1.
Os mascarados em fila. No banco. Na lotérica. No tabelionato. Nos mercados. Nós todos em fila e mascarados.
Olhando-nos com medo, aquele ao lado pode estar contaminado sem saber. Eu mesmo posso estar contaminado sem saber. Quando me dou conta disso, me constranjo do olhar que entreguei àquele ao lado que pensei que poderia estar contaminado sem saber. Me constranjo, mas escolho me perdoar. Estou ainda aprendendo a lidar com isso, estamos todos aprendendo.
Esse inimigo invisível e silencioso que nos ronda o tempo inteiro. Aquilo que há muito esquecemos de ser: invisíveis e silenciosos. Precisamos de barulho e de espelho em período integral. Nas lentes luminosas de celulares e nas ruas, esquecemos de habitar nossas próprias sombras, nossos próprios silêncios. E quem ignora suas sombras, quem ignora suas vozes internas, como sabemos, recalca algo de si, vira refém daquilo que não quer ser.
E agora andamos mascarados. Protegendo-nos uns aos outros como podemos, mais quietos, menos vaidosos. Todos igualados pelo medo. Exceto alguns que ainda duvidam do inimigo invisível e silencioso. Mas esses também parecem acreditar que a Terra é uma extensa tábua plana, que há uma conspiração comunista em cada esquina, que a truculência é o único idioma possível. E eles gritam. Eles precisam gritar. Porque não suportam o próprio silêncio. Porque temem suas sombras como uma criança tem medo do escuro do quarto.
Nós mascarados e em fila. No banco. Na lotérica. No tabelionato. Nos mercados. Protegendo-nos uns aos outros de inimigos invisíveis, silenciosos, mas também dos barulhentos, truculentos, negacionistas.
2.
A ausência que dorme na calmaria dos parques. As saudades acumuladas de todos os encontros que eles abrigaram. Esse latifúndio de lazer que abre brechas e horizontes em meio à vocação cada vez mais vertical das cidades.
Pelos dias de quarentena, na paisagem desolada que resta sem frequentadores, as memórias deixadas por lá parecem encontrar formas de se comunicar com o mundo que as abandonou.
Sob a luz de um laranja fosco que costuma tingir os finais de tarde, vejo o aceno pendular das árvores mais altas, os bancos que perdem a tinta e ganham aos poucos as cores do tempo, os monumentos que guardam em silêncio a solidão de todos os homens.
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