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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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Que controvérsia é essa, cientista?

Nem todo desacordo entre cientistas é uma controvérsia

Que controvérsia é essa, cientista?
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Salve minhas amigas e meus amigos. Mais uma vez abro o espaço da coluna no Repórter Guaibense para amigos da área de ciência. Desta vez, convidei um cara que já me auxiliou na coluna intitulada "Em quem acreditar?", meu amigo Douglas Grando de Souza. Ele os convida a pensar sobre as Controvérsias. Tanto eu quanto ele esperamos que gostem e reflitam sobre esse tema complexo mas caro a todos nós.

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Todos experimentamos acordos e desacordos em algum momento de nossas vidas, em especial nas relações pessoais que estabelecemos. Algumas disputas são tão profundas e duradouras que mobilizam uma grande quantidade de pessoas e exigem um forte compromisso entre os envolvidos para que sejam resolvidos. Problemas complexos que envolvem o estabelecimento de relações entre Sociedade e as comunidades científicas são uma dessas disputas profundas. Questões sociocientíficas envolvem o diálogo entre uma grande quantidade de sujeitos, instituições e conhecimentos a fim de estabelecer um consenso sobre o que é mais adequado aos interesses de todos.

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Entretanto, com frequência temos contato com declarações que enfatizam a existência de profundas controvérsias, mesmo no meio científico. No debate político, essa é uma das formas de desvalorizar conhecimentos corroborados e amparados em uma grande rede de pesquisas científicas que não favorecem alguns dos interesses das partes envolvidas. Uma das mais recentes envolve a crítica ao consenso de que a hidroxicloroquina não auxilia no tratamento da covid-19. Essas declarações colocam em cheque a confiança no trabalho de cientistas que, ao longo dos últimos meses, investigaram o efeito do fármaco no combate à doença. Mas, se por um lado podemos nos questionar sobre a validade do conteúdo científico dessas afirmações, em especial se estamos continuamente nos apropriando de elementos de uma cultura científica, por outro é menos comum questionar sobre o que é uma controvérsia científica nesse caso, e se é, quando podemos afirmar que ela realmente existe.

O tema das controvérsias científicas passou por grandes transformações no século passado. No discurso hegemônico, a prática científica é considerada a aplicação de um método científico, único e universal. Buscava-se compreender as ciências como uma busca cumulativa de conhecimentos verdadeiros, objetivos e neutros, empreendida pelos grandes gênios imortalizados na História. Esse era um empreendimento racional e, por conta disso, qualquer visão de disputa sobre os fatos científicos era compreendido como irracionalidade e decorrente da subjetividade humana. Não havia espaço para aprofundar a existência dos conhecimentos divergentes e das verdadeiras disputas travadas pelos cientistas. O que não era reconhecido como científico, nesses parâmetros, era apagado da história.

A partir da década de 1970, com o início de movimentos por uma nova história das ciências e pelos avanços na filosofia e sociologia das ciências, passou-se a reconhecer que a diversidade de ideias dos cientistas tiveram papel preponderante em grande quantidade de episódios de crescimento do conhecimento científico. Entre eles, podemos destacar o advento da Teoria Heliocêntrica e da Teoria da Relatividade nas ciências naturais, e da Psicanálise e da Teoria Feminista nas ciências sociais. O filósofo da ciência irlandês Ernan McMullin (1924-2011) descreve as controvérsias científicas como uma “disputa pública e persistentemente mantida”. Atualmente, portanto, a existência de períodos de controvérsia no meio científico e de tensões cotidianas é reconhecido e legitimado como importante fator no avanço do conhecimento científico, tanto quanto a formação de consensos entre os cientistas.

Mas é preciso estabelecer o ponto fundamental para bem compreender o peso das controvérsias científicas: nem todo desacordo entre cientistas é suficiente para estabelecer uma. Nas palavras de McMullin, “um desacordo entre dois cientistas, não importando quão profundo, não é suficiente para constituir uma controvérsia até que os termos do seu desacordo sejam do conhecimento da comunidade científica em geral”. Para que um conflito de ideias e interesses forme uma controvérsia científica deve haver um ganho de amplitude, tanto em relação ao número de cientistas envolvidos quanto no período de sua duração. Quando efetivamente existirem, as controvérsias científicas serão resolvidas não no ambiente social, mas sim no interior da comunidade de especialistas no assunto.

Assim, podemos sempre nos questionar:

  • Quem afirma existir uma controvérsia científica? Há interesses em declarar um assunto consensual como controverso? Quais?

  • Quem são os envolvidos nessa suposta controvérsia? Trata-se de uma disputa efetivamente realizada no meio campo científico?

  • Quais os argumentos são levantados e que pressupostos consideram? Os diferentes argumentos são realmente reconhecidos pela comunidade científica?

No caso da hidroxicloroquina, houve um período inicial em que a plausibilidade da eficácia do medicamento era considerável. Entretanto, após uma série de rigorosas investigações, a comunidade científica entrou em consenso, avaliando o fármaco como não-eficaz no tratamento da covid-19, especialmente considerando os efeitos negativos provenientes do seu uso. Assim, qualquer recurso a essa suposta controvérsia, após o estabelecimento do consenso, é inadequada para a argumentação no debate sociocientífico sobre os encaminhamentos da pandemia. Cabe ressaltar a existência de muitos outros consensos produzidos na comunidade científica, como a verificação do longo período de incubação do coronavírus e eficácia do uso de equipamentos de proteção individual, e também o estabelecimento de medidas de distanciamento social para a diminuição da propagação da doença.

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Tenhamos claro que as discordâncias são fundamentais para o avanço das ciências e não ferem a credibilidade da comunidade científica em seus consensos. Os grandes consensos científicos são mais comuns que as grandes controvérsias nessas áreas de pesquisa, e podem nos auxiliar a compreender melhor os problemas que enfrentamos e as respostas que pretendemos dar. Portanto, levar esses conhecimentos em consideração nas decisões sociais é um sinal de sensatez.

FONTE/CRÉDITOS: Douglas Grando de Souza
Comentários:
Guilherme Weihmann

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Guilherme Weihmann

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