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Sabado, 23 de Maio de 2026

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Espera

Um conto sobre a suspensão da vida

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Dessa vida não se leva nada além de dar e receber guarida, disse ela toda velha e sentada naquela poltrona que parecia um trono de rainha em um reino decaído.

Acho que quase sem perceber a rima bela e vulgar e meio óbvia que criara no improviso da dor, que certamente tem algum parentesco com o improviso da poesia, essa ferida ardida que demora a sarar, que fica latejando lá dentro, mas que quando vira cicatriz, quando se resolve curada, é meio inevitável se exibir a beleza tatuada da dor ali exposta pra todo mundo.

O rosto todo enrugado feito o tronco mais enrugado da árvore mais antiga da mais ancestral floresta ali diante de mim e como uma reprodução envelhecida e em alto relevo do retrato de menina pregado na parede lá atrás.

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Lá atrás como um fantasma de si mesmo que resolve voltar décadas depois para assombrar aquele que se é pelo poderia ter sido e não foi, mesmo que aquele que hoje é, não quisesse desde sempre ser o que poderia ter sido, e preferisse, desde sempre, ser o que de fato é: causa e consequência.

Eu digo é isso mesmo, bisa, é isso mesmo, com a voz quase não saindo de vergonha de falar com velhos, medo de matá-los com minha juventude em excesso.

E assim vou construindo meus terrenos de silêncio quando de junto a eles, cultivando olhares longos sobre aqueles que têm muito mais vida gasta do que eu.

Um inventário de visões que envelhecem meus olhos muito antes do restante do corpo, num caso de geriatria ocular que muito me machuca a vista ver o mundo de um jeito e muito me desconcerta as pernas andar por ele de outro.

E o dia vai passando assim como deve, a bisa naquele balanço pêndulo da poltrona que range como se reclamasse de algo, mas não tomasse nenhuma providência para aplacar esse algo, como se fizesse do gemido e da reclamação do gemido a vocação primeira para a sua própria existência.

Eu vou até a porta, as luzes da rua iluminam pouco do pátio, logo adiante tudo morre e o resto é escuridão, estamos sozinhos no mundo, eu digo, estamos sozinhos no mundo, eu grito e o grito foge rápido da boca, toma conta do pátio e se atira pra noite sumindo onde não há luz.

Então volto pro centro da sala, a bisa de olhos fechados, respirar lento e mãos sobre a barriga, numa postura de morte que é vetada apenas pelo balançar que segue, feito relógio preciso de ponteiro tagarela, vai e volta, vai e volta, vai e volta, sempre anunciando a ida e sempre anunciando a volta, e seguirá assim, até que eu pegue no sono também, até que deixemos de aguardar quem não partiu e que, portanto, não voltará nunca mais.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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