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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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O idioma perverso da pandemia

Os timbres de nossos verbos mais hediondos

O idioma perverso da pandemia
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As perversidades do discurso. O idioma que perpetua o que de mais belo podemos criar em palavras, poemas, prosas, canções, declarações de amor, também dá voz aos nossos verbos mais hediondos. E nessa seara, temos aprendido uma estética de banalização da morte como alunos dedicados. Vamos deformando essa palavra até que ela comece a perder a própria cor, a própria gravidade. Morte sobre morte sobre morte sobre morte. Deixamos o idioma, avançamos para a matemática, transformamos essas mortes em números. Muitas vezes sem RG, sem CPF. Sem pai, mãe, filho, tio, avô. Um número analfabeto de si. Vazio do significado inteiro, único, humano que abrigava.  

Basta ler os textos oficiais em facebooks, instagrans, tuíteres: criamos balanças digitais que pesam a importância do luto alheio. Morreu, mas era diabético. Morreu, mas tinha problemas renais. Morreu, mas era asmático. Morreu, mas era velho. Assim nossas palavras vão aos poucos matando a própria vida. A pandemia ensina que, aos portadores dessas chagas crônicas, a existência deixou de ser um artigo relevante. 

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Pois eu tenho um segredo para contar. O "morreu de covid, mas tinha problemas de saúde" é um parente próximo do também horrendo "a vítima tinha antecedentes criminais". Equacionamos a vida com fórmulas de morte. Uma necroestética do discurso. Um código articulado por alguns para nos convencerem de que há vidas que valem a pena, e outras que não.  

Há alguns dias chegamos aos cinquenta mil mortos em todo o país. Por enquanto. A contagem segue sua marcha progressiva. Cinquenta mil mortos. A metade da população de Guaíba. Pensa numa metade morta do teu corpo. Como se todos os guaibenses tivessem uma metade morta de si. Tu vagando por aí com metade de ti inerte, carcomido, desbotado em si mesmo, sendo esquecido ao meio por ti e pelos teus, uma metade de ti sepultada para sempre.

Pensa na turma do teu futebol de quarta-feira. Olha para o outro lado da quadra: um time de defuntos aquecendo, iludidos de que ainda podem jogar contra o teu time de ainda vivos. Entra no mercado onde tu faz teu rancho semanal. Olha para os caixas. Metade deles mortos passando tuas compras pelo leitor do código de barras. Uma presença fúnebre rondando a metade de tudo o que tocamos, cheiramos, olhamos, ouvimos pela cidade.

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Cinquenta mil brasileiros mortos. Uma chacina compartilhada por muitos de nós. Nós que continuamos com as churrascadas e cervejadas junto de pessoas com quem não moramos. Nós que praticamos o futebol clandestino na quadra de soceity. Nós que ignoramos o uso da máscara. Que, por displicência, usamos a máscara de forma equivocada. Nós que defendemos a abertura econômica mesmo que a cidade não tenha ao menos uma UTI gratuita para ofertar aos seus doentes. Nós que entramos na justiça para liberar o comércio, mas não entramos na justiça para abrir um hospital. Cinquenta mil brasileiros mortos. Metade da população de Guaíba. Por enquanto.  

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Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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