Babel
O ano era 2017, eu e Vivian fomos à Paraty e acompanhamos a Feira Literária de lá. Na volta, aproveitamos o último dia em solo carioca para ir ao Cristo Redentor, inevitável e maravilhoso clichê. O dia era lindo, muito sol e poucas nuvens. Subimos o morro até os pés da estátua.
Ao nosso redor, dezenas de pessoas e suas dezenas de celulares disputando um espaço particular, um ângulo no qual os companheiros desconhecidos não aparecessem nas fotos. A gente fazendo a mesma coisa.
Tiramos nossas fotografias, nos encostamos no parapeito e derramamos o olhar sobre aquele mar imenso, as pequenas ilhas fincadas próximas à costa, essas belezas que se tatuam na nossa mente, inventam um território próprio pra nos habitarem para sempre.
Foi aí que comecei a prestar atenção nas conversas ao redor. Na verdade, me dei conta do quanto não entendia as conversas que aconteciam em nosso entorno. Alguns idiomas cheios de consoantes, outros de fonemas curtos e enfáticos, outros ainda carregados de musicalidade, como se convidassem a palavra para dançar.
E assim o poema nasceu, ele que ainda não foi terminado, ele que talvez vire um samba, não sei exatamente, o que sei é que nasceu naquele momento e que ainda vive inacabado em mim: “Ouço sons que não entendo / Desconheço os idiomas / Mas ainda me comove / Porque sei que ali percorre / O timbre da voz humana”.
Um sonho para quando?
A Vivian termina de se arrumar no espelho da sala. Estou nas últimas linhas de um poema que encerra o livro. Vivemos aquela prece, aquele ritual silencioso que envolve o tempo imediatamente anterior a alguma vivência que nos trará imensa alegria. Logo depois deixamos o apartamento, descemos a São José e caminhamos até a Beira.
O sol está em nossas costas, desabando do outro lado da cidade, ainda iluminando o céu de cores que vão do azul ao lilás, do lilás ao rosa, numa dança cromática que acaba se despejando na superfície do Guaíba e tingindo suas águas normalmente escuras de um laranja opaco.
Caminhamos de mãos dadas, aparentemente até impondo certa lentidão no passo, nada combinado, mas parece que é isso mesmo, imprimimos uma cadência mais vagarosa para aproveitarmos bem cada segundo que estamos vivendo, para lembrarmos desse momento por muito tempo, e é por isso que só agora chegamos à João Pessoa.
Mal dobramos a esquina, já não controlamos nossos sorrisos, porque conseguimos enxergar o pessoal sentado em frente ao bar, as bocas abertas e felizes e cheias de dentes, ouvimos as conversas exaltadas, os choques entre os copos dos tantos brindes adiados, os abraços excessivos que guardamos todos esses meses em nossos braços, nos integramos nessa arqueologia da amizade que o reencontro representa, como se acessássemos as escavações de todos os nossos afetos, reaprendendo o idioma dos gestos, dos olhares e das comunhões que tanto nos lembram sobre quem somos, que tantos nos dizem sobre quem queremos ser.
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