Sexta-feira
O final de tarde da sexta-feira carrega consigo uma poesia que nenhum outro turno de nenhum outro dia jamais alcançará. É difícil de conceituar com precisão, mas um bom começo seria situá-lo no exato oposto da melancolia brutal que nos abraça nas noites do domingo.
Quando guri, nessas noites de véspera de aula na segunda de manhã, a trilha sonora do programa Teledomingo, da RBS, que talvez nem fosse lá tão triste, me machucava demais, me instaurava uma desesperança no peito, porque era anunciadora do fim dessa espécie de utopia possível que sempre é o final de semana.
Pois o final de tarde de sexta-feira é o contrário, ele nos infla o espírito de uma comoção solar, um inventário de esperanças sequestra nossos pensamentos, as promessas todas que a noite de logo mais e as manhãs, as tardes e as noites dos próximos dois dias nos reservam estão distantes de amarras de estudos, de trabalhos, de obrigações, ingressamos no breve, necessário e periódico carnaval de nossa rotina.
As árvores do Centro
As poucas árvores do Centro impedem que a simetria artificial e utilitária dos homens comande por completo essa região da cidade. Ainda gosto de caminhar pelo Centro justamente pela presença expansiva das árvores e a lenta dança de seus galhos, cabelos ao vento debochando do tanto de concreto pouco criativo que os rodeia. Além dessa presença, gosto também porque ainda consigo olhar o céu lá no horizonte com alguma facilidade em nossas ruas centrais, algo que já não acontece em boa parte do outro lado do rio, por exemplo.
Esses dias arrancaram uma árvore aqui perto, a árvore que sempre me indicava, na sua relação com o vento, sobre o humor e a temperatura daquele dia que estávamos imersos. Não sou otimista sobre o futuro do Centro, sei que em breve já não gostarei mais de caminhar por aqui, tudo já estará muito mais vertical e imóvel. Horizontes, sei que aos poucos vamos perdendo horizontes e que teremos de buscá-los em outros lugares.
Enquanto isso não acontece, caminho pelo Centro, contemplo o balé demorado dos galhos mais altos nas árvores que ainda resistem e lembro do historiador carioca Luiz Antônio Simas, cronista sensível e "rueiro" assumido: as ruas nunca serão só passagem, a grande vocação da rua é promover o encontro.
O espólio das reuniões no mundo contemporâneo
Marco uma reunião e, antes de iniciar a reunião marcada, faço algumas fotos para divulgar em minhas redes a reunião que ainda não aconteceu como se ela já tivesse acontecido, ainda que, quando a reunião de fato acontece, pouco pouco quase nada é resolvido e tenhamos que marcar, ao final dessa primeira reunião, uma nova reunião que talvez consiga de fato resultar em algum produto útil desse nosso encontro, algo que provavelmente não acontecerá também, embora eu saiba, porque me conheço, que farei fotos idênticas no começo e uma postagem idêntica no final da próxima reunião que acabo de marcar nessa reunião que acaba de encerrar sem que tenhamos avançado um milímetro além do ponto em que estávamos quando a iniciamos, uma postagem que versará, numa linguagem ao mesmo tempo otimista e antenada, sobre como a reunião foi muito produtiva, sobre como certamente vai trazer muitos ganhos futuros para todos os envolvidos, sobre como, indubitavelmente, vem coisa boa aí.
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