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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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Juventude

Uma intuição de que ali, ao lado dos amigos, era um pouco eterno

Juventude
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Não foi exatamente pela forma como aquela chuva caía despreocupada numa tarde de outono do começo do século, tampouco o fato de estar protegido no calor do quarto do sítio, era algo que tinha mais a ver com a companhia dos amigos, o playstation no qual despejavam as horas em partidas de winnig eleven, as piadas que alternavam o alvo cômico entre eles e provavelmente versavam sobre a paixão por alguma garota nas festas do Itapuí, nos corredores da escola, nas tardes em que a chuva dava uma trégua e o futebol deixava o videogame e era jogado de verdade na terra clara da quadra do Beco.

Não era a chuva, a chuva era apenas a desculpa climática para estarem ali. Tampouco o videogame, o videogame era um passatempo para que não precisassem elaborar verbalmente que a razão verdadeira para o encontro era uma vontade de partilharem o tempo juntos, dividirem essa idade curiosa que transita entre os quatorze e os vinte, esse núcleo de juventude insondável que impõe, quase como uma enfermidade temporal, uma urgência inexplicável a cada ato ao mesmo tempo em que amplifica a tendência natural do ser humano em lançar as luzes da eternidade sobre si.

Era mais ou menos isso, uma intuição de que ali, ao lado dos amigos, era um pouco eterno, e a chuva que caía lá fora e borrava o céu num cinza que não denunciava as cores do dia ou da noite, mas um meio termo indecifrável, parente de algum infinito, tomava como cúmplice essa sensação, especialmente porque agora ganhava consciência de que vivia num raro território, estes momentos que em nos damos conta de que estamos sendo realmente felizes e que, pela vontade de aproveitá-los ao máximos, sofremos sua natureza finita de forma antecipada, projetando para o futuro uma espécie de porta retrato mental onde estará emoldurada esta tarde, estes amigos, esta cena em que a felicidade era algo palpável, intenso, o mais próximo possível do que chamamos de real.

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Olhou em volta, regressou de súbito para o agora que vivia, ouviu alguém relembrando a noite em que deixaram o sítio de táxi e levemente embriagados, romperam juntos os portões da festa no clube como uma equipe que ingressa num gramado de estádio lotado em final de campeonato e, após uma cerveja compartilhada próximo ao bar, partiram para suas aventuras individuais – ainda que protegidos pela promessa do reencontro inevitável de depois da festa, quando fariam a resenha definitiva da noite e resolveriam a equação de que, somando e subtraindo vitórias e derrotas amorosas, aquela havia sido a grande festa de suas vidas –, ouviu alguém lembrando dessa noite e concluindo da única forma que poderia ser concluída essa lembrança: “aquela noite foi muito afudê”.

Um silêncio inevitável tomou conta do quarto, ouvia-se apenas um rumor artificial de torcida que chegava desde o televisor. De alguma maneira, soube que a juventude de todos eles começava a encostar em seus estertores a partir daquele momento, quando o passado alçava voos maiores do que o presente que se vivia. Pensou sobre isso. Calou sobre isso. Como todos calaram. Entendeu que o tempo era de aproveitar ao máximo aquele instante de eternidade, antes que a juventude cumprisse sua jornada completa e esses encontros virassem uma lembrança distante, opaca, dessas memórias evocadas quando perdemos o olhar numa tarde chuvosa de outono que a janela emoldura.  

 

Foto: Cori Rodriguez/pexels.com

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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