Na era pré-COVID, nossa sociedade vinha num crescente culto à perfeição, com redes sociais repletas de falsas alegrias e filtros os mais diversos na busca de esconder nossas humanidades. Em ampla medida segue assim. Nesse mundo de “good vibes only”, o que fazemos com as outras “vibes”, com as tristezas, as angústias, as raivas que sentimos? Não estou propondo que a gente abra mão de intimidade, privacidade e passe a escancarar nossas entranhas publicamente. Desejo propor refletir o quanto tudo isso provoca, muitas vezes, sensação de inadequação, uma vez que o sentimento privado não encontra eco no que os outros postam e supostamente vivem.
Essa proibição do sofrimento vem se apropriando mesmo daquelas ocasiões onde ele sempre foi mais legítimo, no luto por exemplo. Luto é um processo de elaboração da perda de alguém com quem a gente tenha um vínculo significativo, seja concretamente por morte ou outra razão. É a reconstrução da própria existência a partir da ausência de alguém, onde aquela pessoa não ocupa mais um espaço concreto no nosso cotidiano, mas se constrói pra ela um espaço simbólico dentro da gente.
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Não há como percorrer esse caminho sem dor, mas não tem sido infrequente que me solicitem medicar alguém em situação aguda de perda, como se toda a tristeza fosse doença ou algo a ser combatido. Qual o sentido de anestesiar alguém num momento como esse e lhe sequestrar da vivência dos ritos fúnebres, que são os primeiros alicerces desta construção chamada luto? E quando a consciência for retomada e essa despedida concreta não for mais possível? Adiar a dor não nos poupa de vivê-la, muitas vezes ainda mais intensamente. Precisamos nos conectar com a morte como parte da vida, ela virá para todos. Precisamos reconhecer e legitimar nossos sentimentos, todos eles nos compõem humanos.
Dificilmente outro momento da contemporaneidade nos dê igual oportunidade de um contato tão próximo com a morte de forma tão intensa e coletiva, como a vivência desse estranho tempo de pandemia. Muitos de nós tentamos nos proteger ou fugir dessa experiência, transformando tragédias em estatísticas; vidas perdidas, em números e buscando desqualificar os danos reais em diminutivos. Nada disso fará mais saudável o processo. Sai melhor de um luto não quem mais se poupa, se afasta, se anestesia; mas quem sente, quem deixa doer e curar, quem se reconhece humano e frágil e é capaz de, a partir dessa experiência, se reconstruir.
Existem diferentes teorias sobre o luto e uma variedade de entendimentos sobre esse processo, mas há certo consenso de que a vida que se viveu com aquela pessoa antes dela partir, é dos fatores mais significativos para um bom desfecho. Poder expressar afeto, construir perdão, fazer a pessoa saber o que significa na nossa vida, sem ter diálogos pendentes para quando eles não forem mais possíveis, provavelmente seja dos mais relevantes fatores para um luto que não nos adoeça. Estamos vivendo um necessário distanciamento físico, mas não devemos adiar a expressão dos nossos afetos “para quando tudo passar”. Não sabemos quando vai passar, nem como vai passar ou quem de nós terá ou não a possibilidade de um reencontro físico. Façamos uso dos recursos que temos para estarmos próximos, para expressarmos o que sentimos uns pelos outros, para oferecer cuidado, ainda que virtualmente. Precisamos reconhecer a realidade e viver o possível, agora.
A morte na pandemia, seja ou não da covid-19, tem sido um acontecimento muito diferente do que estamos habituados. Os rituais estão extremamente modificados mas, reconhecendo a sua importância, precisamos adapta-los para os ritos factíveis no momento. Nesse sentido, novas formas de prestar homenagens aos mortos e demonstrar sentimentos sobre a perda aos familiares tem sido propostas. Ainda que nos causem estranheza, uma vez que inéditos à nossa cultura, penso que precisamos nos abrir também a novas possibilidades de vivência para os atos fúnebres como nos projetos Inumeráveis e Infinito.etc.
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Quando pensamos o luto de uma forma mais ampla, perdas materiais, de fantasias, planos, sonhos, também exigem elaboração e assim sendo, estaremos todos potencialmente enlutados pela vida de antes, que não teremos de volta e pelas expectativas futuras, que veremos fatalmente frustradas. Não há como escapar de sermos afetados por esse momento. Deixar de falar de morte, não evita que ela aconteça, nem antes, nem agora. Que possamos acolher nossas dores e de algum modo encontrar no próprio peito, morada para quem fomos e estarmos então disponíveis à existência que nos couber.
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