Esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e reutilizar materiais como matéria-prima de baixo valor estão tornando mais rentável o olhar para os aterros sanitários com o objetivo de obter energia e adequar o lixo para as commodities da economia verde, como garrafas de detergente e caixas de papelão.
O impulso verde dos EUA e seus governos estaduais estão transformando o lixo em tesouro e impulsionando as empresas que lidam com o lixo das Américas.
É exatamente isso o que os maiores investidores dos EUA estão fazendo - olhando para os negócios de lixo, gerenciamento de resíduos e serviços, de forma que negociaram recordes desde que o presidente Biden assinou o projeto de lei climático, tributário e de saúde em agosto/2022.
Apesar de um declínio recente, as ações são escolhas populares em Wall Street, na Bolsa de Valores Americana, para aproveitar o boom da sustentabilidade, pois o lixo está na vanguarda.
A WM e a Republic trabalham incansavelmente, pois estão construindo usinas para isolar o metano da fumaça emitida pelo lixo apodrecido e canalizá-lo para a rede de gás natural para ser queimado em usinas de energia, fornos e cozinhas, assim como vem equipando as instalações de reciclagem com o que há de mais moderno em automação para classificar e processar melhor os materiais de modo que as empresas de bens de consumo que estão sob pressão para manter suas embalagens fora dos aterros sanitários e dos oceanos também participem efetivamente do processo.
Os proprietários de aterros sanitários americanos estão prevendo centenas de milhões de dólares em lucro adicional com a crescente demanda por materiais reciclados e incentivos fiscais para produzir energia a partir de emissões que, de outra forma, seriam lançadas na atmosfera e contribuiriam signiificativamente para o aumento da temperatura na Terra.
Um exemplo de expansão a olhos vistos é a empresa Republic, que tem 206 aterros sanitários ativos, uma joint venture com uma unidade da BP para instalar fábricas de gás em 43 de seus lixões e também está gastando cerca de US$ 275 milhões para construir quatro instalações de processamento de polímeros que classificarão o plástico coletado na calçada e o transformarão em flocos para novas garrafas e jarros.
Já a empresa Phoenix tem 65 usinas de gás de aterro e alguns alimentam tubulações de serviços públicos e outros geram eletricidade no local onde estão instaladas.
De outro lado, a empresa WM, que opera mais de 250 aterros sanitários, está no segundo ano de um plano de quatro anos para gastar US$ 1,2 bilhão adicionando 20 usinas de gás de lixo, bem como US$ 1 bilhão expandindo e automatizando seu negócio de reciclagem e espera que as novas e atualizadas instalações aumentem sua recuperação de materiais reutilizáveis em 25% até 2025. Isso significa que para cada 1000Kg (1 Ton) de lixo retirado dos aterros, 250 Kg serão de materiais reutilizáveis e os outros 750 Kg gerarão energia!
Analistas do mercado financeiro dizem que, mesmo sendo uma tendência, ainda é visto como um risco quando aumenta-se a exposição a mercados voláteis de commodities e créditos de combustíveis renováveis, podendo assustar os investidores interessados e acostumados nos lucros estáveis e previsíveis envolvidos no despejo de lixo em aterros sanitários.
Executivos afirmam que os negócios de sustentabilidade são complementares e lucrativos, mesmo quando os preços das commodities estão baixos, como agora.
Outro fator importante é ter máquinas fazendo o trabalho sujo, as quais também reduzem custos de mão de obra, já que a tarefa de reciclador/catador é muito trabalhosa e difícil de preencher nos EUA. Assim, serão substituídos por classificadores ópticos, que usam câmeras infravermelhas para identificar materiais valiosos na mistura de materiais e separar os pedaços desejáveis em caixas separadas com sopros precisos de ar.
A WM diz que o valor da commodity combinada de suas instalações automatizadas de recuperação de material é cerca de 15% maior por tonelada, já que as máquinas não apenas acumulam material mais valioso, como o material sai mais limpo e pode render mais do que fardos bagunçados.
A lei climática americana de 2022 adoçou a economia do gás proveniente do lixo e uma proposta federal para oferecer créditos adicionais para projetos de biogás que produzem energia para veículos elétricos pode tornar os incentivos ainda mais fortes.
Executivos e analistas de empresas de tratamento de resíduos dizem que vale a pena construir muitos de qualquer maneira e que os incentivos tornam econômica a instalação de fábricas de gás em aterros menores e menos gasosos.
No Brasil, a coisa ainda anda a passos lentos. Há iniciativas nos estados do RJ, SP, AL, SC, MG e PR, mas ainda esbarram numa série de dificuldades, em destaque a falta de legislação e incentivos fiscais para a implementação desse tipo de negócio em solo brasileiro. No RS nem se fala...
Antes da pandemia participei de um grupo de trabalho que tinha interesse em trazer essa tecnologia para Guaíba, ou seja a transformação de lixo em biogás e fertilizante advindo do lodo, com a projeção da geração de cerca de 180 empregos diretos e mais de 300 indiretos. Onde parou essa iniciativa? Na política local, mas eu diria na falta dela e na briga de “galos”!
Empresas de grande porte não abraçam uma cidade sem incentivos fiscais, mobilização política municipal, estadual e federal. E para piorar, nem a coleta seletiva está implantada na cidade, desobedecendo os princípios básicos da Política Nacional de Resíduos Sólidos - Lei Federal Nº 12.305/10. Enquanto isso, gasta-se milhõespor ano com toda a cadeia da coleta, transbordo e transporte do lixo guaibense para o aterro de Minas do Leão, já que não há iniciativas eficientes de organização de catadores, com recursos, treinamento e valorização, apesar de estarmos entre as “Top 10 do PIB Gaúcho”.
Digo isso há 20 anos: ”em tempos de crise climática e alto potencial de extinção da vida na Terra, o dia em que os políticos entenderem que investimentos na cadeia do lixo e do saneamento básico dão muitos votos, essas pessoas dominarão suas regiões." Pena que não tenho os altos recursos para implementar tais projetos, mas tenho conhecimento técnico e vasta experiência na área.
Os dados foram lançados... Que venham as campanhas de 2024!
Fontes:
Kane Bridge News. Disponível em: https://kanebridgenews.com/ Acesso em 16/08/2023.
Portal Saneamento Básico. Disponível em: https://saneamentobasico.com.br/residuos-solidos/jogo-wall-street-lixo/?utm_source=RdStation&utm_medium=RD+Station+Junho+04&utm_campaign=RD+Station+Junho+04&utm_id=E-mail&utm_term=SaneamentoBasico&utm_content=SaneamentoBasico Acesso em 16/08/2023.
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