Voltávamos da escola depois da aula de Educação Física do professor Irineu. Caminhava ao lado do Ezio e do Fábio em alguma sexta-feira da segunda metade dos anos 1990. Guaíba tinha menos prédios, menos gente, menos academias, farmácias e templos religiosos. Não sei se era melhor ou pior do que é hoje. Nos dias mais úmidos, o cheiro de enxofre já nos alcançava as narinas em qualquer lugar da cidade. E o rio já era escuro da sujeira que despejamos nele. Mas tínhamos uma longa adolescência por cumprir. E cumpríamos.
Voltávamos da escola e íamos a caminho da casa do Ezio. Jogar pingue-pongue. Nos fundos da casa, havia a mesa de pingue-pongue. E durante alguns meses essa foi uma diversão constante: o nosso tempo livre era dedicado ao pingue-pongue. Raquetadas e mais raquetadas na bolinha branca. As tardes voando em meio às partidas. Sets de quinze pontos, se não me engano. Havia inclusive alguma formalidade: a certa altura, diante de uma quantidade determinada de pontos, trocávamos de lado, qual tenistas de grand slam, uma espécie de mini Wimbledon instalado no Engenho. Quando jovens, acho que conseguimos associar melhor numa mesma atividade as palavras diversão e simplicidade.
Mas, nessa situação que narro, eu, Fabio e Ezio caminhamos lado a lado, a casa, a garagem, o pingue-pongue ainda eram apenas os nossos destinos. Íamos ali pela Santa Catarina, rumando na contramão dos carros, fazendo a curva nas margens do matagal, subindo aquela quase lomba que a via possui em seu início, chutando pedras pequenas e pisando nossos tênis juvenis propositalmente em poças que restavam do temporal da semana. O céu ainda era cinza e imenso de nuvens. Chutávamos pedras e pisávamos poças talvez pra aplacar esse tamanho todo de céu, de vida, de mundo.
Trocamos algumas palavras no trajeto. A pauta da conversa devia girar em torno de futebol, gurias, festa no Itapuí, notas azuis e vermelhas, professores chatos, professores legais e todo o universo tedioso e autocêntrico que a adolescência funda e movimenta. Algo próximo de uma ladainha, já que importava menos o que dizíamos, mais o fato de dizermos, de trocarmos palavras, de estarmos juntos em meio a esse pântano de incertezas e inseguranças que é a adolescência. E guris nos anos noventa não saberiam dizer isso de forma declarada, agradecerem uns aos outros pela amizade que cultivavam. Dizíamos assim, andando juntos, jogando pingue-pongue, comungando e comunicando nesses códigos tortos nossas admirações mútuas.
Quando dobramos a esquina e ingressamos na avenida onde ficava a casa dos pais do Ezio, um caminhão imenso e cheio de garrafas vazias de cerveja tilintando passou em alta velocidade, atravessou com seus pneus gigantescos uma poça d’água e lançou sobre nós alguns pingos consideráveis. Eu ainda apalpava a minha roupa para calcular o quanto havia me molhado, quando notei que o Fabio e o Ezio já estavam voltados para o caminhão, que se distanciava com certa velocidade, verbalizando todas as palavras de baixo-calão que até então conheciam e fazendo gestos obscenos com as mãos.
Àquela altura eu já nem queria mais saber se estava seco ou molhado, comecei a alertar para que parassem, que era capaz do caminhoneiro voltar, que a gente ainda estava a uma certa distância da casa do Ezio, que nenhum de nós estava preparado para um confronto físico, que provavelmente tomaríamos uma surra. Eles não me ouviram e continuaram no meio da rua sua saga de impropérios.
Isso tudo deve ter ocorrido em menos de trinta segundos. Enfim, as luzes traseiras de freio e da ré do caminhão acenderam. E então trocamos um olhar que foi um misto de pânico, incredulidade e instinto de sobrevivência, e, enquanto o caminhão fazia a manobra para vir atrás de nós, corremos como se não houvesse amanhã (e não havia!), corremos com todas as nossas forças, como se estivéssemos em um dos tantos grenais que movimentavam os recreios da escola, como se dessa corrida dependesse a própria sobrevivência de nossas amizades.
O Ezio abriu o portão num puxão apressado, passamos e ele devolveu o puxão apressado para fechá-lo. Não olhamos para trás. Ingressamos na casa, confirmamos que não havia ninguém por lá, subimos as escadas e fomos até uma sala que ficava de frente para a avenida. As cortinas protegendo a janela, nos protegendo de quem olhasse para a casa desde a rua.
Alguns segundos se passaram e continuamos assim: escondidos, atentos e em silêncio. Mentalmente, todos torcendo para que nenhum caminhão aparecesse, que tudo logo se transformasse em uma piada da qual riríamos muito e que se transmutaria, no dia seguinte, numa exibição de coragem na narrativa delirante e mentirosa que faríamos aos colegas.
Havia um pêndulo dentro do relógio de parede da sala. Era o único som que se ouvia na casa. Mais nada. Nós três em silêncio, o pêndulo indicando o tempo que passava. A rua vazia e silenciosa. Até que o caminhão lentamente foi tomando forma em frente à casa. As garrafas tilintando menos, mas ainda tilintando por conta dos buracos da rua. Como uma espécie de sino que confirmasse ao motorista ser ali o seu destino. O motorista ofendido emoldurado pela janela do caminhão escancarada. Ele baixou o vidro, colocou a cabeça para fora como quem busca enxergar melhor, um caçador concentrado atrás de suas presas.
Aguardamos em silêncio, creio que prendíamos a respiração. Na verdade, o bairro inteiro deve ter ficado em silêncio naquele instante. Afora o caminhão e o pêndulo do relógio atrás de nós. E então foram alguns minutos do caminhão indo e voltando, lentamente passando em frente à casa. Lentamente desaparecendo e lentamente reaparecendo. Como um pêndulo da rua. E assim ficamos, entre o pêndulo exato do relógio e o pêndulo assimétrico do caminhão na rua.
Até que ele se foi. E sentimos, no acelerar do caminhão, que ele estava partindo em definitivo. Descemos as escadas correndo, abrimos o portão num empurrão e ainda conseguimos ver o caminhão fazendo a curva para os lados da Celupa, levando consigo todos os temores que sentimos, deixando conosco um sentimento apartado do mundo, uma derrota sem um nome claro, uma certeza de que o tempo e seus pêndulos físicos seguiriam nos rondando, ameaçando, exigindo que aproveitássemos ao máximo as partidas de pingue-pongue que ainda restavam nos estertores de nossa adolescência.
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