O homem chegou a cavalo. E as patas do cavalo levantavam a terra clara do campinho. Lá do alto do chapéu do homem nascia a figura que eu ouvira falar nos causos do pai e do avô. Histórias sobre o campo que encarnavam uma poesia fantasmagórica. Histórias do deserto de um verde obscuro e imenso. Era o bigode pronunciado, os olhos escondidos na aba do chapéu, as vestimentas campeiras, as botas, as esporas, tudo reforçava a figura de um centauro firmado no conjunto com o cavalo. Era o primeiro centauro que eu via diante de mim.
A essa altura a bola rolava esquecida prum canto próximo à sombra de uma árvore distante. E todos observávamos aquela figura estacionada ao lado da goleira. As pernas do homem se mexiam por algum movimento inesperado do bicho, e notei que o mais alto de nós, o Zeca, ainda era mais baixo do que a parte mais baixa das rédeas do animal.
Buenas, ele falou, sabem me dizer onde fica o cemitério? Éramos ainda muito novos para frequentarmos locais onde há mais mortos do que vivos. Hesitamos todos. Parece que ninguém sabe falar por essas bandas, ele recomeçou, será isso mesmo?, e girou o cavalo para um lado e outro, como a exibir demonstração de desfile. Voltou a nos encarar. Seis garotos que ainda contavam os anos nos dedos das mãos. Eu sabia que deveria tomar a frente, mostrar que era o líder de nosso bando. O homem também sabia. Era sobre mim que derramava o pouco do olhar escuro que enxergávamos lá debaixo do chapéu.
Tomei coragem, inflei os pulmões de um ar que quase me escapou pelo peito, apontei o dedo junto da fala, como se um amparasse o outro, e disse É praqueles lados, é só ir costeando o rio e subir a lomba na direção da Igreja, o senhor vai enxergar a torre logo, logo.
Gracias, ele disse, e saiu levantando a poeira amarelada da quadra de terra na provocação às patas do cavalo. O rabo do animal abanando como se numa despedida definitiva. Esperamos que ambos sumissem na curva da rua lateral. Nenhuma partida de futebol poderia acontecer diante daquelas figuras fantásticas.
A partida reiniciou. Os times se reordenaram em campo. Mas algo fora perdido. Não sabíamos explicar a razão de nossa impossibilidade. Uma certeza imediata, porém, impunha-se a todos: havia algo mais grave no mundo do que os jogos de futebol do nosso campinho. Mesmo sem reconhecimento mútuo de vencedores, a partida foi concluída. Os donos da bola, eu e o Zeca, trotamos pouco a pouco para fora da praça, em despedida aos demais. A tarde hospedava-se sobre os morros.
Subimos a lomba, chegamos à Igreja, ultrapassamos o arco e rumamos ao cemitério. Ainda de longe enxergamos o cavalo amarrado à árvore próxima à capela principal. Sozinho. Nos aproximamos, no passo medido para não resvalar no paralelepípedo. Já em frente à capela, uma imagem nos marcaria para sempre: o homem ajoelhado, os trajes campeiros diante do caixão, as lágrimas anunciadas num choro convulso, e a voz do gaúcho, que há pouco nos impressionara naquele timbre metálico, reclamava o mais antigo dos hinos de abandono: Pai... Meu pai...
Ele interrompeu os apelos e olhou para nós. O rosto vermelho, escancarado pela ausência do chapéu. Olhos de cão abandonado. Voltou-os ao caixão e disse um rosário de palavras indecifráveis. Nesse momento, a bola escapou das mãos do Zeca e desceu aos pulos o paralelepípedo da lomba.
Nenhum dos dois cogitou deixar a porta da capela. Ainda observamos a bola bater em um muro e sumir na direção da avenida. Foi só então que eu e Zeca entramos e ocupamos as cadeiras mais próximas do homem e do caixão de seu pai. Ainda faltavam algumas horas para o enterro.
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