Para um entendimento geral, o vírus influenza - H5N1 é um vírus RNA da família Orthomyxoviridae e possui três diferentes tipos: A, B e C. O vírus influenza A pode infectar seres humanos, cavalos, suínos, aves e mamíferos marinhos, já que possui alta morbidade e mortalidade e é o responsável pelas pandemias registradas na história da humanidade. O vírus B infecta exclusivamente seres humanos, causa um quadro clínico menos grave que o vírus A e pode causar epidemias localizadas. Por fim, o vírus C infecta humanos e suínos, causa um quadro leve de infecção de vias aéreas superiores e não está relacionado com epidemias ou pandemias.
Em se tratando de epidemia de gripe aviária, a primeira ficou conhecida popularmente como gripe ou influenza do frango, foi registrada em Hong Kong em 1997 e acometeu os humanos. Na época, 18 pessoas foram hospitalizadas e ocorreram seis óbitos. Em fevereiro de 2003, novamente foram registrados em Hong Kong 2 casos dessa variante gripal diagnosticada em humanos, com 1 óbito em uma família que havia viajado recentemente para a China continental. Entre 2003 e 2007, mais de 20 países da Ásia, África e Europa registraram casos de gripe aviária em animais e aproximadamente 1,5 milhões de aves foram sacrificadas para a prevenção da disseminação do vírus.
A partir de 2003, as mutações virais e as infecções em humanos começaram a ocorrer com maior frequência em vários países, sendo responsável por uma elevada taxa de mortalidade. Até 10 de setembro de 2008, a Organização Mundial de Saúde (OMS) registrou 387 casos confirmados em humanos, com 245 óbitos.
As três últimas pandemias dos vírus de gripe apresentaram padrões de mortalidade por faixa etária diferentes, apesar de todas terem alta mortalidade nos primeiros 10 anos de vida. A grande diferença está na Gripe Espanhola (1918-1919), que teve um pico de mortalidade por volta dos 30 anos, abaixo da média das outras duas pandemias. Considerando a história das últimas pandemias de influenza e os dados preliminares das primeiras infecções por influenza, pode-se inferir que provavelmente as crianças serão uma das faixas etárias com maior morbidade e mortalidade no caso de uma nova pandemia humana pelo H5N1.
Diferentemente da influenza humana sazonal, a atual sepa acomete principalmente idosos, crianças menores de 3 anos e lactentes, sendo a média de idade dos casos registrados entre jovens até 18 anos - com letalidade 63% entre 10 e 18 anos e maiores de 50 anos, assim como 90% dos pacientes com até 40 anos de idade.
O que vem acontecendo nos últimos anos é algo que preocupa a comunidade científica, pois o vírus causador da gripe aviária vem circulando de maneira diferente. Afirmam os cientistas que desde meados de 2022, houveram surtos da doença em quase todos os continentes, em épocas em que ela raramente é detectada.
De maneira mais ampla, o surto de H5N1 se encaixa em um padrão que os cientistas vêm alertando há anos: a mudança climática está destruindo os ecossistemas e estimulando a propagação de doenças, colocando a vida selvagem e a saúde humana em risco.
Casos isolados recentes de H5N1 em várias espécies de animais selvagens estão aumentando o desconforto dos especialistas. O vírus surgiu em focas, leões marinhos, golfinhos, ursos pardos, raposas e furões, muitos dos quais provavelmente contraíram o vírus comendo aves infectadas. Globalmente, houve seis infecções humanas pelo H5N1, incluindo uma morte, nesta onda do vírus, nenhuma das quais foi causada por um humano transmitindo-o a outro. Mas os especialistas estão de olho no H5N1, caso o vírus continue a se adaptar a ponto de infectar facilmente os seres humanos e induzir a transmissão de pessoa para pessoa.
Em entrevista ao Gris, o Professor Jean-Pierre Vaillancourt do departamento de Ciências Clínicas na Universidade de Montreal, questionou: “Como pode um vírus estar aparecendo no meio do verão no Mar Mediterrâneo ou quando está menos 20 ou 30ºC em uma fazenda no Canadá, visto que há quase 80 países no mundo com esse problema, nunca vimos isso antes?”
Além de alterações nos ciclos migratórios, cientistas estudam que a perda da biodiversidade em certas áreas pode levar as aves a fazer ninhos e botar ovos em locais onde que há mais chance de interação com animais criados em fazendas, gerando uma contaminação inter-espécies.
Embora seja difícil de determinar e gerar afirmação sobre uma relação causal direta entre a mudança do clima e o aumento dos casos de gripe aviária, os pesquisadores estão alarmados – assim como os avicultores do mundo inteiro, já que os números de ocorrências da doença bateu recordes em 2022, aumentando o preço dos ovos e da carne de frango - proteína animalmais consumida no planeta.
Nenhum caso do H5N1, responsável pelos casos atuais, foi identificado no Brasil, entretanto já houveram registros no Peru, na Bolívia, no Equador e mais recentemente na Argentina e no Uruguai. Embora nestes dois últimos países, os animais contaminados fossem aves silvestres, o ministro brasileiro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, alertou que o Brasil está aumentando o nível de vigilância, com novas providências preventivas, sendo três casos suspeitos foram investigados no país, com testes negativos para H5N1.
Cientistas trabalham com a hipótese de que as mesmas condições responsáveis por mudar os padrões globais da gripe aviária também podem estar por trás do aumento dos casos da doença entre mamíferos – com potenciais riscos para a saúde humana.
No início de fevereiro/23, Tedros Ghebreyesus, diretor da Organização Mundial da Saúde, afirmou que o mundo deveria se preparar para uma possível pandemia de gripe aviária entre humanos, de forma que o cenário, pelo menos em tese, é parecido com o que provocou a pandemia da Covid-19: o “salto” do vírus entre espécies.
Por enquanto, OMS classifica como baixo o risco de uma nova pandemia, já que não há evidências de que o próximo passo dessa “evolução inter-espécies” seja uma mutação que atinja humanos e, criticamente, possa ser transmitido entre pessoas. Entretanto, os cientistas afirmam que a extensão geográfica dos casos, especialmente no continente americano e também a possibilidade de que haja transmissão direta entre mamíferos são pontos preocupantes, pois vírus estão em constante mutação.
Em um cenário pessimista, quanto mais prevalente a doença, maiores os riscos de mutações perigosas,assim como a possibilidade da variante H5N1 acometer seres humanos – o que costuma acontecer no contato direto com aves infectadas, a doença tem índices altíssimos de letalidade: cerca de 50%, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças.
A cepa em circulação hoje está infectando uma variedade maior de espécies de aves que as anteriores, incluindo algumas que não migram longas distâncias, o que poderia explicar a persistência da doença em épocas inesperadas.
Quanto a nós, reles mortais, resta-nos continuar com os cuidados de higiene, como lavar as mãos, limpar compras, utensílios e materiais de uso comum, usar máscara, estar com as vacinas em dia e lembrar sempre que a saúde de cada cidadão é individual e deve ser responsável, mas caso ocorra outra pandemia, a responsabilidade é coletiva. Exemplos já tivemos, a história recente conta isso!
Referencial
- Jornal Brasileiro de Pneumologia. Disponível em: https://www.jornaldepneumologia.com.br/details/903/pt-BR/gripe-aviaria--a-ameaca-do-seculo-xxi. Acesso em 05/03/2023.
- Revista Capital Reset. Disponível em: https://www.capitalreset.com/a-crise-climatica-pode-estar-por-tras-do-surto-de-gripe-aviaria/.Acesso em 05/03/2023.
- Revista Grist. Disponível em: https://grist.org/health/as-climate-change-disrupts-ecosystems-a-new-outbreak-of-bird-flu-spreads-to-mammals/. Acesso em 05/03/2023.
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