Tenho escutado e lido tanta coisa acerca do momento atual, mas acabo sempre com a mesma sensação no final, de que não estamos falando de uma faixa etária bem significativa e por que não dizer, a que está mais abalada por não ter muito para onde ir, no sentido real da palavra, não poder sair de casa e ao mesmo tempo, sentir-se alienado. Falo em alienação por escutar bastante das famílias que atendo, e da maioria dos idosos com quem convivo, que não estão conseguindo se sentir parte do mundo. Muitos não conseguem utilizar a internet, ou por não possuí-la, pelas dificuldades que a própria idade traz, por não terem quem os ensine, por terem medo... enfim, onde estão estes idosos de quem não falamos?
O que sei é que a pandemia não irá afetar a todos da mesma maneira, uma hora ela vai passar, mas deixará rastros profundos. O que já se sabe é que a maior parte dos casos graves e óbitos da pandemia em todo o mundo ocorrem em idosos. Ela tem o potencial de dizimar outras populações vulnerabilizadas, como os indígenas, privados de liberdade, refugiados, aqueles que vivem em situação de rua e muitos outros. Estas populações, além de orientações específicas e claras, precisam de renda, de moradia, de água e sabão, e respostas concretas do poder público às suas necessidades.
Apesar da declaração Universal dos Direitos Humanos reconhecer o direito à vida, à assistência médica e ao tratamento digno e igualitário ao longo da vida, durante o combate ao coronavírus, o que observamos é uma discriminação cada vez maior às pessoas idosas, discriminadas pela idade e pela saúde, muitas inclusive se encontram desprotegidas em suas residências. Dar voz ao povo é fundamental para a implantação de políticas públicas que se aproximem da necessidade das pessoas. Políticas que atingem os idosos precisam ser feitas com os idosos, ninguém pergunta a voz do idoso, o que ele precisa, o que quer.
Sabe-se que os grupos de alto risco necessitam de um período prolongado de isolamento social, mas, sobretudo, devemos pensar sobre o impacto que isso poderá ter no bem estar psicológico e social deste grupo específico. No entanto, isolamento não necessariamente significa solidão. São necessárias estratégias de monitoramento e comunicação que podem reduzir o sentimento de estar sozinho e desamparado, assim aumentando as chances para desenvolver uma resiliência comunitária, quando se ocupa o tempo com atividades significativas e prazerosas. Por exemplo, as iniciativas como a de um vizinho que seja solidário ao idoso solitário.
A indicação de pertencer a grupos religiosos, para prática da fé, independente de ter construído este vínculo antes, ou até mesmo de acreditar, apenas com o intuito e necessidade de receber manifestações de afeto (à distância), praticar conversas por identificação de temas, têm sido vitais, onde o significado de sentir-se pertencendo a um grupo nunca fez tanto sentido como neste último ano.
Por conhecer através da minha construção profissional o poder de um grupo, já escutei depoimentos descrevendo as possibilidades que podem contribuir para prevenir solidão e depressão. É um dever de cidadania expressarmos nossa solidariedade intergeracional, que nos permite fazer da crise uma oportunidade. Acima de tudo, torcermos para que nosso enfraquecido sistema de saúde suporte a demanda que está por vir e que possa cuidar a todos com equidade.
É preciso ainda gritar, se fazer escutar, para que o governo brasileiro implante medidas emergenciais de apoio e suporte às pessoas idosas, sobretudo as mais carentes. Isso pressupõe também dar apoio aos cuidadores, aos serviços de saúde e às instituições de longa permanência. Um grande aprendizado se faz e se fortalece em meio a tantas dores, mas para isto, acredito que seja fundamental exercitarmos, neste momento de crise, a consciência do outro.
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