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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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Canto primitivo

Os fogos que nos consomem e suas tatuagens de afeto

Canto primitivo
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Há um encantamento com o fogo que nos acompanha desde os primeiros anos. Nas churrascadas que o pai promovia aos domingos, o fogo de chão da casa de meus primeiros anos, as chamas que corriam alto; na engenharia que dispunha a lenha aos poucos estalada ao ser consumida pelas chamas na lareira da mesma casa, um clamor curto e seco como num último reclame de vida; nas fogueiras gigantescas, aterradoras e belas das primeiras festas de São João, labaredas verticais lambendo o céu: o fogo, desde sempre, é uma tatuagem afetiva na vida de todo aquele que nasce no sul do mundo.
 
Da mesma forma, o fogo integra os grandes clássicos da literatura produzida na região, provendo o calor para peões que cruzam o pampa sobre seus cavalos, iluminando as noites menos estreladas em longínquas coxilhas, ardendo sob e dourando as carnes do gado e da ovelha que se consomem em povoados rurais: há um sem fim de histórias incríveis escritas em que ele clareia, sufoca e seduz.

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Na icônica obra do argentino Ricardo Güiraldes, o romance Dom Segundo Sombra, o fogo ilumina desde as primeiras páginas a transformação de um menino guacho, criado aos solavancos em um pequeno vilarejo, a experiente peão de estância, qual metal primitivo que encontra nas chamas e no calor abundante do próprio fogo o acabamento em espada ou facão. Quando em começo de se adultar domador, o rapaz, já entrosado ao rebanho de peões acampando-se ilha de luz na imensa escuridão do pampa, compartilha, junto aos seus, o fogo-de-chão, as carnes assadas e as suas cores mais verdadeiras, como fantasmas de alma então revelados pelas chamas: “O resplendor da chama deu-nos aos semblantes uma severa aparência de cobre, enquanto de cócoras formávamos um círculo de espera. As mãos, manejando a faca e a carne, apareciam luzidias e duras... os galhos verdes de nossa lenha silvavam, para rebentar como longínquas bombas de procissão”.   
 
O fogo também pode ser reação e redenção. O músico e escritor Vitor Ramil deu-se conta, nos anos 1990, em pleno verão carioca, quando suava sem camisa em um apartamento que fervia próximo dos quarenta graus, aos goles de um chimarrão em temperatura ainda mais abundante, qual era o seu lugar no Mundo, e ajuda a explicar, no ensaio “A estética do frio”, essa amalgama esquisita de identidade e pertencimento que envolve nossa região: “A seguir, o mesmo telejornal mostrou a chegada do frio no Sul, antecipando um inverno rigoroso. Vi o Rio Grande do Sul: campos cobertos de geada na luz branca da manhã, crianças escrevendo com o dedo no gelo depositado nos vidros dos carros, homens de poncho (um grosso agasalho de lã) andando de bicicleta, águas congeladas, a expectativa de neve na serra, um chimarrão fumegando tal qual o meu. Seminu e suando, reconheci imediatamente o lugar como meu, e desejei estar não em Copacabana, mas num avião rumo a Porto Alegre”.
 
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Ao falar do frio, da costura enregelada que perpassa os habitantes dessa região inferior ao trópico, estava implicada, diretamente na referência ao chimarrão, mas também indiretamente, relacionada à própria sobrevivência às baixas temperaturas, a presença do fogo. Como Vitor, outros tantos forjaram a própria vida longe da lida do campo e de seu estoicismo orgânico, nos grandes centros urbanos, e cada vez mais num período de exagero e quase esgotamento de luz, quando nos restam poucos lugares por iluminar. A despeito de tudo isso, ainda hoje, o fogo insiste em arder na sua resistência delirante. E nos prova, a cada ritual artesanal dedicado a ele (no mate, no churrasco, na lareira), que ainda precisamos de seu canto primitivo.
FONTE/CRÉDITOS: Takenbytablo/Pexels
Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

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