mas tem todas essas emoções, essas palpitações, essas lágrimas, essa raiva, que é o que o teatro vem buscar, o teatro vem transformar, seja simplesmente naquele momento, aquela sensação momentânea de tu estar ali na frente do palco e sentir tudo aquilo, ou seja, também pra vida inteira. Eu acho que é a catarse que a gente chama, né? Tanto no contexto do teatro, quanto no contexto da psicologia, essa transformação que a gente passa, que a gente vê no teatro e que nos toca.  

DC – E é interessante tu falar isso, porque a gente sempre busca tocar as pessoas. De alguma forma influenciar. A gente influencia sentimentos, através da catarse. Por outro lado, nós também somos plateia. Eu queria saber quais são as tuas referências, e onde tu buscas inspiração. Pode comentar um pouco sobre isso? 

LUIZA – Quando eu comecei, eu te confesso que eu era um pouco preguiçosa. Eu digo na questão de preguiça de leitura. Na verdade eu acho que não era nem uma questão de ser preguiçosa, e sim muito ansiosa. Porque eu queria sempre um resultado muito rápido, de testar, de mostrar, de estar ali, de fazer esse teste todo e querer um resultado muito rápido. Então, por referência e inspiração, quando a gente é muito novo, quando a gente começa muito cedo, que nem eu comecei, quando tu é criança, tu não busca muitas referências, nesse quesito, uma referência teórica, vamos dizer. Mas tu tem a referência lúdica, né? Eu quero trazer esse contexto, porque como eu trabalho com criança, eu acho bem interessante que seja falado disso também. 

Eu, como eu disse no início da entrevista, sempre fui uma pessoa muito lúdica, uma criança muito apaixonada por fantasia. Então eu acredito que quando eu ainda era criança, início da fase de adolescência, eu buscava certamente inspirações em desenhos. Talvez pareça um pouco absurdo, mas eu era apaixonada pelos desenhos da Disney, e essas aventura que a gente assistia, então eu brincava realmente de ficar na frente do espelho e representava aquelas cenas das princesas, das heroínas. Eu realmente ficava na frente do espelho e reproduzia todas as cenas que eu assistia nos desenhos e nos filmes infantis.

Quando a gente cresce um pouco mais, e a gente quer se afastar, vamos dizer, da questão infantil, porque quando tu entra na adolescência tu já quer virar adulto de uma vez. Então tu começa a prestar mais a atenção nas novelas, nas atrizes e nas cenas de novela. E eu segui por esse caminho. Eu olhava as novelas e tentava representar aquilo que as atrizes estavam fazendo.

Então eu lembro que na época de adolescente, eu gostava muito de representar cenas que eu chorava e que eu brigava. A gente tenta representar aquilo que não faz tanta parte do nosso cotidiano e eu que, graças a Deus, sempre fui uma pessoa muito alegre, muito de bem com a vida, queria mudar um pouco. Então eu olhava as cenas das novelas, e eu brigava, enlouquecia. Eu lembro que na época eu tinha uns doze, treze anos (eu acho) e passava a novela O Clone. Eu via a Giovanna Antonelli chorando, tentava chorar igual a ela, mas não saía uma lágrima. Fazia caretas e tentava tudo, né? Eu buscava esse tipo de inspiração.

Claro, depois a gente cresce. A gente resolve realmente seguir uma carreira, e aí a gente procura estudar. Então tu começa a pesquisar, a conhecer outras atrizes. Tu vê tantas atrizes da televisão, Gloria Menezes, Fernanda Montenegro, Cacilda Becker, que tu começa a estudar um pouco mais de teatro, e aí tu pesquisa essas atrizes e dentro da história do teatro tu começa a se identificar e buscar realmente referências históricas mesmo, pesquisar e entender um pouco mais. Quando tu vê os artistas simplesmente na televisão é uma coisa um pouco distante, porque o teatro e a televisão são coisas bem diferentes, apesar de que, eu acredito, que a essência da interpretação seja a mesma, mas são mundos bem diferentes. Assim tu começa a pesquisar, entender, ler livros sobre interpretação também.

Eu acho que Stanislávski é referência para qualquer ator que queira realmente começar a estudar. Quando estudava psicologia, na época em que fiz o meu TCC, eu li um livro O Corpo Fala. É um livro tanto teatral, quanto psicológico, que tu pode fazer um link dessas duas coisas. E é muito interessante também tu perceber esse lado psicológico,na ligação da tua expressão. Na expressão corporal, ou de forma geral. Então eu acho que as referências, as inspirações, elas vão se modificando ao longo do tempo. Quis falar sobre a infância, porque eu acho que tem que ser falado pra quem começa cedo, que nem eu.

Acredito que muitos dos meus alunos, vão seguir uma carreira assim, e que eles precisam se basear conforme a realidade deles. Não adianta tu querer trazer uma referência de Stanislávski, por exemplo, pra uma criança pequena. Então eu acho interessante a gente falar sobre isso.  

DC – Muito bom! Te conheço tanto como atriz, como quanto empresária, empreendedora. Sobre a Estação de Sonhos a gente vai falar daqui a pouco. Ainda do ponto de vista da atriz, tu listou uma série de referências interessantes. Ainda sob esse mesmo ponto de vista, na tua opinião, desde a pesquisa, o momento em que está começando a montar um espetáculo, até a prática, a apresentação em si, quais são, para ti, os maiores desafios? 

LUIZA – Eu acho que primeiro de tudo, o desafio é entender o personagem. Quando tu recebe um roteiro, tu faz a leitura dramática, tu tenta começar a entender qual é a função desse personagem. Só que na segunda leitura, tu já tem dúvida da função dele, porque tem vários pontos de vista. Então é aquela questão: a gente tem que saber defender o personagem, seja ele o mocinho, ou seja o vilão. Então tem que ter todos os argumentos pra defesa do teu personagem. E eu acho que o primeiro processo é conhecer, entender, realmente, o personagem pra que tu possa absorver todas as características, físicas, psicológicas, pra que então tu possa colocar em prática. Então, acho que, do ponto de vista da atriz, esse sempre foi o meu primeiro cuidado, minha primeira preocupação é tentar realmente entender, saber quem é esse personagem, pra daí sim, a partir disso, se buscar fazer um laboratório, e tentar colocar em prática todas as características, todos os pensamentos, toda a montagem, toda a criação desse personagem.  

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Então eu acho que o primeiro passo é esse, certo? Conhecer o personagem, e aí depois a gente vai testando, vai criando. Criando corpo desse personagem, vai criando a voz, vai criando os gestos, as características vocais desse personagem. E isso é um processo que mesmo que tu prepare, que tu queira criar de uma certa forma, tu, como ator, sabe que o resultado muitas vezes não é como a gente espera, e que durante o processo de criação a gente troca várias vezes. A gente descobre que esse personagem que tu tanto tentou conhecer no início, não é dessa forma. E aí tu volta pra leitura, tu volta pro laboratório, tu volta a tentar entender toda essa questão psicológica desse personagem, de saber quem ele é, de saber porque ele tá ali, de saber os desejos dele, de saber as motivações de cada cena, e aí tu recomeça.

Eu acho que a gente sempre fez um trabalho muito rápido de interpretação, porque a gente precisava ser rápido. Mas a gente sabe que poderia se voltar muitas e muitas vezes pra reiniciar esse processo de criação desse personagem, porque a gente vai criando e no meio do caminho vai lembrando e descobrindo que esse personagem tem várias outras características que a gente não colocou no meio dessa criação, mas que fazem parte dele. Então acho que o maior desafio, é o recomeço de sempre. É tu achar que tá com o personagem pronto, e no meio do caminho tu perceber que não, que falta coisa ainda.  

DC – É legal tu trazer esse caráter quase artesanal da nossa arte, né. Porque é uma lapidação, e são diversas camadas que a gente tem que ir trabalhando, pra gente conseguir atingir algo que seja verossímil, que tenha alguma verdade, que toque as pessoas. É legal porque essa é uma pergunta (assim como várias outras que eu vou repetir pra todo mundo que passar por aqui) que eu gosto de fazer para mostrar as diferenças entre as personalidades artísticas, mostrar o quanto parece que a gente faz a mesma coisa, mas que no fundo a gente atinge o resultado e é atingido de maneiras diferentes.  A pergunta é igual, mas a resposta não, porque a resposta vai depender da trajetória da pessoa.

Então, indo por esse lado, e tentando entender um pouco do espírito do artista e daquela mente criativa, eu queria que tu dividisse com a gente, algum momento nessa tua trajetória, seja em cima do palco, nos bastidores ou nas aulas, em que tu terias te emocionado além do normal. Porque a gente sempre está no auge da emoção quando a gente está em cena. Mesmo que a gente consiga se dividir entre o personagem e a gente, sempre estamos sob a influência de uma emoção muito louca ali. Em algum momento essa emoção extrapolou, e tu pensou: “Nossa, esse momento eu nunca mais vou esquecer?” 

LUIZA – Eu vou mencionar uma parte referente às minhas aulas. No ano passado eu tive uma dificuldade muito grande com uma turma de adolescentes. Fico até um pouco emocionada de falar aqui também. Essa turma de adolescentes, todos eles tinham problemas emocionais bem graves. Não de distúrbio, ou transtorno nenhum, mas problemas acumulados pela vida deles. E aconteceu desses alunos irem todos pra mesma turma. Eram alunos entre 12 e 16 anos. E nós fizemos a montagem de um espetáculo que foi muito difícil, eu cheguei a pensar que a gente não ia conseguir, porque eles tinham muitas limitações. Tinham insegurança, achavam que não iam conseguir, se achavam feios, se achavam insuficientes, maus atores, não tinham segurança. Eles realmente tinham essas limitações, essas preocupações, acabavam faltando nos ensaios por medo. Não sei se o medo era de decepcionar os colegas, de me decepcionar, de decepcionar a si mesmos, mas foi um trabalho muito difícil de se fazer.

Mas larguei um pouco o objetivo inicial que era montar esse espetáculo como uma grande mostra de um trabalho de ator, e transformei esse trabalho como uma motivação pra que eles se conhecessem melhor e descobrissem que eles eram capazes sim, de qualquer coisa que eles quisessem fazer, desde que eles se apoiassem uns nos outros e corressem atrás, se dedicassem. Chegamos no dia do espetáculo, e conseguimos. Com o suporte de outros atores. Eu chamei outros dois atores de um outro grupo que a gente tem na Estação, com uma experiência maior, mas nós conseguimos fazer a apresentação do espetáculo. E no final do espetáculo foi uma choradeira. Todo mundo, eles, eu... Me abraçaram, me agradeceram, eu agradeci também, que foi realmente um momento muito lindo (emocionada). E eu fiquei com medo de desistir dessa turma, porque foi muito difícil.

O objetivo inicial era fazer um espetáculo de conclusão do curso. E esse objetivo, claro, foi alcançado também, mas o processo dele se encaminhou por um outro lado que eu acho que é também o papel do teatro, né? Porque o papel do teatro não é somente a transformação pro público, é a transformação da pessoa. E ouve essa transformação das pessoas. Então foi um momento que, agora me lembrando com essa pergunta, me deixou muito emocionada. E eu tenho certeza que todos esses que participaram desse dia, desse processo, se sentiram emocionados e transformados.   

DC – Bom, isso tudo que você falou, meio que antecipa a minha próxima pergunta, porque talvez a resposta esteja nessa transformação.  Eu ia te perguntar o que é estar em cena? Mas eu acho que é tanta coisa, e essa transformação ela acaba sendo tão importante que ela supera qualquer sentimento e qualquer visão que a gente tenha de cima do palco ou dentro da arena, né? Dando continuidade, eu gostaria que tu me contasse (essa também é uma pergunta que eu vou repetir bastante por aqui) se no dia do espetáculo, você tem algum ritual que faz antes de entrar em cena. Alguma rotina que tu estabelece pra aquele dia? Tu tem alguma mania nesse sentido? 

LUIZA – Sim, na verdade eu e os meus colegas, e consequentemente os meus alunos, nós temos sempre o mesmo ritual. A gente dá as mãos, faz um círculo de mãos dadas, respira fundo, cada um diz uma palavra que não pode faltar no dia do espetáculo, no momento do espetáculo. E ali a gente coloca todas as nossas energias de uma forma positiva, com palavras positivas, que a gente precisa ter naquele momento. Então nós nos unimos. Eu diria que é um tipo de oração, né? E colocando a nossa energia para que a gente possa colocar em palavras tudo o que não pode faltar no nosso espetáculo. Que a gente tenha emoção, que a gente tenha concentração, que a gente tenha paixão, que a gente tenha responsabilidade. Todas essas palavras que a gente precisa reforçar. Tudo isso que a gente já sabe que precisa e que tem sempre. Mas foi uma coisa que veio do Núcleo, chegou pra mim no Núcleo e eu repassei para os nossos alunos. Então tanto no meu grupo como atriz, quanto no meu grupo como diretora, a gente faz sempre esse ritual. Uma concentração de mãos dadas, uma energia, e palavras positivas pra nos ajudar naquele momento ali.  

Em 2019, o Núcleo Teatral comemorou 20 anos com peça para crianças no Itapuí
Em 2019, o Núcleo Teatral comemorou 20 anos com peça para crianças no Itapuí | Foto: Pedro Molnar

 

DC – Outra coisa que acho legal de perguntar e que sempre traz uma história bacana, porque por mais que a gente se prepare, que a gente ensaie, que o processo tenha, sei lá, vinte mil horas de ensaio, sempre estamos na beira do caos, uma coisinha pode desestabilizar toda uma apresentação. Eu queria tu contasse, se tu lembra, de algum grande perrengue ou apuro que tu passou em cena. 

LUIZA – Vários né! (risos) Sempre tem! Já esqueci texto várias vezes. Mas assim, deixa eu falar uma coisa importante, que é uma coisa que funciona muito bem, eu acho. Quando a gente trabalha no mesmo grupo há muito tempo, a gente se conhece no olhar. Se qualquer um de nós esquecer o texto, antes de esquecer, o colega já sabe que a gente esqueceu. Só numa respiração diferente. Então, isso já aconteceu algumas vezes de a gente esquecer ou trocar algum texto que não era agora, falar um texto aleatório do espetáculo.

Mas eu acho muito interessante que, apesar desse esquecimento, dessa troca, nunca chegou a prejudicar nossos espetáculos, porque a gente sempre conseguiu improvisar em cima disso. E eu acho uma coisa muito boa, justamente por ser de um grupo que trabalha muito tempo junto e se conhece, se conhece tanto, que a gente acaba se tornando um só em cena, como atores. Eu digo se tornando um só mesmo, por esse fato de cada um saber quando o outro precisa de ajuda. Então a gente sempre teve esse retorno, a sensibilidade. Eu falo isso hoje como atriz do Núcleo Teatral, que é basicamente o grupo que eu... até já atuei em alguns outros, quando eu estudei no TEPA, eu hoje estudo na UFRGS.

Mas, falando no Núcleo, a gente sempre socorre um ao outro. E eu acho que isso é uma coisa que talvez não seja tão comum em outros grupos. Principalmente nesses grupos que estão sempre trocando, né? Eu acho que existe uma intimidade muito grande, um conhecimento entre os colegas muito grande pra isso. E é uma coisa que a gente conversa, de tempos em tempos, sobre isso. Até após o espetáculo, e as vezes ri daquela situação toda. Então essa questão de esquecer o texto, e ter ali os meus colegas sabendo que eu estou em apuros, ou eu sabendo que eles estão em apuros, a gente sempre consegue resolver. Isso é uma coisa muito boa.

E outras coisas assim, como figurino que não deu certo: uma vez eu fazia a roseira, na Cotovia Rosa, parte do figurino da roseira eram os galhos. Bom, eu tinha o figurino, que era um vestidão, a maquiagem e por cima eram galhos enormes. Eu aqueci, me preparei, fizemos a nossa concentração, estava maravilhosa para entrar em cena. Entrei em cena sem os galhos! E o desespero bateu. Mas ali, naquele espetáculo, eu não tinha o que fazer, e os meus colegas também não tinham como me socorrer, porque ninguém saía de cena naquele espetáculo. Eu passei o espetáculo inteiro sem os galhos. Mas quem nunca tinha visto, não percebeu. Só eu estava ali em prantos, naquele dia só dando as minhas falas, porque eu não conseguia parar de pensar nos galhos. Mas acontece, né? 

DC – Que legal! E é muito louco né? Eu não sei se isso acontece contigo, mas sempre que eu estou em cena, é como se a minha cabeça estivesse dividida em duas. A cabeça que tá trabalhando, que está em cena, vivenciando a cena; e uma cabeça de diretor, que fica meio que me organizando, e dando os direcionamentos. Avisando por onde eu tenho que sair, que roupa eu tenho que colocar, por onde eu tenho que voltar. A gente fica trabalhando num modo meio duplo, né?  

LUIZA – E eu não sei se isso é bom ou ruim. Porque, tu também é diretor, né? E quando eu era só atriz, talvez eu não tivesse essa preocupação tão grande. Agora sendo diretora, eu me pego na mesma situação. E não só pensando em mim, mas pensando nos colegas também. A gente fica realmente dividido entre a interpretação e a direção. 

DC – Por isso que nunca é igual, né? Todo dia é um pouquinho diferente. E essa é a parte gostosa do perrengue todo. Mas agora voltando só um pouquinho para a Estação de Sonhos, saindo um pouquinho da Luiza, mas seguindo nessa onda do perrengue. Agora estamos passando por um dos momentos mais confusos da história da humanidade. Fomos atingidos em cheio após todas essas medidas de segurança, que são necessárias, mas que deixou as nossas atividades suspensas, ou mais dificultadas. A Estação de Sonhos estava no meio das aulas regulares, né? Inevitavelmente vocês tiveram que fazer algumas alterações. Eu queria que tu falasse um pouco sobre como está sendo esse momento de transição na escola, sobre como vocês estão se adaptando. Quais estão sendo as principais dificuldades, e quais pontos estão te surpreendendo de maneira positiva? 

LUIZA – Quando começou a pandemia, nós ficamos realmente muito apavorados. E isso que, inicialmente, a gente achava que ia ser um mês, um mês e pouquinho. Porque a Estação de Sonhos é uma escola de arte. Ela é uma escola que não é obrigatória nem para as crianças, nem para os adolescentes. Em momento normal, sem pandemia, já era dessa forma.

O que acontecia: os pais matriculavam na escola regular no primeiro momento, e no segundo momento matriculavam na Estação de Sonhos, já que, segundo uma interpretação geral, a arte não é essencial. Então a primeira coisa é o colégio, as aulas de inglês, o esporte, né? Isso eu digo na visão de, infelizmente, muitas pessoas. Então o que acontecia: quando o pai ficava sem dinheiro e tinha que dar prioridade para alguma coisa, tira o curso da Estação e faz outras coisas.

Quando começou a pandemia, a gente pensou que ia ser isso, que todos os alunos iriam cancelar a matrícula. Porque vão ficar um mês, dois meses sem aula, e não sei como a gente vai se virar depois. Pensando na maioria das pessoas. Mas também a gente pensou por um outro lado, que eu acho muito importante enfatizar aqui, que desde que nós abrimos a escola, nós temos um público fiel, de determinados pais e alunos que estão com a gente desde 2014, quando nós abrimos. E nós tínhamos certeza, ou quase certeza, de que de alguma forma esses pais iam nos apoiar. E eles realmente nos apoiaram. Eles continuaram pagando a mensalidade. No primeiro mês, nós dissemos que depois as aulas seriam recuperadas. Só que as coisas foram se estendendo. Ainda no mês de março eu preparei e abri as vídeo aulas para todo mundo. Mesmo para as crianças que não eram da Estação, eu fiz de forma gratuita as aulas de teatro e recreação. E foi uma experiência que eu não sabia se ia dar certo.

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Dar aula de teatro por vídeo, né? Como é que isso vai dar certo, por vídeo conferência, um monte de criança, vai dar maior bagunça. Mas eu quis tentar nesse momento, até nem pensando em depois sugerir como continuação. Mas a gente fez e eu me surpreendi, porque deu muito certo. As crianças pararam na frente do computador, com empolgação. A participação, a concentração foi algo que eu jamais esperava que fosse dessa maneira. Então, quando as coisas se estenderam em abril, a gente resolveu colocar realmente em prática, como atividades oficiais da Estação enquanto estamos nesse momento de pandemia.  

Então todos os cursos estão sendo feitos por vídeo conferência. O teatro e o balé estão sendo feitos por vídeo conferência. E as aulas de música, de violão, teclado e canto, que continuam em atividade também, são individuais. São aulas por vídeo, porém para um aluno de cada vez.  

É algo inovador, que as pessoas estão gostando. Claro, isso nunca vai substituir o presencial, porque a energia que a gente tem em frente das outras pessoas é algo insubstituível. Mas num processo de adaptação, que está sendo necessário nesse momento, eu acho que tem trazido uma experiência muito rica. De adaptação e de renovação pra todo mundo, inclusive para que aquelas pessoas que não eram muito tecnológicas, vamos dizer assim, tivessem que se aprofundar mais nessa tecnologia, nesse conhecimento para que não ficassem de fora, pra que conseguissem caminhar junto.  

Acho que o mundo precisa dessa atualização também, precisa se aprofundar em certos conhecimentos. Então por mais que a gente se preocupe com essa questão toda da pandemia, do distanciamento social, na questão prática de aulas trouxe algo positivo, sim. Claro que não foram todos os alunos que encararam dessa forma. Teve muita desistência de matrícula. Mas graças à Deus, até então a gente consegue se manter. Obviamente não da mesma forma que era antes, mas a gente está conseguindo manter sim, com esses cursos online.  

DC – Infelizmente, não temos como prever muitas coisas para os próximos meses. Continuamos na luta para nos mantermos na atividade. Buscando alternativas em meio ao caos. 

Uma dessas tabuas de salvação, mesmo que com bastante atraso, chegou através do edital FAC-Digital, do governo Estadual, através da SEDAC. Um edital que vai contemplar com 1.500 reais projetos culturais que possam ser exibidos através de plataformas de internet e redes sociais. Você foi uma das sete pessoas selecionadas aqui em Guaíba. Poderia contar um pouco sobre o teu projeto e qual a importância desse edital nesse momento? 

LUIZA – O projeto surgiu em um momento de insight. Era início de abril e eu estava muito preocupada, bem desmotivada porque a gente não sabia...a gente ainda não sabe quando isso vai terminar. O desânimo não era apenas pelo lado financeiro, profissional, era uma preocupação com a saúde e com a saúde mental das pessoas. Porque eu via todo mundo com essa preocupação (que a gente precisa) de lavar as mãos, de tirar o calçado, de desinfetar tudo, enfim, toda essa preocupação e cuidados que estamos tendo durante a pandemia. Daí, do nada meio veio as cenas cômicas de tudo isso que, na verdade, não são cômicas, mas parece algo tão exagerado que às vezes se transforma em algo cômico. E aí eu comecei a pensar nessas cenas e ver o que parece ser exagero, e não é, e me veio a imagem de um personagem fazendo todas essas coisas. 

Na verdade, quando eu pensei nesse projeto, eu nem pensei nele para uma inscrição em edital nenhum. Eu pensei em montar esse espetáculo para fazer uma live lá na Estação dos Sonhos, para divertir as pessoas e tentar amenizar um pouco essa sobrecarga mental que a gente está tendo. É um espetáculo que conta o que a gente está passando durante a pandemia e a personagem protagonista é uma clown, chamada Pipa, que planeja fazer uma viagem, mas se depara com as restrições impostas pelo coronavírus.

A intenção desse espetáculo é justamente trazer de uma forma leve e reflexiva as questões para que as pessoas pensem que sim, quem pode estar em casa, fique, mas que não se torne prisioneiro desse momento. Que possa criar um ponto de fuga, para que a saúde mental da pessoa não fique tão prejudicada, porque é o que está acontecendo com as pessoas. Infelizmente, os casos de depressão aumentaram muito. A gente vê notícias de pessoas desesperadas, e as pessoas que não estão infectadas com o coronavírus, estão impactadas na sua saúde mental. Todos nós estamos, né?

Então, com o Era uma vez uma pandemia, eu vou tentar trazer um pouco mais de leveza para esse momento. Infelizmente, a gente sabe que não é todo mundo que pode, que tem condições de levar as coisas de uma forma mais leve, mas quem tem condições deve buscar essa alternativa. 

DC – Esse edital acaba sendo um socorro para o trabalhador também do ponto de vista do ânimo. Porque, mais do que precisar trabalhar para sobreviver, a gente precisa fazer Arte para viver. A gente sente falta disso. Vem como uma boa notícia, mesmo que com muita defasagem e pode nos ajudar durante os próximos dias.  

Uma outra boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação do dinheiro que estava represado no FUNDO NACIONAL DA CULTURA através da LEI ALDIR BLANC. 

Esse dinheiro, que estava parado e só pode ser investido no setor cultural, virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade. 

Como você vê a importância dessa lei nesse momento e qual é a tua expectativa atual com relação a isso? 

LUIZA – Em primeiro lugar, eu acho que esse dinheiro não vai ser distribuído. Ele vai ser investido. Eu estou enfatizando a palavra “investimento”, porque eu acho que a valorização desse dinheiro, as pessoas que receberem este dinheiro, precisam sentir essa valorização como uma conquista. Porque como, até então, era um dinheiro que não se esperava ter (e eu acho que era algo que sempre deveria ter, independentemente de pandemia). Fomos excluídos do Auxílio Emergencial no primeiro momento, mas que fomos atrás e conseguimos. Então a primeira coisa que a gente precisa é garantir que esse dinheiro seja investido de uma forma que possa mostrar o quanto a Cultura é realmente importante.

Eu não sei quais são os espaços que vão receber esses recursos, mas eu tenho certeza de que eles vão usar culturalmente da melhor forma possível. Porque eu acho que não é simplesmente para nos socorrer, claro que vai nos socorrer porque nós estamos precisando, a Estação de Sonhos está precisando e todo mundo que vai receber está precisando, mas eu acho que sim, que a gente tem que mostrar, não sei de que forma ainda, que de onde veio esse dinheiro, que foi uma conquista da Cultura, foi uma conquista dos artistas, e que a gente merece sempre vencer essa batalha, para que a gente possa ter sempre esse investimento, que a gente mostre a nossa Cultura e possa sempre mostrar a nossa Arte. 

DC – O meu maior desejo é que tudo isso possa deixar algum legado positivo. É um sonho a ser realizado.  

Aproveitando para falar em sonhos, o que tu sonha para o teu futuro artístico e profissional? 

LUIZA – A gente tem tantos sonhos, né? E colocar dentro de um texto fica difícil. Deixa eu pensar como simbolizar isso da melhor forma... Eu acho que o meu maior sonho para hoje é o reconhecimento da arte de uma forma geral. Acho que é aquilo que a gente vem batalhando (que eu já venho batalhando desde quando eu me reconheço como atriz), mas que nós, quando abrimos a Estação de Sonhos, e o nome da escola já reflete um pouco isso, que é com que as pessoas que estão ali, elas estão ali porque elas realmente acreditam na Arte, sonham com isso e que querem expandir esse conhecimento e fazer isso com amor e emoções verdadeiras. Com o verdadeiro reconhecimento que é merecido a Arte.

O meu sonho é que a Arte, a Estação de Sonhos e Arte da nossa cidade, o Núcleo Teatral, o Realejo EnCena, a Comparsaria das Façanhas, o Projari, entre tantos e assim como outros, sejam valorizados como essenciais. Que não seja apenas uma distração de público. Que sejam considerados tão essenciais quanto uma escola regular, quanto um curso de inglês, como o investimento em informática, como um esporte. Que seja colocado ao lado de outras grandes prioridades. Esse é o meu maior sonho, dos meus colegas da Estação de Sonhos e, acredito, que dos meus colegas artistas também.  

DC – Sabemos da nossa responsabilidade. Principalmente quando estamos dando aulas. Alguns dos que passam por nós acabam tendo ali, conosco, as suas primeiras experiências artísticas e isso pode mudar o destino dessas pessoas. Para quem tem vontade de seguir esse caminho, que conselho você pode dar? 

LUIZA – Em primeiro lugar acreditar em si mesmo. Não achar que é inferior a ninguém. Quem está em uma carreira artística, seja qual for o segmento, não se comparar um com o outro. 

Eu digo assim, pensando na minha carreira como atriz, às vezes a gente começa a nossa carreira admirando outros colegas e pensando que a gente, talvez, nunca consiga ser igual a eles. Mas a gente não precisa ser igual a eles. A gente tem que descobrir o nosso melhor. Ter referência, mas não se comparar a elas, acreditar em si, encontrar o seu melhor e correr muito. Não desistir. A gente vai cair várias vezes durante a nossa carreira, a gente vai achar que conseguiu e, na verdade, não conseguiu e é uma eterna luta. Estudar e ter referências.

As pessoas que olham de fora julgam que o ator nasceu sabendo fazer as coisas, que é só cantar, só dançar, só fazer umas coisas engraçadas, mas não é. Como eu disse lá no início da entrevista, quando a gente é criança pode até ser assim, mas se a gente quer seguir uma carreira a gente tem que estudar, tem que se aperfeiçoar, fazer cursos, cursar faculdade se for possível, se não for possível, se encher de cursos e workshops por aí, estar sempre se atualizando, buscando o novo porque, como em qualquer carreira, a gente também nunca está pronto, até porque o mundo não está pronto. O mundo está sempre se modificando. 

DC – Estamos encerrando a nossa conversa. Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo comigo. Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade. Gostaria muito que você deixasse um recado para os nossos vizinhos e convidasse eles para conhecer a Estação de Sonhos.  

Pode falar o que quiser. 

LUIZA – Eu acho que, na verdade, não é muito diferente daquilo que eu já tenho falado. As pessoas devem perceber que a gente fala, fala, fala e muito do que a gente fala é sempre a mesma coisa. Porque a gente tem o mesmo objetivo, aquela meta e a gente vai desenvolvendo em palavras diversas para o entendimento. Eu acho que é pedir para que as pessoas aproveitem esse tempo, quem pode (a gente sabe que tem pessoas que não pararam de trabalhar e que continuam com a sua rotina quase que normal), e tem esse tempinho para procurar ao seu redor e ver que tudo que existe ali é Arte e que esta Arte está nos dando um apoio tão grande nesse momento de uma mudança muito radical no nosso cotidiano, na nossa vida. Nessa pressão psicológica tão grande.

Que as pessoas percebam que a maior parte do apoio que a gente está tendo vem da Arte. Que são coisas simples, mas que estão ali todos os dias. Que muitas pessoas não percebem. Que são as músicas que a gente ouve todos os dias, os filmes, as novelas que a gente assiste todos os dias, as séries, os livros, as brincadeiras de mímica que podemos fazer com as crianças, essa comunicação não verbal, a comunicação através da expressão corporal e do nosso olhar. Para que se perceba essas coisas simples e que são Arte. E que, através dessa percepção tão delicada e que nos obriga a perceber através de um momento difícil, mas que sirva sim como transformação e valorização daquilo que a gente vem tentando demonstrar para todos. Que se perceba através disso que a Arte, que a Cultura, está paralela a todas as outras atividades ditas essenciais para o desenvolvimento e para a vida de qualquer pessoa.  

E falando da Estação de Sonhos, claro, convidar as pessoas para que vejam um pouco do nosso trabalho através das Redes sociais. Ali nós temos todos os nossos cursos (de música, de teatro, de dança...). Os interessados podem fazer uma aula experimental para entender como é e perceber que essa forma de Arte online também funciona para que as pessoas possam se aproximar um pouquinho, nos ajudar e se ajudarem ao mesmo tempo. Acho que é isso. 

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E aí, o que você achou desse bate-papo?  

Gostou de conhecer um pouco da trajetória da Luiza Sanguanini?  

Já conhecia a Estação de Sonhos?  

Essa é apenas uma das tantas histórias impressionantes que estão acontecendo em nossa cidade nesse momento.  

Quer conhecer outras histórias legais como essa?  

Então continue acompanhando essa coluna. 

Eu vou ter o maior prazer de contar tudo para vocês. 

 

FONTE/CRÉDITOS: Divulgação Núcleo Teatral
Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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