Fotos antigas
Ouvi num filme uma vez que as células do nosso corpo se renovam por completo a cada sete anos. Não sei se isso é verdade, mas seria de uma poesia implacável. Como se restasse, daqueles que fomos sete anos antes, apenas algumas pintas ou marcas na carcaça da nossa pele.
Quando vejo fotos antigas, essa sensação se acentua. Olho para a criança de poucos anos sentada nas escadas da casa de meus avós, a casa que não é mais de meus avós, e vejo naquela criança um registro de algo que fui, mas que não me lembro, como uma espécie de hd externo de mim, plataforma que recorro para me contar o que já vivi.
Se isso das células for realmente verdade, já ingressei em minha sexta versão, cinco Guilhermes deixados para trás. Em algum lugar invisível dentro das trilhões de células que hoje me mantêm em funcionamento, outras trilhões de células adormecidas daquele que brincava nas escadas dos avós, daquele que jogava bola nas ruas do Engenho, daquele que escondia a timidez nas salas da Martinho Lutero, daquele que descobriu os alfabetos da amizade, do amor, da arte e das madrugadas na juventude e na vida adulta.
Ainda bem que a memória, casa imensa e afeita inclusive à ficção, sempre nos salvará dessa morte celular. Deve ser por isso que a saudade é uma espécie de dor.
Jardineira
Todo dia, na janela aqui de casa, uma jardineira rega nossos chás, nossas flores, nossa vida. Quando ela vai até a janela e começa a manejar as plantas, o sol brilha mais forte, sopra um vento inesperado, a vida se renova.
Eu já parei de questionar esses pequenos milagres que acontecem diariamente aqui em casa e que me têm como seu único espectador.
Entendi que me vale muito mais aceitar suas existências, agradecer esse jardim que me foi dado compartilhar e observar atentamente a jardineira em seus movimentos demorados de amor e de proteção.
O rio
Não há como definir quem nasceu primeiro. Esqueçamos, por ora, a frieza das cronologias. Guaíba é o nome de ambos: Rio e Cidade. Talvez seja por isso que ele pertença mais à localidade homônima do que à Capital, que igualmente o corteja, encanta, seduz. Mas Porto Alegre leva no nome a homenagem à sua beirada, não à fluidez das águas vizinhas. Distanciamento irreparável.
Outra nota curiosa: o Guaíba não seria um rio: há quem diga Estuário, Lago (Açude?). A palavra rio passou a encarnar, assim, a resistência alienada e delirante de um pai que dedicou ao filho um batismo equivocado, mas que reconhece neles a marca de um pertencimento mútuo, atávico e superior.
O Lago (Rio) Guaíba, o Estuário (Rio) Guaíba, qualquer dessas nomenclaturas deve carregar o fardo de um nome composto, como um sobrenome repetido, ou o belo estranhamento que um Glauber Rafael ou um Roberto Guilherme proclamam.
A arqueologia da palavra é, assim, corrompida pela rebeldia do signo.
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