Na coluna de hoje vamos conversar com a orientadora Cláudia Figueiró Souza sobre o papel e a importância da orientação escolar.
Cláudia é orientadora Educacional, psicopedagoga, especialista em Atendimento Educacional Especializado e mestranda em Educação pela UERGS. Tem ampla experiência na área de Educação, com ênfase em rotinas pedagógicas, formação continuada, orientação vocacional, docência, tutoria e acompanhamento psicopedagógico, atuando principalmente nas seguintes áreas: educação inclusiva, educação de jovens e adultos, ensino fundamental, educação infantil, capacitação docente, diagnóstico psicopedagógico.
Carmen - O que é um Orientador Educacional e qual a formação necessária para atuar?
Cláudia - Eu costumo dizer que o orientador educacional é um especialista em articulação pedagógica. Ele analisa a situação da aprendizagem e seus elementos – professor, aluno, turma, metodologia, conteúdo – e a partir daí sugere adaptações / mudanças que facilitem o relacionamento e, consequentemente, a construção do conhecimento. É um profissional habilitado em Pedagogia com Especialização em Orientação Educacional, o que lhe qualifica para elaborar pareceres e diagnósticos de aprendizagem e das dificuldades resultantes deste processo.
Exerce uma função reconhecida por leis federais (Lei nº 5.564/1968 e Decreto nº 72.846 de 1973).
Carmen - Qual o papel do Orientador Educacional dentro da instituição escolar?
Cláudia - Se pudéssemos resumir numa única palavra, ela poderia ser EQUILIBRAÇÃO. Conhecer intimamente a instituição, seus profissionais, sua comunidade, seus alunos e, a partir desse mapeamento, promover o equilíbrio entre educadores e educando, escola e pais, aprendizagem e metodologias, professor e professores, aluno e turma, conteúdo e ludicidade, limites e liberdade, direitos e deveres. A harmonia do ambiente escolar é essencial para a qualidade da educação. Além disso, o orientador também acompanha as frequências, o rendimento (em grupo e individual), realiza formações e treinamentos, oferece orientação vocacional, aconselhamento e constrói projetos de acordo com as necessidades observadas.
Carmen - Quais os maiores desafios deste setor, atualmente?
Cláudia - Além de todas as dificuldades pertinentes à educação pública, eu citaria três desafios principais:
- A falta de profissionais qualificados, pois desde a mudança promovida na graduação de Pedagogia em 2006 a formação se dá apenas através de cursos de pós-graduação, sendo a maioria em EAD, sem estágios ou com práticas reduzidas, além de reunirem duas ou três capacitações num único curso. Exemplo: pós de 360h com habilitação em Supervisão Escolar, Educação Inclusiva e Orientação Educacional. Na minha opinião (e na da AOERGS, nossa entidade de classe) esse tipo de curso não forma para nada – apenas oferece um diploma.
- A falta de concurso nas redes públicas.
- A falta de reconhecimento da importância de um orientador educacional para o quadro de recursos humanos da escola.
Carmen - Quais as tuas impressões para o futuro da educação brasileira, no cenário pós-pandemia?
Cláudia - Sinto que um vácuo foi criado. Não somos mais os mesmos após a pandemia. A escola precisa urgentemente de um novo olhar, novos horizontes. As estratégias que haviam funcionado, mesmo que de maneira restrita, anteriormente, não funcionam mais.
O aluno da classe média e alta descobriu que pode aprender sem estar na escola, que pode otimizar seu tempo. O aluno da classe baixa descobriu que sua “ausência” física na escola não causa tantos problemas ... que pode fazer um “trabalhinho” compensatório... que ficar em casa facilita sua acomodação e os ajustes familiares: cesta básica da escola, cuidado com irmãos menores, baixa interação.
Aquilo que vínhamos repetindo desde o ano 2000 – atualizem-se, usem recursos diferentes em aula, estimulem os alunos a pensar – acabou se cumprindo meio que por obrigação e a maioria dos professores não estava preparado para perder o “comando” da sala de aula. O último guardião comportamental escolar – a reprovação – agora não depende mais unicamente do professor: é necessário considerar a pandemia, a situação psicoemocional do aluno, readaptar diversas vezes a metodologia e pensar 1001 vezes antes de colocar uma nota ou conceito inferior.
“Os pais podem reclamar”. “Podem procurar a mantenedora”. “Podemos ter que rever as avaliações e ter grandes problemas.” Então, acabamos nos resignando a um ensino medíocre, que não desacomoda o aluno e ainda contribui para uma geração com total falta de ambição e/ou perspectiva. Não sabem pensar (porque cansa e é difícil), não sabem argumentar ou questionar a realidade, não sabem votar e nem se interessam por política, transformam em ídolos e representantes máximos criaturas que desconhecem o significado da palavra “cultura”.
O que esperar? Sinceramente, penso que apenas uma reformulação poderia nos auxiliar. Chega de horas/dias contados em calendário. Eu preciso trabalhar para que meu aluno aprenda. Chega de BNCC com conteúdos desnecessários. Precisamos desenvolver as competências e habilidades básicas para o dia-a-dia, antes de pensar em estudar o “relevo da Europa”. Meu aluno tem que aprender a calcular, a escrever, a interpretar, a cuidar da saúde, a amar a si mesmo e ao próximo, a proteger as crianças e a natureza, a ser criativo... enfim.
Carmen – A Coluna “Educação e Reflexão” agradece imensamente a atenção e a generosidade de dividir conosco suas reflexões.
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