Segundo o Mito da Esfinge, para os viajantes que passassem por ela, decifrar ou não seu enigma significava o fim de sua vida ou o recomeço dela. Das muitas interpretações possíveis do mito, como psiquiatra, gosto da ideia de que ele se refira à necessidade de autoconhecimento dos seres humanos.
Podemos entender que estejamos passando por um equivalente da esfinge nesse momento, essa pandemia que nos trás um enigma, de cuja resolução depende nossa sobrevivência. Não me refiro a sobrevivência física, aquela que depende de distanciamento social, máscaras, água, sabão e álcool em gel, mas à nossa sobrevivência emocional às angustias frente ao desconhecido, à doença, às perdas várias e ao isolamento.
Tenho recebido diversos manuais e dicas de como lidar com este período, sobre como não ser devorado por esse estranho e enigmático momento. Compartilhei alguns deles com pacientes e amigos, sempre acompanhados da ressalva: “use o que for útil pra ti”. Digo isso porque nossos recursos e estratégias de enfrentamento de situações difíceis são muito individuais. Certamente, há orientações gerais de saúde que podem e devem ser generalizadas: alimentação balanceada, atividade física regular, sono noturno, alguma rotina. Por outro lado, que outro momento poderia ser tão propício a nos fazer pensar sobre nossas preferências pessoais, o que nos faz bem, e a colocar isso em prática, em lugar de seguir protocolos de comportamento?
Posso citar alguns exemplos para que acompanhem meu pensamento. Quase sempre faz parte desses conjuntos de dicas, arrumar-se como de costume para o trabalho. A mim, entretanto, poucas coisas trazem tanta sensação de conforto e bem-estar como estar de pijamas ou roupas confortáveis, descalça e sem maquiagem. Por qual razão eu deveria abrir mão disso se estarei aqui na intimidade da minha família? Fazer diferente seria um desconforto desnecessário a agregar para esses dias já repletos deles. Para outras pessoas, a disposição e o bem estar, podem vir de acordar, por um salto, batom ou gel no cabelo, e está ótimo. Somos diferentes e não há compêndio capaz de abarcar toda a diversidade e complexidade humanas.
Evitar o excesso de informações é também dica comum. Mas o que é excesso? Talvez seja o tanto de informação que não te permita pensar em mais nada e ter o tempo todo pensamentos sobre o assunto, reverberando na mente. Eu sou um ser apaixonado pela realidade, pela crueza das coisas sejam o quão duras forem. Por mais difícil que uma noticia seja, eu prefiro lidar com a angústia de sabê-la do que com a ignorância. Também tenho gosto por ir a fundo (na psiquiatria não é simples trabalhar bem permanecendo na superfície dos fatos e assuntos).
Outras pessoas talvez prefiram saber o essencial, o necessário para se proteger e não correr risco de contaminar alguém. Saber mais pode lhes causar ansiedade, tirar o sono, o apetite e colocar o pensamento em turbilhão. É isso, temos necessidades diferentes, formas diversas de encontrar nossa melhor fórmula de sobrevivência. Esse é o ponto, não há poção para uso comum. Cada um de nós, na beleza da nossa individualidade, precisamos encontrar a nosso próprio caminho. O autoconhecimento também nos permite reconhecer quando nossos limites foram rompidos e sozinhos não podemos mais. Buscar auxílio para conhecer-se também é uma opção.
Não sabemos qual é o mundo que nos espera depois desta nuvem, dificilmente guardará a totalidade do que era antes. Conhece-te a ti mesmo e será menos dolorosa essa travessia. Quem sabe seja possível até mesmo nos reconstituirmos para uma nova forma de existência, mais de acordo com o que somos em essência.
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