Pedro
Pedro olhava os pés. Cada dedo no seu lugar, dez deles dispostos, como se fossem esculturas do seu Nelson Escultor lá da esquina. O arredondado nos cantos, as unhas cor de vidro que mostravam a carne embaixo e aquela partezinha branca da unha do dedão que parece uma lua pela metade ou menos ainda. Pedro junta os pés um contra o outro, faz força nas mãos. Os pés como uma prancha só, imitando posição de borboleta. O pai de Pedro nota a curiosidade do filho, deixa de ler o jornal e olha para ele. Pedro sentado no tapete da sala. Sentado no tapete da sala como algum filhote abandonado. Ele parece adivinhar que o pai se distraiu do jornal e, sem tirar os olhos dos pés, pergunta:
Pai, quem afia a ponta dos pés?
O pai mira os sapatos escuros. Pensa no engraxate da Praça. Não chega a comentar.
Paula e Dora
As irmãs olham o rio. A ilha lá no meio, como se a cidade fosse um bolo e a ilha só uma fatia dele. Paula é a mais nova, quer ser como Dora, que já tem doze, já vai em festa na casa de colega, já beijou o Tiago da sétima série até. Paula quer ser como Dora, mas quer ser um monte de outras coisas. Desde que aprendeu a ler, e aprendeu a ler uns poemas bem curtinhos, mas que fazem cócegas na barriga e ficam pipocando um tanto de tempo na cabeça, ganhou uns ares de poeta juvenil. Dora presta atenção no movimento do calçadão. Paula olha a ilha que sempre quis visitar e finalmente conseguiu esses dias. Sempre ouviu falar que tinha gente morando lá, que no presídio abandonado tinham fantasmas dos presos. Era tudo mentira, tudo o que sentiu quando lá esteve foram cócegas na barriga de tanto contentamento. Paula olha para a ilha, olha para a irmã e pergunta:
Dora, como é beijar? É tipo ganhar cócegas invisíveis na barriga como quando se visita a ilha pela primeira vez?
Dora suspira alto e olha de lado para Paula. Como adulto que faz que sabe o que não sabe.
Mariana
Sempre que chove, Mariana tem vontade de chorar. A chuva não machuca, a chuva se desmancha no vidro, no chão, no teto do carro que o avô esquece de guardar na garagem. Mariana tem vontade de chorar, quando chove, por causa do avô. Desde que a avó morreu, as bochechas em dobras do avô, o cabelo de algodão doce de coco do avô, os olhos encantados do avô perderam um pouco da cor. A avó morreu num dia de chuva. E sempre que chove, Mariana tem certeza que o avô quer chorar. Ela chora por ele. O avô não deixa escorrer lágrima. Chora pra dentro, será? Toda vez que chove, Mariana fica pensando, pensando, até encontrar um jeito de voltar a fazer o avô sorrir. Dessa vez, ela mesmo concorda que pensou muito bem, sempre se lembrará como uma das melhores vezes. Mariana se aproxima dele, espalha os braços curtos num abraço ao avô e pergunta:
Vô, quando nosso olho está triste e brilhante, é por que chovemos pra dentro?
Ao escutá-la, o avô sorri. As janelas choram copiosamente.
Comentários: