Guaíba completou 95 anos na quinta-feira. Uma senhora longeva e cheia de histórias para contar. Mãe de uma gente que aprende desde cedo a falar mal de onde vive, mas não aceita que um forasteiro faça o mesmo. Só que ama essa cidade e a conhece até as entranhas, belas e terríveis, parece ter o direito adquirido de ofendê-la.
Vivo em Guaíba desde os meus primeiros dias. Logo depois de ter nascido no Hospital Ernesto Dornelles, do outro lado do rio, meus pais me trouxeram para o lado de cá. São mais de três décadas, portanto, construindo memórias neste território.
Há alguns anos, me dei conta desta poética do habitante que compartilho com Guaíba, que todos que aqui vivemos, na verdade, compartilhamos, fundamos e colocamos em movimento. Publico, abaixo, a primeira crônica que fiz sobre o tema, tratando justamente desses milhares de labirintos individuais que cada guaibense instaura (e que convivem) nas ruas de nossa cidade.
Guaíba Labirinto
Eu caminho por Guaíba como se Guaíba fosse um labirinto decorado. E labirinto decorado é menos labirinto. Só se perde de propósito. Eu me perco de propósito caminhando por Guaíba para reinventá-la. E eu reinvento. As ruas não são simétricas em Guaíba. As calçadas não são simétricas em Guaíba. Há carros sobre as calçadas. Há pedestres no meio da rua. Guaíba é um labirinto assimétrico. Labirinto assimétrico que eu sei de cor. E é tanta assimetria decorada, tanta desordem ajuntada, que criou um repertório próprio. E o repertório, esse assimétrico e desordenado, só existe quando eu caminho por Guaíba. E cada vez que eu caminho pelo labirinto assimétrico e decorado que é Guaíba, eu me encontro numa ficção, numa narrativa do esquecimento.
Eu desço a São José. O rio lá atrás. A rua como um córrego obediente. Deságua sempre nele. E eu chego até a Beira. A Beira lotada. E a polifonia da Beira me anuncia um dialeto que eu não entendo, mas que me faz sentir em casa. Por que eu sinto em casa?, eu sei lá! Sentir em casa basta. E as pessoas de costas para o rio. E eu penso Olhem o rio! Olhem o rio!, e as pessoas de costas para o rio, e eu penso, e meu pensamento grita, Olhem o rio! Olhem o rio!, e as pessoas olham a academia e as pessoas olham o supermercado que ocupa uma quadra inteira e as pessoas olham os edifícios como se a abstração das nuvens sempre perdesse para a concretude do tijolo. E o rio insiste em chamar as pessoas, o rio se joga contra o paredão da calçada. E as pessoas não têm tempo de atendê-lo. E o rio só cansa, porque rio também se cansa, na invenção de cansaço do vento. Já quando madrugada.
Eu caminho pela Beira e as vozes pela Beira me contam sobre o sábado e sobre o domingo. E naquela costura polifônica de urdidura comezinha, uma poesia nasce sem saber que existe. As pessoas que ignoram o rio contando sobre suas vidas umas às outras, buscando algum sentido para o que viveram por esses dias, repetindo e melhorando sua rotina, pessoas-escritores, sim, elas estão fazendo ficção (e depois dizem que nos faltam poetas!). E aí reside algo belo e triste ao mesmo tempo, belo e triste porque, nessa ficção, nessa vontade de melhorarmos nossa existência, há o emprego da imaginação, essa caneta iluminada que manuscreve a memória.
Anoitece por completo em Guaíba. Eu sobrevivo a mais um dia. Guaíba minha Dublin, minha Ítaca. Eu que não sou Ulisses. Ulisses que chama meu pai. Que chamava meu avô. Então eu mesmo um pouco Ulisses. Por causa deles. Por causa de Guaíba.
E voltando pra casa, nas embalagens abandonadas pelo chão da beira, nalguma roupa perdida que jamais será reencontrada, nas marcas de pneu no asfalto, há um rastro, uma ruína, uma certeza de outros labirintos, os labirintos decorados dos outros que desconheço. Labirintos que jamais conhecerei. Mas sabê-los existentes gera algum tipo de conforto, como uma solidão menos solitária, como uma voz em idioma desconhecido, mas que nos assegura, no seu timbre precariamente humano, que alguém a verbaliza.
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