Repórter Guaibense

Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

Colunas/Geral

Existência em Letras Fortes

A literatura da resistência

Existência em Letras Fortes
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No decorrer das últimas semanas, eu venho trazendo aqui para a coluna uma série de entrevistas com os nossos trabalhadores da cultura. 

Semana após semana tenho tido o prazer de conhecer um pouco mais sobre a trajetória de pessoas talentosas e trabalhadoras. 

Conversas que vão se transformar em documentos muito interessantes no futuro. Entrevistas despretensiosas que mostram uma parte da alma e do pensamento dessas pessoas tão importantes para a construção do ambiente cultural dessa cidade. 

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Para minha sorte, Guaíba é um lugar privilegiado e cheio de talentos e com certeza o que não faltará são boas histórias. 

Nesse instante, em algum bairro dessa cidade está nascendo uma estrela e a gente nem sabe. Tomara que ela resista. Que encontre forças nos exemplos que aqui abundam e siga os seus sonhos. 

O meu convidado de hoje exerceu essa influência positiva na minha vida. 

Arriscaria dizer que se não fosse pelo exemplo dele, talvez eu não estivesse aqui escrevendo essa coluna. 

Quando, no início da fase adulta, ainda sem ter muita convicção sobre o que fazer da vida, tive acesso a um livro dele. Isso, por mais simples que possa parecer, me fez ter confiança. 

Me fez acreditar que poderia chegar em algum lugar.  

Foi muito importante ver um escritor guaibense alcançando tanto destaque e fazendo coisas maravilhosas tendo a nossa cidade como cenário e inspiração.  

Isso mudou a minha percepção e me fez enxergar um universo de oportunidades. 

A coluna de hoje, em primeira instância, é um brinde a representatividade. 

Depois disso, ela é tudo que você vai ler aqui embaixo. 

Dessa vez, ao invés de te pedir para se ajeitar na poltrona, eu vou te aconselhar a se segurar na cadeira. 

Respeitável público, 

Apertem os cintos! 

Com vocês...Altair Martins! 

________________ 

DRONE CULTURAL - Muito obrigado por aceitar o convite, Altair. É uma honra te receber aqui e um prazer poder, junto com nossos vizinhos guaibenses, descobrir um pouco mais sobre a trajetória de um dos mais brilhantes escritores da atualidade. 

Vamos começar com uma breve apresentação. Você é nascido em Porto Alegre, mas cresceu aqui em Guaíba. Correndo aqui pelas ruas de nossa cidade.  

Quem é o Altair? A partir de que ponto de vista você vê o mundo?  

ALTAIR – Sou um chato de galocha. Tenho um senso crítico, a começar por mim, meio sabotador. É por essa lente que vejo o mundo. Por isso, não suporto paraquedistas que alcançam, pelo favor ou pelo poder de mama, o que as outras pessoas lutam uma vida pra conseguir. Como o Brasil é terreno fértil pro paraquedas, escrevo contra isso. E mais: sou pelos bichos, pela água e pela nuvem; não gosto do modo safado como usam o substantivo progresso. E tenho uma utopia apenas: que todo o trabalho receba o mesmo valor. Já imaginou? A hora-trabalho de quem vende picolé sendo igual a de quem leciona e de quem atende num consultório e a de quem faz pão e de quem dirige uma empresa? Coisa linda. Seria um mundo para o qual (e não no qual) as pessoas estudariam. Também acho que compraríamos menos porcaria. 

DC – Qual é a tua lembrança mais antiga em relação ao contato com um livro? E, mais tarde, como a literatura passou a fazer parte da tua forma de expressão? O que te levou ao universo literário? Em que momento se tornou objetivo profissional? 

ALTAIR – Cresci numa casa sem livros, com outros parentes que também não liam. As referências culturais, naqueles anos 80, vinham da televisão. O primeiro livro que vi foi um presente de aniversário da professora Helnay para o meu irmão. Sei apenas que era a fábula do jabuti que vai à festa do céu. Ela reuniu a gurizada ao redor dela e leu. Eu fiquei fascinado com aquilo. Pegava o livro depois e, olhando as imagens, lia de novo.

A partir daí a escola pública me apresentou a pluralidade: devorei as bibliotecas da Escola Nestor de Moura Jardim, do Cônego e do Gomes Jardim. Enquanto era office boy, frequentei a Biblioteca municipal Darcy Azambuja. No Ensino Médio, depois de ler Caminhando na chuva, do Charles Kiefer, eu já tinha em mente que queria ser escritor. Por isso fui fazer Letras. Eu não sabia é que iria lecionar – e que isso seria uma das melhores surpresas que a vida me deu. 

DC – Para ti, qual é o principal significado de Literatura? 

ALTAIR – O paradoxo da solidão. Escrever é um gesto de silêncio, de demora e de reclusão. Mas há nisso o horizonte do outro, a pessoa que por ventura vai ler. Penso sempre: nunca vou ler o que escrevo, porque nunca serei o leitor que, desamparado, vai pegar meu livro e ir descortinando página por página. Assim, só existo no outro (nesse clichê, inclusive). Acho que isso poderia servir para a vida.  

DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração? 

ALTAIR – É estranho, mas sou mais leitor de poesia. Quando me perguntam qual o maior escritor ou escritora de todos os tempos, respondo de imediato: Carlos Drummond de Andrade. Foi ele quem nos ensinou a ser escritor sintonizado com sua época, mostrando que em literatura devemos ter compromisso com quem somos e com as circunstâncias que estamos vivendo. Na prosa, deixando de lado os óbvios, admiro o Amílcar Bettega Barbosa, o Sérgio Faraco, o Daniel Galera, a Cíntia Moscovich, o Ronaldo Correia de Brito. A cada momento estou admirando alguém diferente que, puxa vida, esquecerei alguém substancial na minha trajetória. 

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DC – Aproximando mais do nosso público local: de que forma nossa cidade te inspira? 

ALTAIR – Guaíba está em tudo o que escrevo. Na prosa, a cidade aparece como cenário pulsante (seja com o nome de Pedras Brancas ou com o de Guaíba mesmo). No teatro, os rescaldos dos grupos 100 Grilos e Troupe-Rê-Ação são evidentes. Mas é na poesia que vejo Guaíba mais visceralmente escrita: minha sintaxe é o modo como aprendi a viver, junto às pessoas com que convivi.   

DC – Eu lembro o dia em que conheci a nossa “Beira”. Ainda muito pequeno, meu pai me levou para ver as luzes de Porto Alegre acendendo no início da noite. Isso não sai da minha memória. Era impressionante e virou um dos passeios preferidos.  

Lembro-me do primeiro banho na praia da Alegria e dos ônibus da cidade.  

Qual é a tua lembrança mais antiga relacionada aos cenários de nossa cidade? Como a vida aqui influenciou a tua percepção de mundo?  

ALTAIR – Lembro tanta coisa. Lembro-me de brincar no mato (hoje avariado) em frente à nossa casa, na Rua Dr. José Montaury, de acampar na Florida. Lembro as escolas e todos os professores. Lembro o meu maior amigo de infância, o Márcio Maia, e os nossos Comandos em Ação. Lembro as primeiras reuniões dançantes, a companhia do Timóteo Ávila, a minha coleção de fracassos, as pessoas que envergonhei sem querer. Lembro-me de descobrir que eu podia ser bom atuando, pois meus personagens convenciam. Lembro as gincanas, os carnavais junto ao Sai-da-Frente. Mas sobretudo lembro uma imagem: meu falecido tio, Antônio, me ensinando a pescar no Caisinho (que era só um caisinho, sem restaurante). Meu tio quase não falava, e talvez por isso aquela tarde tenha mudado a minha vida. E eu nem sabia que seria a única tarde que eu ia ter com ele.  

DC – O que Guaíba possui de mais inspirador? 

ALTAIR – Adoro em Guaíba sua geografia: essa cara de coisa do interior que não é tão ingênua, pois pode pegar um ônibus e em 45 minutos chegar à capital. Gosto de ser cidade e ter mato, usufruir de rio – e entre pessoas conhecidas. Adoro as aves da cidade, o movimento das ruas, a escadaria, as tipuanas. Amo beber uma cerveja gelada de frente para o rio. 

DC – Voltando a falar sobre as questões que envolvem a literatura, qual é o maior desafio para quem resolve participar do mercado literário? As pedras do caminho podem virar um caminho das pedras? Como conseguir driblar os obstáculos até a publicação de um livro? 

ALTAIR – O desafio se resume à mesma sequência de etapas: 1) escrever, 2) publicar (o que é hoje infinitamente mais fácil), 3) fazer o livro ser visto, lido, comentado em jornais e revistas e 4) ser visto como escritor e não como peça da vez na "sociedade do espetáculo".

Me dou muito bem com a 1. Faltam as outras etapas. Assim, lecionar me dá oxigênio (e dinheiro, claro). Caí na sala de aula por acaso (que acaso bom pra mim, que sou um estudante profissional). Fiz Letras - Bacharelado, com habilitação em tradução, mas precisei ganhar a vida e, com 19 anos, já estava lecionando na escola onde estudei durante o ensino médio – o Gomes Jardim. Meu primeiro livro começou por essa época. E foi difícil pra caramba! Era meu primeiro ano de professor quando ganhei o Prêmio Guimarães Rosa, da Radio France Internationale. O conto se chamava Como se moesse ferro. Então comecei a planejar um livro e cheguei a 14 contos. Mandei para todas as editoras de Porto Alegre e não recebi resposta alguma. Então me escrevi de novo no Prêmio da França, com um conto chamado Humano. E ganhei de novo. A Zero Hora resolveu publicar o conto Humano numa edição de sábado, e, inacreditável, Moacyr Scliar, Assis Brasil e Charles Kiefer me elogiaram. Então o editor Walmor Santos me chamou e para logo publicar o livro, cortando 3 contos e acrescentando o Humano. Assim saiu o Como se moesse ferro. Me senti muitíssimo feliz mesmo quando anunciaram meu livro na Feira de Porto Alegre e na de Guaíba.

Foto:  David Boaventura

 

Não sei se a literatura vai me afastar da condição de professor. Me disseram, quando ganhei o Prêmio São Paulo de Literatura, que eu deixaria as aulas. Ridículo. Até o prêmio, o livro premiado, A parede no escuro, tinha tido três resenhas fora do Rio Grande do Sul. Nenhuma em São Paulo. Ganhar o Prêmio significou ser lido um pouco mais, resenhado um pouco mais. E, claro, conheci pessoas incríveis, como os escritores que participaram do evento. Mas, fora isso, meu RG permaneceu o mesmo. O prêmio me foi entregue numa segunda à noite; cheguei a Porto Alegre numa terça e fui dar as minhas aulas, sem que ninguém soubesse de prêmio algum. A semana continuou, como a vida. Disse à época que pouca coisa iria mudar na minha condição de lutar-para-ser-escritor: e quase nada mudou. Participei apenas da cena literária.

Continuo entre Porto Alegre e Guaíba, chamado de professor, o que me faz muito feliz. Sinto que ler e falar sobre as coisas que leio é o que melhor sei fazer nesta vida. 

DC – Eu sou um romântico. Gosto do livro físico. Gosto de pegar na mão, cheirar quando é novinho, fazer anotações, essas coisas. Pouco a pouco, nos últimos anos, devido ao preço e a pressa de algumas situações, venho aderindo aos livros digitais. Não acho que os formatos sejam antagonistas, vejo até como complementares em alguns casos. Mas aí eu te pergunto:   

A partir do ponto de vista do Altair leitor e escritor, qual é a tua relação com o formato E-Book? 

ALTAIR – Não tenho problemas com os livros digitais, embora prefira exemplares físicos. Creio que, no caso dos livros de teoria, até prefira o digital mesmo. Não é esse aí o problema. A coisa perigosa (como já atestou Todorov) é o lugar da literatura. Livro é uma coisa: é um produto.

Leitura é um cristal que precisa de um lugar para se realizar, de tempo e de estudo. Sim, precisamos resguardar o espaço da leitura: por isso, os livros digitais não me causam receio. Polêmica: temo mesmo são as séries. Elas é que vão comer a literatura (aquela que demanda tempo), com seu mecanismo de produção, propaganda e rodagem. 

DC – O que a Literatura acrescentou na tua vida? Que tipo de aspecto da tua vida tu acha que deve exclusivamente a Arte e a Literatura? 

ALTAIR – A literatura me estragou. Seria mais fácil fazer algo útil (especulação imobiliária, um perfil falso e messiânico no Face ou no Insta). Eu poderia denunciar os mimimis dos oprimidos, dizendo que nunca houve escravidão, nunca houve feminicídio, nem tortura, que não existem militares nem vírus, que o fim do mundo são os comunistas, que a OMS é comunista, que o Hitler era comunista, que o comunismo venceu a Guerra Fria porque a Guerra Fria nem existiu, que a hóstia poderia ser feita de hidroxicloroquina e que a Amazônia e o Pantanal são comunistas que os queimam porque a Terra é plana... Mas fui gostar de ler, de apreciar arte.

Sabe o “gauche na vida” do Drummond? É isto: a literatura entorta a gente. Agora por exemplo, nestes tempos de pandemia, o Valmir Michelon me manda uma foto, e eu escrevo um poema por semana. O dia mais feliz é terça. É quando escrevo o poema em vez de estar lendo uma merda de fake news mal escrita.  

DC - Quais são os limites de um livro? Eles existem? 

ALTAIR – Putz, lá vamos nós com teoria da literatura. Umberto Eco escreveu “O libro aberto” e depois corrigiu em “Os limites da interpretação”. Os limites da leitura são poucos. Os do livro, muitos. Um limite: chegar ao leitor. Outro limite: permitir que o leitor leia. Mais um: competir com as outras mídias (as séries estão aí inclusas, sobretudo aquelas feitas em língua opressora!). É isso e mais o que um livro precisa superar. Depois a gente pode falar de limites de conteúdo, de estilo. Até lá, o livro luta pra chegar a um editor e a uma livraria e depois ao leitor. Por isso, todo livro é vingador. (Sei que a pergunta não foi essa, mas eu queria falar sobre isso). 

DC – Você além de escrever e lecionar, também se aventura em outras linguagens como o Teatro, por exemplo. Corpo e mente ativos constantemente. Como a tua família reage em relação ao teu trabalho e necessidades criativas? Como eles encaram a tua escolha e esforço pela carreira? Eles têm uma relação de proximidade ou nem conseguem acompanhar a dinâmica das coisas que você faz? Aproveito para te perguntar se mais alguém da tua família se relaciona com algum fazer artístico? 

ALTAIR – Minha família tem artistas: a Márcia é arquiteta (e desenha muito), a Manuela escreve e desenha, e o Santiago é mais do cinema. Tento não os envolver na minha loucura: lecionar na universidade e no cursinho, escrever poesia semanal, escrever teatro, encenar e montar a peça, escrever um romance (ou projeto), um conto aqui outro lá, cuidar da minha diabete, do meu projeto de pesquisa, das minhas orientações e grupos de estudo, estudar História da Arte. Minha casa é pequena, e dividimos o espaço. Escrever é só a minha maneira egoísta de ficar sozinho. 

DC – Outro dia estive conversando com a querida Débora Jardim sobre a importância da Literatura para a formação artística até mesmo em outros segmentos. Argumentei que quase todo mundo, seja na infância, seja na adolescência, passa por uma fase de aproximação com a escrita. É uma forma de expressar a nossa opinião, demonstrar os nossos sentimentos e estabelecer comunicação com o mundo. Te pergunto o mesmo que perguntei para ela: 

Você acredita que a Literatura pode ser a porta de entrada para outras artes?  Como criar, em casa, na escola, nas bibliotecas e demais espaços, um ambiente que possa incentivar a prática também da escrita? 

ALTAIR – Claro que sim. E mais: é uma porta para outros saberes (aliás, o saber da boa literatura é sempre indireto, indefinido). Assim, a prática da leitura e da escrita é uma responsabilidade de todas as disciplinas na escola e, em sociedade, um horizonte, se desejamos, claro, um mundo mais humano e menos tecnocrata. A Feira do Livro e Guaíba, por exemplo, é um investimento na sociedade, como também o é a livraria do meu amigo Guima, o teatro do Renato, o carnaval e a gaita da Fofa, entre tantas outras manifestações.  

DC – Há pouco mencionei que você também desenvolve pesquisas relacionadas ao Teatro, mais precisamente ligadas a dramaturgia teatral, que já te renderam obras de ótima qualidade também nessa linguagem. Pelo que sei, você também vem se dedicando à arte da atuação. Como é esse processo para você? Qual é o espaço dessa Arte na tua vida? 

ALTAIR – Escrevo pra teatro desde os tempos da Troupe-Rê-Ação. O José Renato foi uma pessoa importantíssima nesse sentido (e continua sendo). Tive a oportunidade de publicar minhas peças pela EdiPUCRS em 2018, quando lancei “Guerra de urina”. Seguiu-se “Hospital-Bazar” (2019). Algumas obras estão no forno. Ensaiamos o Tango durante todo o segundo semestre de 2019 e estrearíamos em março deste ano. A pandemia atrasou nossa peça em um ano (ou talvez mais). Voltar a atuar profissionalmente foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos. Não pretendo mais me manter afastado disso. 

Leia também: Hospital-Bazar

DC – O teu processo criativo para o texto teatral é o mesmo? Você parte das mesmas bases? Qual é o gatilho que te faz escrever para Teatro? 

ALTAIR – O drama é o gênero mais livre em termos de narrativa. Uma peça permite gerir imagens, sons, falas, gestos. Parto sempre dos absurdos que vivenciamos como normais, porque impostos de modo sistêmico e canalhaParto de alguma cena dpretensa realidade. Gosto de mostrar a crise da linguagem – e a fratura que a realidade sofre quando a língua não sustenta qualquer lógica.  

DC – Você já teve o merecido privilégio de ser escolhido duas vezes como patrono da nossa Feira do Livro. Isso, mesmo para um escritor premiado como você, com certeza deve ser um momento muito marcante dentro da tua trajetória. Como artistas, vivemos de emoções intensas que variam entre a depressão e a glória. Essa montanha russa emocional inevitavelmente nos deixa lembranças muito marcantes. 

Pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória profissional, que tenha te emocionado além do "normal"? 

ALTAIR – Com certeza, foi “anormal” ter sido patrono por duas vezes da feira da minha cidade. Mas ficaremos constrangidos agora: foi anormal a fala que tivemos, no ano passado, quando nos conhecemos durante a feira, quando conversaste comigo sobre “A parede no escuro”. Não pareceu, mas se tratou de uma coisa rara na minha vida: uma pessoa leu um livro meu (e leu mesmo) e veio conversar sobre o livro. É muito especial e singular isso, por mais absurdo que possa parecer.  

DC – Continuando a falar em emoção: Do ponto de vista do leitor, qual tipo de obra que mais te emociona? Qual é o primeiro setor que você visita em uma livraria? 

ALTAIR – Leio de modo disperso, então costumo deambular pelas livrarias. Costumo ler mais de um livro por vez, mas prefiro me concentrar em um só, o que ocorre geralmente nas férias. Quando consigo me submeter a um só livro, sou lento, porque gosto de ler as respirações dos vãos, dos entremeios. Por isso aprecio texto com linguagem (poesia sobretudo), com coragem, como se diz por aqui, textos que "metem a cara". Prefiro o que vaza ao que não faz peso. 

 

DC – Essa é uma das minhas perguntas favoritas: 

Tens algum “ritual” que execute quando vai se concentrar para escrever? Como é a tua rotina de criação? 

Você gosta mais do silêncio, ou não precisa de um ambiente ou atmosfera especificamente pensados para o ato criativo? Prefere o isolamento ou consegue trabalhar em qualquer lugar? Como se manter produtivo e não deixar a inspiração esmorecer? 

ALTAIR – Gosto do silêncio, sim, mas não preciso de um lugar especial. Mas gosto de pesquisa, também. Costumo dizer que sou um coletor de sucatas. Observo tudo de modo literário e vou aproveitando falas, cenas, rostos. Quando se estrutura uma ideia, vem a parte mais gostosa, que é raciocinar o texto. Sem pesquisa (a mínima que seja), creio que desistiria só em pensar nos dois ou três leitores que chegarão até o livro. Penso bastante nas necessidades do projeto e vou atrás de cada coisa de que preciso: viagens, objetos, leituras... Escrevo pouco (à mão) e muito, assim: penso quase integralmente no que estou escrevendo, anotando o que posso. Mas escrever, escrever mesmo, é só quando estou com o tanque cheio. É um verdadeiro trabalho de campo.  

DC – Esse com certeza é um dos momentos mais confusos que o setor cultural já enfrentou. 

Além dessa tentativa constante de desvalorização e censura, precisamos enfrentar todas as dificuldades de uma Pandemia. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, dificultou nossas atividades. Estamos sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma. 

Conta para nós como você está vendo esse momento pandêmico dentro do teu segmento. Como está funcionando o processo de adaptação dentro dos teus projetos e rotinas? Qual está sendo a principal dificuldade encontrada e quais pontos estão mais te surpreendendo positivamente? 

ALTAIR – Ando triste com pensar nos artistas, os mais atingidos, como os do teatro. Entram ainda na roda impostos sobre os livros, livreiros fechando as poucas livrarias, e a vitória da ignorância: cor de pele, propriedade, ódio aos desfavorecidos e religiões egoístas (vejam só). Que Brasil podre nós sempre fomos e agora estamos nos mostrando. Que país feio foi elevado ao poder. Nunca imaginei que Cristo andaria armado! Então, escrevo sobre esse fracasso humano aí, mostrando que vivemos para trocar de telefone ou de carro, pra espalhar nosso plástico e pra preencher o esgoto das redes sociais com comidas, bebidas e ódio ao alheio, numa festa do vazio que rola enquanto a fome cresce e algum animal fica extinto. Muito triste. Muito triste. Muito triste. Por isso tenho a profissão mais importante neste momento. Sou professor.  

DC – Ainda aproveitando um pouco mais a temática da Pandemia, na tua opinião qual é o papel da Arte nesse momento? 

ALTAIR – Denunciar, de onde estivermos, que a escuridão favorece os de dentes pontudos.  

DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade? 

ALTAIR – Temos que mostrar a tragédia, e não o riso. O mundo precisa de um basta. Se a pandemia mostrou que o trabalhador é quem move o mundo, as coisas precisam (e não acredito que serão) ser equiparadas. Não vejo justiça num mundo que não coíbe que alguns ganhem demais enquanto a maioria não ganhe nem o suficiente. E se não somos mágicos é porque somos mesmo cretinos. 

DC – Uma boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação, através da LEI ALDIR BLANC, de repasses especificamente voltados para o setor cultural. 

Esse dinheiro virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade. 

Como você vê a importância dessa lei nesse momento e qual é a tua expectativa atual com relação a isso? 

ALTAIR – Não creio, sinceramente, que ela será efetivada. Não temos sequer Ministério da Cultura. Sei que coisa está andando (e suspiro com isso)Mas temo o imponderável e por isso aposto que a medida sofrerá sanções bem na hora H. Sinto ser pessimista. Não há muitas boas notícias para a área neste estande de tiro. 

DC – O meu maior sonho nesse momento é que esses recursos que estão por chegar possam de alguma forma deixar um legado. Sirva efetivamente como um impulso para nossos projetos.  

Quais sonhos você alimenta para o seu futuro profissional? 

ALTAIR – Me manter lecionando e escrevendo. Gostaria de conquistar um leitor aqui e ali, de encenar a peça interrompida e de inserir mais gente desfavorecida na universidade. Foi nesse sentido último que criamos, em 2019, um projeto, o Jovem Montagne, na PUCRS. É um pré-vestibular para comunidades vulneráveis, visando às universidades públicas. A pandemia nos impediu este ano. Quero muito retomar isso aí. E é só isso mesmo.  

DC – Quando você começou a trilhar esse caminho, imaginava que poderia chegar nesse lugar de destaque?  Esse era o plano A? 

ALTAIR – Continuo no começo do caminho, tentando arrebanhar um leitor e outro. Tenho meu plano de sempre: escrever e lecionar da melhor maneira que posso, que é estudando e estudando, mentindo apenas ficcionalmente e cuidando pra não ser filho da puta com ninguém. Simples assim.  

DC – Você acredita que tem uma missão para cumprir? Que legado você gostaria de deixar a partir do teu fazer cultural? 

ALTAIR – Uma das minhas missões é pagar as contas. A outra é influenciar meus filhos a não serem malvados com os outros, com a natureza, com o que nos é comum. Legado? Sim, que meus alunos e meus filhos recordem sempre que o mundo não é pra ser sugado, mas compartilhado com respeito. Já disse várias vezes e ainda não mudei este pensamento: prefiro morrer como trouxa que como o esperto. Prefiro ser o que perdeu e não aquele que acha que está ganhando alguma coisa. Só o fiasco é convicto. 

 

Foto: Luís Carrard

 

DC – Outra pergunta que eu me amarro: 

Tem algum personagem que você gostaria de ser ou interpretar? 

Eu me vejo, como já falei anteriormente aqui no Drone Cultural, meio Don Quixote.  

Quem você é na Literatura? 

ALTAIR – Sou a Cadela Baleia. 

DC – Tem aquele meme de internet que brinca dizendo que o roteirista que está escrevendo o ano de 2020 vem pegando muito pesado em seu enredo. 

Seguindo nessa linha de raciocínio, vou te propor uma brincadeira: 

Digamos que tudo que você vive é, assim como na jornada de qualquer personagem fictício, escrito por alguém. 

Qual autor(a) você gostaria que estivesse nesse momento escrevendo a tua história? 

Quem seria capaz de compor um universo que tivesse lógica para ti? Por quê? 

ALTAIR – Se eu sou a Baleia, seria uma honra ser escrito pelo Graciliano Ramos e me ver enroscado pelos espinhos de um mundo cru. Eu sairia com a minha língua sedenta numa estrada que não tem purpurina. Falaria quase nada. Das poucas certezas, eu teria a de que o mundo é mesmo coberto de penas e que meu paraíso é uma primavera cheia de preás. 

DC - Qual tipo de livro ou peça teatral você gostaria de escrever? Nos teus sonhos mais malucos, por onde tua imaginação viaja? 

ALTAIR – Eu tentei e tentei e ainda estou tentando escrever uns contos que ironizem a burrice geral que estamos vivendo: seriam contos de um Brasil onde não houve escravidão, por exemplo. Nesses contos, os homens brancos nunca mandaram e o revólver equivale à fala. Quando maior o revólver, maior o argumento. Tá difícil escrever isso.  

DC – Como você enxerga o cenário cultural da cidade de Guaíba? Como gostaria de ver nos próximos anos? 

ALTAIR – Guaíba tem muito talento, em todas as áreas. Guaíba é uma espécie de Uruguai: somos poucos (uns 100 mil), mas estamos provando força em todos os lugares. Me impressiona isso. Já me perguntaram se é o rio, o ar, o que comemos... Não sei. Somos criativos e competentes. Falta muita gente ver isso ainda – e é isso que eu gostaria que acontecesse. Vamos tocar isso aí: fomentar as artes. Podemos até gerar uns bons cobres para agradar os donos do poder. 

DC – Para quem tem vontade de seguir esse caminho, que conselho você pode dar? 

ALTAIR – Penso que é preciso sempre conhecer a história do mundo onde se vive (meu país, as questões do meu tempo, da minha cultura). Também é preciso adquirir repertório, porque quem escreve se insere no mundo da cultura, e então deve usufruir dessas questões com responsabilidade e respeito. Outro universo de investimento é a linguagem. Tal como um pianista, temos, como escritores, que estudar nossa técnica, que é a palavra. 

 

DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir? 

ALTAIR – Ler o “Avesso da pele”, de Jéferson Tenório, e “Setenta”, de Henrique Schneider. Ver os filmes “O Farol” e “Lazzaro Felice”. 

DC – Uma última pergunta: O que é sucesso? 

ALTAIR – Sucesso é assim: comprei 4 mudas de couve a R$0,25 cada. Isso foi em setembro do ano passado. Colhi couve sem parar (tive de dar molhos para os amigos). 2 pés morreram, mas os outros continuam viçosos. Vou repor mais dois (vi que estão a R$ 0,30 agora. Pra ver como houve inflação). Não consigo calcular o lucro, porque só me interessa ver as folhas lindas que não param de vir e que também servem de alimento a futuras borboletas 

DC – Estamos encerrando a nossa conversa. 

Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo. Foi um prazer e uma honra conhecer um pouco mais sobre você. 

Já falei outras vezes, inclusive para ti, que saber que daqui de Guaíba saiu alguém tão brilhante como você me motivou a ousar voos mais audaciosos. Me deu confiança para sonhar.  

A representatividade é combustível de avião e, de certa forma, aumenta a nossa responsabilidade. 

Essa entrevista aqui só está acontecendo porque lá no passado, ao ler o teu magnifico livro A Parede no escuro, eu sonhei. Sonhei e decidi correr atrás. 

Aqui também vale citar a importância da nossa querida Biblioteca Pública Darcy Azambuja que fez a ponte entre a tua obra e a minha sensibilidade. 

Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade. 

Pensado exclusivamente para dar ainda mais visibilidade aos nossos colegas ao mesmo tempo em que pretende aproximá-los de nossa comunidade local. 

Gostaria que você deixasse uma mensagem para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos. 

Aproveita também que é ano eleitoral e manda um recado aos pré-candidatos que nesse momento já estão bem assanhados se preparando para o pleito. Vários deles, inclusive, estão sempre por aqui e, com esse nosso canal de conversa, podemos juntos pensar e construir uma cidade melhor. 

Fique à vontade, Altair. O espaço é seu. 

ALTAIR – Bem, não quero aconselhar ninguém. Quero apenas repartir 10 dúvidas:  

  1. Vale a penatanta tecnologia se a praia agora está cheia de garrafas pet?  
  2. Um automóvel precisa mesmo ser mais rápido que uma ambulância? 
  3. Depois do estrondo de um tiro vemo silêncioou vem outro tiro 
  4. Será que só a Medicina tem futuro? 

4.1. Se só a Medicina tem futuro, então vivemos num mundo doente?  

  1. Por que é que o teu telefone celular não é mais telefone?
  2. Seu Cosme, que limpa o banheiro da rodoviária de Porto Alegre, merece ganhar menos que eu? 

6.1. Doutor Fulano de Tal merece mesmo ganhar mais que tu?  

  1. Tem sentido comprar um cachorro?
  2. Depois da pandemiaserá possívelmanter a mesma distância de antes da pandemia? 
  3. Todos sabemque, quando as aves cantam, não estão vendendo nada 
  4. Quem é o dono do rio? 

10.1. Então por que ele não limpa o pátio?  

_____________________ 

De perder o fôlego, né? 

Ler as obras do Altair é ver tudo isso que está dito por ele aí nessa entrevista. 

Sem tirar nem por. Um soco no estômago e uma explosão de percepção de possibilidades. 

Ninguém passa imune ao texto do Altair.  

Você vai amá-lo ou odiá-lo, mas não pode deixar de conhecer essa força de nossa terra. 

Assim como não pode deixar de conhecer a trajetória de outros tantos batalhadores que dividem as calçadas da São José conosco nesse vai e vem frenético durante o sobe e desce em busca do que nos faz falta.  

Fica por aqui.  

Está sendo um prazer descobrir esse monte de histórias legais ao lado de vocês. 

Quem será na próxima semana? 

Nem eu sei. 

Só sei que vai ser lindo.  

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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