Repórter Guaibense

Domingo, 30 de Agosto de 2026

Colunas/Geral

A hora das dramaturgas

O presente mostra que o teatro do futuro será cada vez mais feminino

A hora das dramaturgas
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A coluna de hoje é dedicada aos leitores interessados em conhecer novos textos teatrais fora dos clássicos geralmente indicados.

É bastante comum que se comece pelas obras de Shakespeare, o mais conhecido dos dramaturgos, que se tenha contato com as obras de Henrik Ibsen, por sua relevância, e dos brasileiros Nélson Rodrigues e Plínio Marcos, pela proximidade com a nossa identidade dramatúrgica nacional. Inclusive este espaço já indicou alguns destes textos na coluna Para ler Teatro. Entretanto indicações mais contemporâneas ainda são muito raras e/ou pouco difundidas.

Outro fato relacionado a essas listas de indicações é a presença massiva de dramaturgos homens com algumas citações de expoentes femininas da arte da escrita teatral como Maria Clara Machado, Leila Assumpção, Grace Passô, Caryl Churchill e Sarah Kane, sempre muito comentadas. Mesmo assim é inegável que as mulheres ainda recebem menor visibilidade. Esse é um dos efeitos de um processo de invisibilização das dramaturgas, reflexo de uma estrutura social que ainda se mostra bastante machista, inclusive no meio teatral.

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Acredito que a visibilidade constante proporciona o sentimento de representatividade tão necessário para o estimulo a quebra de paradigmas que, ao meu ver, (de)limitam o trabalho de nossas artistas teatrais (atuais e futuras).

Na coluna de hoje trarei indicações de títulos presentes em uma super “coleção” lançada em 2018 pela EdiPUCRS, uma das poucas que ainda investem na publicação de peças dramatúrgicas. O grande diferencial desta série é que todos os livros foram escritos por mulheres e, para deixar ainda mais interessante, das 13 autoras selecionadas, pelo menos 11 são gaúchas de nascimento. Viés este que pode contribuir bastante para a percepção de representatividade por parte do público consumidor feminino, abrindo portas para que outros talentos sintam-se respaldados pela realidade.

Vale ressaltar que, embora o conjunto dos livros se configure como uma espécie de coleção, cada um deles pode ser adquirido individualmente por preços super acessíveis (No site da editora se encontra cada um por R$ 34,90, na versão impressa e R$ 18,90, na versão digital).

Separei 17 textos dessas 13 dramaturgas e, para dar um gostinho, vou colocar as informações de contracapa de cada um dos livros dessa magnífica série. No final tem uma outra super dica sobre essa mesma série de livros indicados.

Sem mais delongas, vamos a lista:

Lobo de óculos: trilogia onírica – Carina Corá

“Cordélia: Terapia de grupo, luz de açougue, cadeiras milimetricamente ajeitadas em círculo. Eu vazia, eu sozinha no meio de um bando de gente. Eu humilhada pelos meus próprios pensamentos. Uma mulher que dorme. Uma batida rítmica da caneta de um homem sentado ao meu lado aguça minha percepção, eu sempre ouvi muito bem, me orgulho disso, uma das minhas poucas qualidades junto a um consumo extraordinário de remédios e uma prática constante de sexo.”

 

Bolo no casamento e AeroPlano – Dedé Ribeiro

Dedé Ribeiro exibe faces distintas de sua dramaturgia. Em Bolo no casamento, ressalta as implicações psicológicas das imposições sociais. Em AeroPlano, mergulha nas armadilhas dos relacionamentos. Nos dois textos, destacam-se os diálogos rápidos e coloquiais, com ironia e humor, pontuando situações-limite. A autora se vale de sua vivência multidisciplinar (artista, professora, produtora e estudiosa de neurociência) para o cruzamento de vários mundos, questionando hábitos e crenças culturais.

 

Histórias de uma mala só – Elisa Lucas

ITINERÁRIO: Uma viajante com “uma mala só” percorre vários lugares onde só a imaginação pode nos levar. No início da viagem, pegaremos um trem com destino à Cidade do Vai e Vem e chegaremos à história A MENINA QUE SONHAVA EM SER BAILARINA. A seguir, decolaremos no voo “54-Meia-Meia-Não-Chateia”, e pousaremos na Terra do Nunca e na história O DIA EM QUE SININHO SALVOU PETER PAN. Ao voltar para casa, a bordo de uma nau, viveremos a aventura O MENINO E O MAR. Faça sua mala e embarque nessa viagem!

 

Dog day e Diálogos nas folhas em branco – Fernanda Moreno

DOG DAY retrata o amanhecer e o adormecer de dez personagens, que vivem entre encontros e desencontros em uma cidade onde as luzes perpetuam a claridade, mas prevalece a solidão entre a frenética e decadente vida cotidiana.

DIÁLOGOS NAS FOLHAS EM BRANCO representa poeticamente a adolescência por meio dos lugares-comuns a que essa fase pode nos levar, dando espaço para as linhas a serem completadas.

 

Mergulho cego em piscina vazia – Jéssica Barbosa

“A dramaturgia de Jéssica apresenta-se em seu caráter fragmentário, exigindo que o leitor faça sua interpretação a respeito do que ocorreu com estas personagens e imagine finais exequíveis. Não há respostas, e sim uma plêiade de significações possíveis. Um texto atual e provocativo, não só quanto ao conteúdo que engendra, mas especialmente face à forma como resgata matizes do teatro do absurdo e existencialista, nos deixando à mercê de nossas próprias covardias e impotências.” (Camila Bauer)

 

Telefones úteis em casos de emergência – Jéssica Lusia

“Tenho um livro amarelo cheio de nomes. Nomes e números. E endereços também. Abra em qualquer página. Ligue para qualquer um. Diga qualquer coisa que faça essa pessoa pensar um pouco. Não importa quem ela seja. Pra eles importa quem eu sou. (…) Não é errado. Não existe crime nem castigo, só um incômodo, como um zumbido no ouvido, sou uma mosca ou uma abelha sem rumo, um pássaro semeando ervas daninhas.”

 

Quem é você – Lourdes Kauffmann

No desenrolar da ação dramática de Quem é você?, de Lourdes Kauffmann, vamos percebendo a variedade e a riqueza dos temas abordados, tais como a aposentadoria, os percalços da velhice, a fixação nas redes sociais, a preocupação exagerada com a estética e, entre outros, o desconhecimento que temos daqueles com os quais convivemos mais intimamente.

 

Duas vezes draMática – Natasha Centenaro

"Era uma vez o mundo. Era uma vez a fábula de quem começou o mundo e só descobriu a origem desse mundo quando abriu as pernas do mundo criado por ela e gritou, mas gritou com toda a sua voz."

Para romper a tradição hegemónica da palavra masculinista e de personagens femininas objetificadas, Duas vezes draMática é um projeto estético (politico) de reapresentação da escrita dramatúrgica, de um teatro feminista contemporâneo são mulheres duas vezes dramáticas, em cena e na palavra do discurso e do desejo, de sangue e de corporeidades, de sexo.

 

Em um tempo aberto e Camille no exílio – Patrícia Silveira

EM UM TEMPO ABERTO: Cinco pessoas de idades e gêneros diferentes lutam por alargar o tempo presente. Todas têm um motivo para querer pará-lo e lutam por se manterem no exato momento em que se encontram. A criança que não quer perder os pais; a mulher que ainda quer ser mãe; o homem que se apaixonou e sabe que será a última vez; a jovem que nunca se sentiu tão feliz; o jovem que começou em seu primeiro emprego. CAMILLE NO EXÍLIO: Teatro-documentário escrito com fragmentos de cartas da escultora francesa Camille Claudel. O texto é dividido em cartas que se alternam entre dois lugares: a casa e o manicômio. Está feita a provocação, instalado o conflito. Sair ou entrar. Entrar significa ver que não há mais nada para roubar, significa entrar no mundo de Camille, viver com ela a sua condenação, a sua prisão.

 

Mulheres pessegueiro – Patsy Cecato

Troféu esperteza para os homens que não me quiseram para casar, que me preteriram pela bonita, pela rica, pela inteligente, pela esposa e mãe de seus filhos. Ninguém merece uma mulher sem sentimentos como eu. Fiquei expert em levar fora, titia, quatro noivados e um funeral, porque um dos noivos eu matei dentro de mim, mas os outros três eu encontro de vez em quando para um chopinho, uma roda de samba… (Betinha Pessegueiro)

 

Duas histórias e um programa de tv – Stella Bento

Escrevi Duas histórias e um programa de TV numa tentativa de refletir sobre superexposição; sobre confusão entre ser famoso e ser artista; sobre a falta de jornalismo e de informação e excesso de “coisa-nenhuma” em programas pretensamente jornalísticos. É um início de diálogo. Há muito o que ponderar e dialogar sobre o assunto.

 

Virginias – Virgínia Schabbach

“Eu poderia fazer muitas histórias com o que ela disse, posso ver uma dúzia de imagens. Eu sei que Virginia não virá pelo jardim, mas olho naquela direção para vê-la. Eu sei que ela está morta, mas fico, porém, atenta à porta, à espera de que ela entre. Eu sei que acabaram seus escritos, mas ainda viro suas páginas. Eu sei que estou sozinha, mas ainda finjo que alguém me acompanha.”.

 

Lacatumba – Viviane Juguero

“A dramaturgia para crianças de Viviane Juguero reitera algumas características a cada novo texto: o universo infantil, a cultura popular, a musicalidade e a ênfase artístico-pedagógica. Em Lacatumba, personagens do universo fantástico que resistem ao tempo vestem novas roupagens, trejeitos, tiques e manias, que garantem o humor e, com certeza, prenderão a atenção das plateias. Os ritmos vão da ópera ao rock, com visitas às estações do tango, da rumba e da balada.

Boa viagem!” (Jorge Rein)

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Quer ver uma resenha completa de cada uma dessas peças, com direito a depoimentos das dramaturgas? Então eu vou dar mais uma dica:

É só entrar no YouTube e buscar pelo canal Realejo TV, do Grupo de Pesquisa Teatral Realejo EnCena.

Em breve começará uma série de vídeos especiais falando sobre cada um destes textos teatrais e suas escritoras.

 

Dica extra:

Clicando neste link, você será direcionado para uma matéria onde se encontra uma lista colaborativa com 153 nomes de dramaturgas (brasileiras e estrangeiras).

Mais uma chance de aproximação destes nomes que, conforme nos atesta a autora da matéria, fizeram e estão fazendo a “dramaturgia das mulheres”

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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