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Sabado, 23 de Maio de 2026

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A claridade que eu via

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A claridade que eu via
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Brecha, quase, margem: vida

Olho a rua pela janela do apartamento. O interminável movimento dos passos. Há uma assimetria quase insuportável. Cada pessoa de um tamanho diferente, deixando pegadas que não marcam o cimento da calçada, mas que mostrariam essa dança assimétrica caso o cimento ainda não estivesse seco.

Em algum momento, porém, os passos devem acabar encontrando o mesmo trecho, como se o pé de uma pessoa estivesse exatamente sobre o pé da outra. Qual a probabilidade de isso acontecer? Quantas centenas, milhares de pessoas precisam cruzar essa calçada que vejo desde a minha janela para que essa comunhão jamais revelada finalmente ocorra?

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Nem mesmo isso eu saberei. As respostas, na verdade, importam pouco nesse exercício. Olhar à janela, ver o mundo se mover pelas gentes, é engravidar de perguntas, é tomar contato com o que está entre. O que é brecha, quase, margem: vida.

 

Supermercado

Ando pelo supermercado. A luz branca do supermercado, a limpeza do supermercado, tudo no seu lugar. Em algum outro lugar, no subconsciente do supermercado, deve haver um estoque caótico, escuro, mais sombrio.  Aquilo que o supermercado não deseja nos mostrar. Aquilo que não desejamos ver também. Aqui não, aqui é tudo claro, higienizado, artificialmente solar.

Conduzo o carrinho com desenvoltura. Óculos escuros e máscara me protegendo do reconhecimento alheio. Um anonimato que gera um certo contentamento. Deixo de ser eu por aqueles instantes. Me integro nessa lógica artificial do supermercado. Sou agora parte dessa massa de consumidores que desfila solene e despreocupada com seus carrinhos e cestas. Somos o sangue do supermercado percorrendo seu óbvio circuito, suas veias largas e de paredes atraentes, sedutoras de mercadorias. Naquele momento, movemos o supermercado, somos movidos por ele.

Quando deixo o supermercado, as sacolas fazem som de plástico pelo contato com o vento, como uma memória daquela dimensão artificial do supermercado que não quer morrer em mim. Caminho para a casa recuperando, aos poucos, minha identidade. Vou tomando contato com a sujeira viva do mundo, com os sons inesperados da rua, com a luz incontrolável e oscilante do dia. Mas somente afasto aquela assepsia confortável do supermercado quando retiro uma a uma as mercadorias que comprei e vou despejando álcool sobre elas e esfrego suas peles de embalagem, exterminando qualquer vírus que habitava aquela superfície, mas, especialmente, declarando, neste ato, que nada nunca está completamente limpo.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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