Repórter Guaibense

Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

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A arte do encontro

Mesmo em desarmonia, nos encontramos no Teatro

A arte do encontro
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O poeta Vinicius de Moraes, no Samba da Benção, disse que a “A vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida.”.

Quanto a isso, não há no que discordar com o “poetinha”. Diria mais: para nós teatreiros, a Vida e a Arte se confundem e, por isso, essa frase ganha ainda mais sentido. Nosso desenvolvimento (e sobrevivência) é resultado dos encontros vivenciados durante nossos caminhos.

Mais do que qualquer resultado estético e dialético de um espetáculo, é o encontro que potencializa a experiência.

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O encontro com um texto que representa o que queremos dizer.

O encontro com os colegas que vão dividir a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de um trabalho que nasce cheio de fôlego e é testado à exaustão durante todas as etapas.

O encontro com os limites a serem superados e com habilidades que jamais pretendíamos descobrir se não fosse pela prática teatral.

O encontro com materiais, técnicas, saberes, fazeres, rotinas e transformações.

O encontro com a música perfeita para aquele determinado momento, com o som mais preciso e os silêncios que preenchem os espaços do texto com sentido e sentimento.

O encontro com as personagens, suas bagagens, seus trejeitos, intelectos, temperamentos, virtudes, misérias, dores e cicatrizes é o encontro com o mundo e, sobretudo, o encontro com nós mesmos.

A montagem de um espetáculo é o resultado (sucesso e fracasso) do encontro entre pessoas. Um esbarrão do destino que, por alguns pares de minutos, estabelece um contrato entre atores e espectadores. Uma troca de energias e visões de mundo.

O encontro com o público é a condição básica para que seja Teatro. Essa é a primeira cláusula deste contrato entre os envolvidos na experiência teatral.

O encontro com cada novo aluno, suas vivências, habilidades, dificuldades e expectativas é o encontro com universos particulares e singulares, mesmo que obedeçam ou tentem romper a alguns padrões. A forma como o Teatro interage com esses novos mundos é que torna única a experiência dessas descobertas de similaridades e diferenças.

Fazer Teatro é encontrar com profissionais das mais diversas áreas que por algum motivo cruza o caminho das montagens teatrais. Todas as profissões, suas ciências e tecnologias, são material de estudo para o Teatro, tanto como objeto de pesquisa, quanto como fornecedoras de mão de obra e conhecimento.

O Teatro também promove o encontro com outras histórias e realidades, que determinam certos costumes e pensamentos em diferentes épocas do passado, do presente e do futuro.

Deste encontro com outros contextos nascem os diferentes pontos de vista tão uteis para a discussão de nossa civilização. As personagens são universos de possibilidades, objetivos, motivações e obstáculos. Estudar cada uma é estudar as diferentes “essências humanas” que formam nosso tecido social global.

Cada mergulho nas montagens de espetáculos vem com a ânsia constante pelo encontro com as melhores referências estéticas e dialéticas que possuímos em nosso fazer ou que ainda possamos agregar em cada escolha.

No caminho entre a sala de ensaio e os palcos, com sorte encontramos alguns apoiadores sérios e bem intencionados que buscam uma relação equilibrada entre os interesses. Desse encontro nascem relações sólidas e pautadas pelo respeito e reciprocidade.

Porém, neste mesmo caminho que liga os sonhos de um grupo ao deleite do público, os teatreiros acabam tendo encontros menos proveitosos, sendo obrigados a aprender como fugir das armadilhas dos aproveitadores e a lidar com os desaforos. Nestes momentos os grupos também se encontram com a dignidade e identidade própria.

O fazer teatral nos brinda com a beleza do efêmero. Imagens, sons, movimentos, palavras, sentimentos e atmosferas que se realizam no aqui e agora, correndo o risco de nunca mais serem realizados tão perfeitamente quanto naquela determinada sessão.

Quem faz Teatro vive essa brevidade com ainda mais intensidade. Em um minuto está concentrado no que tem que fazer, no que não pode esquecer, lidando com seus medos e expectativas. No outro está em cena, lidando com muitas informações ao mesmo tempo. Instantes depois está recebendo os aplausos que vão aplacar o desgaste da apresentação para, no próximo momento, trabalhar na desmontagem e carregamento do cenário e toda a parafernália cênica. Tudo isso em uma diferença de menos de duas horas. Tudo de uma vez só. Exercitando nossa autoconfiança, generosidade e humildade.

No final das contas, a beleza do conjunto de encontros que vivemos no Teatro se reflete nas pegadas, rastros e laços que deixamos no caminho.

Desde a primeira leitura, passando pelos primeiros esboços estéticos, pelos primeiros ensaios, chegando no grito de guerra que antecede o abrir das cortinas para o encontro que se estende para além do apagar das luzes.

Amo e vivo todos esses encontros. Posso dizer que me encontrei na Arte do Encontro.

Depois de tantos desencontros, cada encontro é uma nova grande oportunidade.

Fazer Teatro é viver em ritmo intenso e apaixonado cada um desses encontros.

Faça Teatro e verá que, no balanço de tantos encontros, o que fica marcado é o sentimento de Alegria. Afinal como diria nosso poeta:

“É melhor ser alegre que ser triste

Alegria é a melhor coisa que existe

É assim como a luz no coração”.

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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