Repórter Guaibense

Sabado, 23 de Maio de 2026

Colunas/Geral

Um poeta conduzido no lombo do cavalo baio

Toda a beleza da poesia campesina

Um poeta conduzido no lombo do cavalo baio
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Esta coluna me trouxe grandes surpresas e me deu muitas oportunidades de conhecer histórias e trajetórias impressionantes.

Este sobrevoo pelo rincão do nosso poeta Mário Terres está no plano de voo há tempos. Agora, queridos passageiros, após ótimas escalas no decorrer dessa grande viagem, enfim começamos a sobrevoar esse pago bastante próspero em Arte, encanto, tradição, lucidez e doçura.

Mais do que uma conversa, a coluna dessa semana é um Raio X do pensamento de um homem brilhante e muito consciente sobre nosso contexto cultural local. Essa entrevista é uma grande oportunidade para a continuidade (ou abertura) de discussões muito importantes com potencial transformador.

Leia Também:

Respeitável público! Com vocês! O poeta multiartista Mário Terres!

_____________________

DRONE CULTURAL - Primeiramente, queria te agradecer pela presença neste espaço e te dizer que me sinto profundamente honrado e feliz por estar te recebendo aqui.

Nos conhecemos há pouco tempo, graças ao Repórter Guaibense e a tua coluna, mas parece que te conheço há muito tempo. Teu acolhimento e companheirismo é de um irmão de batalha.

Olho para ti e penso:

“O Mário é como o Cipreste do Sítio Histórico. O guaibense que não conhece vai conhecer.”.

Costumamos dizer que conhecemos o Cipreste desde que nos “conhecemos por gente”. E é assim com todos os habitantes daqui nos últimos trezentos anos.

O mais bonito, pensando nessa árvore ancestral, é que todos os dias muitas pessoas começam a se “conhecer como gente”. Portanto, todos os dias é dia de mostrar nosso Cipreste para novas pessoas. O mesmo vale para nossos artistas locais. Todos os dias devemos apresentar nossos valorosos irradiadores de Cultura e mostrar o quanto somos competentes.

Nesse instante, muitas pessoas devem estar lendo a sua primeira coluna sobre Cultura. Talvez essa pessoa saia transformada depois dessa leitura. Não sabemos. Mas sabemos que devemos trazer boas referências. Essa coluna também se dispõe a isso.

Todo dia é dia de mostrar algo novo para alguém e hoje você vai me ajudar a fazer isso a partir das tuas experiências e visões de mundo.

Então, meu amigo, conte para nós um pouco sobre a tua trajetória no ambiente cultural. Como a Arte e, particularmente, o Tradicionalismo e o Folclore entraram na tua vida? 

MÁRIO TERRES – Primeiro, se me permite, o privilégio é meu fazer um voo nesse drone, afinal tenho a mesma sensação, de que nos conhecemos a uma grosa de anos.

Vou separar os temas para que tenham um entendimento do todo na formação desse que vos fala. As coisas se entrelaçam, mas foram despertadas dentro de mim de formas distintas. A arte foi desperta desde cedo, meu avô era músico, daqueles bem rudimentares, sem ensino formal, mas com uma vontade enorme. Meus pais trabalhavam e eu passava bastante tempo com os avós.

No tradicionalismo fui conduzido pelos meus pais, desde os 11 anos, quando me apresentaram o CTG e o mundo das danças e o folclore foi a conexão. Não me bitolo, gosto de conhecer de todas as manifestações culturais e uso o folclore para aprimorar minhas referências e desenvolver minhas opiniões sobre o contexto regional e brasileiro.

DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração? 

MÁRIO – As referências mais influentes são meus avós e suas histórias, ainda vou escrever um livro sobre eles, já são música, mas merecem um livro.  Também cresci em meio aos livros, minha mãe lia muito e eu curiosamente, adentrava o universo dos livros para viajar. Sou da década de 70, a televisão era coisa rara nas casas, então os livros eram os portais para as viagens mais insólitas.

Com meus avós aprendi que tudo pode ser inspiração, a vida, a natureza, as coisas simples que compõem nosso cotidiano, nos inspiram a seguir nessa caminhada da vida, quem nunca se parou por um tempo admirando uma flor, um pássaro, um espelho numa poça d’água? A vida é mágica, basta abrirmos as janelas da alma para vê-la.

DC – Tu, além de contista, poeta e compositor, ainda possuis outras facetas: o professor, o radialista e o industriário (não necessariamente nessa ordem).

Como você faz para conciliar esses campos de atuação?

Essas outras funções interferem de alguma forma no teu processo criativo, e vice e versa, ou você leva em caixinhas separadas?

MÁRIO – Sim e não... Eu separo as responsabilidades, tenho amigos que me perguntam como acho tempo pra tudo? Digo que quando eu morrer, talvez descanse. Sou intenso, gosto da arte e amo os meus trabalhos. Não tem como separar as conexões afetivas, tanto em um quanto em outro, a ferramenta principal que me conduz é a afetividade. Sempre posso semear a bondade no coração das pessoas, seja com poesia, com meus projetos, nas minhas aulas, são oportunidades que uso para transformar a sociedade em que habito. Não quero mudar o mundo, mas se puder ajudar uma pessoa, valeu a penas toda a caminhada. Essas coisas me inspiram, sempre e intensamente. Um aluno que precisa de uma dica, um colega que precisa de apoio, um leitor que quer uma leitura positiva, pra mudar sua energia, para mim tudo e todos estão conectados.

DC – Como dito anteriormente, meu primeiro contato contigo foi através das tuas colunas. Dentro de tudo o que venho lendo no universo dos colunistas, considero você um dos mais originais no momento. Teu texto, carregado de personalidade, é um misto de originalidade e reverência à raiz.

Nas tuas colunas, você consegue, com um linguajar muito peculiar, nos transportar para tempos distantes para conversar sobre coisas do presente, doa aqui e agora.

Cada coluna tua é uma viagem no tempo passado e presente.

Onde você buscou esse vocabulário tão rico, carregado de cultura regional e de expressões “doble chapa” que nos aproximam dos hermanos a ponto de fazer parecer que as fronteiras não existem (se é que realmente existem)?

MÁRIO – As leituras me conduziram ao passado, sou apaixonado pela história do Rio Grande de São Pedro do Sul, leio Borges Fortes, Augusto Meyer, Simões Lopes Neto, Tao Golin, Sandra Pesavento, Paixão Cortes, Barbosa Lessa, enfim eu leio muito sobre a formação dessa terra e tento despertar em quem não conseguiu desbravar esse conteúdo, meu entendimento das coisas. As fronteiras não existem, se olharmos para o passado, as planícies e planuras eram livres, os primitivos seres que aqui habitavam, antes de serem dominados e extirpados de sua terra, interagiam entre si e com a natureza de forma harmônica, mas a ganância estipulou fronteiras, tratados, guerras e tudo mais. Tive ainda a oportunidade de morar dois anos em Buenos Aires, onde busquei conviver com a cultura Argentina e mais onze meses no Chile, onde também me aproximei do cenário cultural. Daí descobri que Gaúcho, Gaucho e Huaso são todos de mesma origem, são todos homens que respeitam a Natureza e a ela reverenciam todos os dias.

DC – O que o ambiente Tradicionalista e a pesquisa/vivência sobre o Folclore acrescentaram na tua vida? Como você vê e imagina todo esse potencial nos dias de hoje? 

MÁRIO – Eu cresci num ambiente de dança mas visitava o campeiro em incursões ao Petim, onde minha família tinha um punhado de terras. Meu tio Edegar Florence me ensinou a lida do campo e principalmente, o respeito por ela. Ele sempre dizia: “Só existe a cidade porque o campo alimenta”. Nunca esquecerei disso. No tradicionalismo aprendi que a filosofia é linda, mas a competitividade estraga tudo o que idealizaram Paixão e Lessa. Quando entrei na arte da dança aprendi por prazer, assim como os instrutores ensinavam, por amor. Nunca paguei um pila pra aprender, assim como nunca cobrei um pila pra ensinar dentro do meu CTG, o Gomes Jardim no caso. Porém andando nesse mundo vi que as pessoas usam desses ambientes para supervalorizarem seus conhecimentos e que a competitividade é propícia para que a captação aflore os mais “ganhadores”. Eu tinha perdido as esperanças...

Em 2016 me fizeram retornar (isso é outra história), meu compadre Sandro me intimou e fizemos um pacto, voltamos se conseguirmos tornar o CTG lugar de família e um ambiente afetuoso. Foi só o universo trabalhar e juntar as almas certas que as coisas aconteceram, montamos um grupo de dança só com famílias, foi lindo, mãe e filho, sobrinhos e tios, padrinhos e afilhados, coisa linda de se ver. A cereja do bolo foi conseguir adentrar em uma sociedade decadente, quase sem vida e fazê-la renascer com trabalho voluntário e inclusivo. Hoje em dia o tradicionalismo é elitista e não vejo os seus regentes buscarem a mudança dessa cultura. Bom fazemos nossa parte, todos os que trabalham no nosso CTG são voluntários, não cobram nada para fazerem da arte uma ferramenta de transformação social e ainda acolhemos aqueles que não tem condições de comprar sua pilcha, de fazer as viagens, assim entendemos que podemos ensinar aos jovens e crianças a arte maior da fraternidade.

Mas ainda vejo os CTGs de nossa cidade desunidos e distantes, pensando cada um em seu umbigo, esquecendo que o que nos une é muito maior que qualquer disputa por premiação. 

DC – Na tua opinião, como o Tradicionalismo e o Folclore entram na terceira década do Século XXI? Como deve ser essa relação do tradicional com o presente e o futuro? 

MÁRIO – O tradicionalismo precisa de uma reinvenção. Não sou louco não, tradicional são as coisas históricas que pesquisamos e fundamentamos como base de trabalho, mas a extensão disso deve ser repensada. Antes o jovem tinha o CTG como refúgio, como lazer, encontro, um local de passatempo e construção social. Hoje é um lugar onde desperta a competição, existe a elitização porque o investimento é alto para dançar e participar de concursos e o fundamental se perde, que é a causa da inclusão, da transformação social. E o movimento tradicionalista tem uma grande barreira a vencer, a questão de gênero. O tradicionalismo não se preparou para essas mudanças do mundo moderno. Pergunte as pessoas que regem o contexto como eles pensam a participação da comunidade LGBTQ+ no ambiente tradicionalista. Não se assuste com as respostas.

Tem outro contexto que é o universo de desconstrução do apego da comunidade escolar ao tradicionalismo. Cada vez mais as escolas se distanciam, não ensinam mais as lendas, as danças, o campeirismo de antigamente que a pata de cavalo e na força do boi transformou um estado agrícola e pecuarista em uma potência dessa nação. As escolas são o link mais precioso das crianças e jovens com o esporte, a cultura e a arte.

DC – E especificamente em nosso contexto local? Que caminhos você consegue vislumbrar para os próximos passos do Tradicionalismo e do Folclore aqui no Berço da Revolução Farroupilha?

MÁRIO – No contexto local vejo distanciamento. Os CTGs não têm quadro social que os mantenham vivos, sempre há uma dúzia de aficionados que trabalham muito para as sociedades se manterem. Falta união, afinal a causa é a mesma. Sei que sou redundante, mas tem espaço para todos, basta se organizarem e buscarem na própria tradição um refúgio para união, sustento e desenvolvimento.

Os CTGs poderiam criar um trabalho associado ao turismo e fomentar o desenvolvimento sustentável do turismo cultural na cidade. Temos potencial, Guaíba além de Berço da Revolução foi impulsionadora do comércio de charque e do gado de corte, além da ligação histórica da capital com a região sul.  

DC – Vi uma dedicatória muito bonita nesse teu livro mais atual. Você sempre se mostra um cara muito ligado com a família. Faz questão de falar dos teus antepassados e faz isso com muito carinho e riqueza de detalhes. 

Como a tua família reage em relação ao que tu fazes? Como eles encaram esse teu lado poeta? Eles têm uma relação de proximidade, participam de perto dos teus processos criativos, ou nem conseguem acompanhar a dinâmica das coisas que você faz?

MÁRIO – Acho que não conseguem me acompanhar. Faço poesia, escrevo contos e crônicas, faço música, dou aula de dança tradicional, sou professor da escola técnica e trabalho com projetos. Quando faço uma poesia ou um conto que lhes tocam, sempre se surpreendem. Eles ficam surpresos porque meu processo de criação é rápido, sou inspirado em tudo. Ás vezes quero escrever e não penso no quê, mas me concentro em ver o que está acontecendo ao meu redor, isso me inspira. Tenho uma família maravilhosa, minha filha me inspira pois tornou-se uma pessoa íntegra, batalhadora e maravilhosa, meu genro é um cara fora de série, tenta fazer todos a sua volta feliz e me deram uma neta linda, como não me inspirar com tanta riqueza?

DC – Sei que você é um dos leitores dessa coluna. Até porque o Pedro, por ser dono do jornal, nos “obriga” a ler para dar feedbacks aos colegas. Com certeza você já viu essa pergunta por aqui antes, mas eu acho que ela faz parte do objetivo geral que é conhecer um pouco mais da alma de nossos vizinhos trabalhadores da Cultura.

Então me conte, você pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória artístico-cultural, que tenha te emocionado além do "normal"?

MÁRIO – Fácil. Somos instrutores da invernada juvenil do CTG Gomes Jardim, minha esposa e eu lidamos com jovens de classes sociais e formações familiares bem distintas. Certa feita um dos jovens não poderia se fazer presente em um compromisso porque não tinha nada, nenhuma peça de pilcha. O que aconteceu, eles se mobilizaram, alguns amigos apoiaram e pilcharam o piá. Isso não tem preço, ver o jovem praticando a bondade e a fraternidade é chama para incendiar a bondade.

DC – Falando em emoção: Para ti, o que é poesia? O que é escrever poesia/compor dentro da tua rotina?

MÁRIO – Poesia é sonho, é vida, é tudo o que habita na alma e no coração. Fazer poesia é tentar conectar as pessoas com seus sentimentos mais lindos e puros. Quando escrevo penso que tenho que tocar o leitor, de alguma forma preciso que ele desperte um sentimento pela poesia, assim nos tornamos amigos, mesmo sem nunca termos nos conhecido.

DC – Tens algum ritual que execute antes de começar a escrever? Precisa de um ambiente específico/preparado, ou isso não é preponderante para a conexão com a inspiração?

MÁRIO – Não tenho isso, as vezes tenho lapsos de inspiração e peço pra minha esposa anotar as palavras. Sim bem assim. Outro dia estávamos viajando de carro e disse pra ela: “Pega o papel e anota aí...” Ela já se acostumou, depois ela lê o que construí e se sente parte daquilo. É maravilhoso. Outras vezes as pessoas me pedem: “Escreve aí tal coisa pra gente homenagear alguém, ou manda um recado aí pra gente.” Consigo me conectar com a ideia das pessoas e escrever para ela assim sob demanda.

DC – Por mais que nos preparemos, as saias justas estão sempre presentes. No meio de tantas coisas lindas que já aconteceram ao longo da tua experiência, qual foi o maior perrengue que você passou dentro do universo cultural?

MÁRIO – A perda de um jovem, que tirou sua vida por desistir de lutar. Escrevi até uma poesia para essa passagem. Tive vários perrengues, porque a dança nesse universo de competição, cega as pessoas, mas aprendi que o egoísmo move esse sentimento. Agora perder um jovem que tu tem como um filho, que tu aconselha e tenta apoiar, quando ele toma essa atitude, não tem tempo que seque a ferida, doeu, dói e nunca deixará de doer.

DC – Falando em perrengue, esse com certeza é um dos momentos mais confusos que a classe artística já enfrentou. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, deixou nossas atividades suspensas. Estamos, há quase um ano, sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma. 

Neste momento estamos mais enrolados do que estávamos há um ano. Ultrapassamos todos os limites e o cenário ainda é muito caótico. Como você está vivendo esta pandemia? Como você faz para não deixar a tristeza tomar conta?

MÁRIO – A dança acabou enfraquecendo com essa pandemia. Aproveitei para escrever, escrever poesias e mensagens através da coluna para que as pessoas possam ter alento, que isso vai passar e vamos voltar ver os sorrisos nos rostos, apertar as mãos e enlaçar os nossos amigos em abraços que terão muito mais sentido. Os livros me trazem energia, a poesia me fortalece e a família me mantém confiante.

DC – Após um ano presos em casa, esta parece uma questão batida, porém, nesse momento em que a esperança trazida pela vacina é confrontada com a pior onda de casos de Covid, volto a perguntar: Qual é o papel da Arte nesse momento? A Pandemia pode inspirar um poeta?

MÁRIO – A função da arte é de inspirar as pessoas. A pandemia nesse país tomou uma conotação política, as mídias sociais deram voz a todos, mas nem todos sabem usar essa voz de forma profícua e bondosa, a arte e a poesia vem resgatar essa bondade, essa alma afetiva para que as pessoas lembrem que precisamos uns dos outros, mais do que torcer para que não deem certo por partidarismo, vivemos em sociedade, temos que torcer sempre para que as coisas deem certo e assim evoluímos ao invés de emburrecermos.

DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade?

MÁRIO – O de que há esperança. É preciso perceber nesse momento que não somos tão cultos e culturais como pensamos. Faz uma live de artistas locais, se passarem de 100 espectadores ficamos felizes. Mas a nossa cidade tem mais de 100 mil habitantes, se tivéssemos mil ainda era pouco. A gente finge que gosta de cultura, a gente não se apoia nem fomenta que as coisas aconteçam, preferimos colar a bunda na cadeira e reclamar. Precisamos aprender com a pandemia que só a união dos nossos esforços pode nos levar pra frente.

DC – Uma boa notícia para a Cultura e para a Economia foi a liberação, através da LEI ALDIR BLANC, de recursos para o Setor Cultural.

Esse dinheiro chegou em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade. 

Foram selecionados muitos projetos de qualidade e vários já estão em execução, movimentando nosso contexto cultural e a economia local.

Como você vê a importância dessa lei nesse momento, e qual é a tua expectativa atual com relação ao andamento dos projetos?

MÁRIO – Essa lei veio para apoiar os trabalhadores, fui agraciado com a lei e consegui realizar um sonho: lançar meu livro de poesias e fazer a distribuição de forma gratuita. Junto ao meu irmão Fabio Malcorra escrevemos o livro de poesias intitulado “Do Nosso Rincão” e com ele trazemos as emoções para contagiar o mundo com poesia. Como falei a lei privilegia trabalhadores, há que estar preparado para aportar o recurso e também para recebê-lo.

DC – Por falar em Lei Aldir Blanc, um dos projetos selecionados é o livro Do nosso rincão, onde você divide a autoria com o também poeta Fábio Malcorra.

Conta um pouco sobre esse livro para quem está aqui com a gente. De onde partiu a ideia e qual é a tua expectativa com relação à essa obra?

MÁRIO – Eu escrevo poesias desde os anos 90. Escrevi de tudo e me identifiquei com a poesia gaúcha, com as coisas da terra, isso me dá inspiração constante. Tenho um apanhado de poesias e acabei conhecendo o Fabio Malcorra nesse universo, uma pessoa simples, de alma iluminada e que tem o dom da declamação, nos unimos em poesia. Estimulei o Fabio a escrever, afinal ele carrega o sentimento em si pelas coisas co campo, deu liga e nasceu Do Nosso Rincão para provar que a união é que constrói. O livro é o resultado real da união de esforços. Nosso diretor da RGP Produções nos estimulou a escrever, nosso irmão Diogo Corrêa lá de Rosário do Sul mandou as ilustrações para algumas poesias, o Lucas Nunes outro irmão de alma registrou as imagens que compõem a capa, o Ricardo Garcia fez todo o trabalho de arte do livro, minha esposa Elisa Terres fez o trabalho de revisão e correção, não tinha como dar errado com tantos corações envolvidos. A família do Fabio é maravilhosa e inspira todos que convivem com eles, minha família é maravilhosa, só unimos coisas boas e assim a poesia fluiu de forma positiva.

DC – Quais sonhos você alimenta para o seu futuro artístico/profissional?

MÁRIO – Usar a poesia e o conto para apoiar os jovens e as crianças, conseguir fazer um trabalho social que alimente e dê uma luz de esperança para as sociedades mais vulneráveis. Não quero reconhecimento em forma de grana, quero aproximar as pessoas pela bondade e que elas olhem para o lado e percebam que há pessoas que precisam de apoio para desenvolverem-se. De mãos dadas podemos ir mais longe enquanto sociedade. A arte pode ser ferramenta transformadora de vidas, há que apoiá-las e levá-las aos menos favorecidos para que compreendam e acessem a arte, a cultura e tudo o que pode ser utilizado delas.

DC – Você escreve muito bem sobre o Don Barulho. Ele é teu companheiro de conversa e explanação. Uma voz do que te funda e mantém enquanto ser pensante.

Aproveito e te pergunto: Tem algum personagem que tu gostarias que visitasse os teus textos ou, talvez, que você gostaria de interpretar em algum âmbito da tua construção poética? Nos teus delírios criativos mais malucos, por onde tua imaginação viaja?

MÁRIO – Don Barulho é meu avô em mim e eu nele. É Don Quixote pelo pago, é Simon Bolívar vindo dos altiplanos para transformar Guaíba em uma cidade amistosa e cultural. Eu interpreto o Don Barulho, ele habita minha alma e ele me conduz em seu cavalo baio por todos os recôncavos da alma poeta, vou por vales, cerros e montanhas, me banho nos açudes das retinas e desfraldo as cortinas da alma para que adentrem meu coração aqueles que se permitirem contagiar por minha poesia.

DC – Impressionante como você rende assunto. Falamos sobre muitas coisas e não falamos ainda sobre o teu programa de rádio.

Eu me amarro em rádio. Nenhum meio de comunicação será tão democrático e acessível quanto o rádio. Mesmo em tempo de acesso facilitado aos meios de informação, nada substituirá o rádio.

O rádio é nosso companheiro e nos aproxima das pessoas pelos sentimentos. Sempre me despertou muito interesse.

Na Rádio Regional.net, você comanda o programa Folclore Sem Fronteiras. Como é essa experiência? Como é fazer esse programa?

MÁRIO – Foi mágico e é maravilhoso a cada dia. Poder fazer contato com as pessoas, dedicar música, poesia, cultura em um espaço onde o ouvinte se sente parte do programa não tem preço. Faço um programa que traz a musicalidade e a cultura latino-americana para os ouvintes, provando que somos todos uma coisa só, latinos e aficionados por uma cultura pungente e transformadora.

DC – Como você vê o cenário cultural guaibense? O que gostaria de ver nos próximos anos?

MÁRIO – Vejo Guaíba como uma usina cultural trancada. Tem muita energia, mas não tem operador, falta conectar tudo e ligar. Ainda somos concentradores, tudo acontece no centro, todos tem que buscar a cultura, isso me judia internamente. A cultura em geral deve ser itinerante, temos que plantar pra depois colher. A cultura em todas as suas formas deve invadir os bairros, as escolas e os centros comunitários para que todos tenham acesso, assim quando ela for centrista ou concentrada, todos saberão que devem buscá-la pois serão atendidos.

Gostaria de ver as coisas que funcionam ainda funcionando, mas que o novo venha para atingir as comunidades com cultura. Levemos poesia, música, divertimento, circo e tudo mais para os bairros onde está a pobreza, onde tem vulnerabilidade, ali podemos dar alento as almas e despertar novos artistas, quem sabe possam mudar sua condição pela arte?

DC – Para quem tem vontade de seguir o caminho da poesia, do Folclore e do Tradicionalismo, que conselho você pode dar?

MÁRIO – Leiam, estudem, busquem referências que te façam pensar. Não basta só ler e aceitar, tem que despertar perguntas e inquietações e assim nunca faltará inspiração. Para o tradicionalismo, não entrem nessa corrida pela competição, não vence quem é o melhor, vence quem faz amigos e comunga da arte pelo prazer da alma.

DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir? Em quem ou onde buscar inspiração?

MÁRIO – Paixão Cortes, Barbosa Lessa, Tao Golin, Augusto Meyer, Borges Fortes, Simões Lopes Neto, Saint Hilaire, tem tantos, mas não deixem de ler aqueles que estão a sua volta. Isaque Santos, Pedro Molnar, Altair Martins, Guilherme Bicca, Mário Terres enfim, essa cidade é rica, basta explorarem a riqueza.

DC – Uma última pergunta: O que é sucesso?

MÁRIO – É usar a arte para encher o baú do coração de amigos e neles poder se inspirar diuturnamente.

DC – Estamos encerrando a nossa conversa.  

Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo comigo. 

Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade. Gostaria que você deixasse um recado para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos.  

Pode falar o que quiser.

MÁRIO – Cultura não é algo enlatado, não vai cair no teu colo. Cultura e trabalhadores culturais são expoentes que precisam do apoio de cada indivíduo para se manterem vivos e dispostos ao desafio de trazer à tona aquilo que te toca, seja no emocional ou no racional. Usem as mídias para aproximarem-se da cultura e verão que isso liberta a mente para viagens que nunca sonharam ter. Aos nossos trabalhadores, sejam semeadores, plantem, nada acontece de graça nem de uma hora pra outra. Vamos aos bairros mais longínquos, falemos aos menos favorecidos mostrando que a arte e a cultura podem libertá-los e levá-los a um estado de mudança. Afinal mudar o mundo em alegria e afetuosidade é coisa que só os artistas podem fazer.

Muito obrigado pelo espaço e por tanto carinho Isaque, espero que ao término da pandemia, possamos ter essa conversa no rádio, falando do teu trabalho para as pessoas que ouvem o Folclore Sem Fronteira. Como eu gosto de encerrar meu programa: Me queira bem que não te custa nada!

_____________________

Que maravilha, né?

Eu me surpreendo e me encanto cada vez mais com nossa vizinhança.

E ainda temos muitas escalas nesse voo cheio de emoção e Cultura.

O Drone continua bem faceiro sobrevoando Guaíba em zig-zag.

São tantas histórias para conhecer que ele precisa revisar a rota de tempos em tempos.

Logo chegaremos na coluna de número 50 e as próximas colunas prometem emocionantes novos relatos de voo.

Guaíba é gigante e rica de talentos!

Te espero no próximo rasante com alguma companhia bem legal.

Partiu!

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também