Caminha pela beira do Guaíba. O asfalto como um folião cansado: ainda enfeitado por carcaças de carros-alegóricos e plumas de alguma fantasia abandonada. Quando se aproxima, consegue ver que se trata de uma espécie de sol que brilha de um amarelo forte. A manhã ainda inicia. Amanhece lentamente sobre os morros de Porto Alegre.
Segue em direção ao píer. Um homem fantasiado dorme em um dos bancos, se mexe com frequência, emite sons ininteligíveis, como quem habita algum pesadelo. Debaixo do banco, um punhado de garrafas de cerveja vazias. O homem permanece em seus pesadelos insondáveis. O rio se mexe abaixo deles, simulando, nas madeiras do píer, uma embarcação imóvel.
Pula o obstáculo de metal que já virou uma estátua em homenagem ao atraso de todas as obras em atraso da cidade. Vai até o final do píer. Mira a ilha, as rochas da ilha, os verdes da ilha. A ilha um silêncio de pedra. Olha para a cidade às costas. A cidade um silêncio de pedra.
É despertado por um barulho de corpo caindo na água. Um homem nada com desenvoltura na direção da hidroviária. Alterna braçadas de nado crawl e costas, como um parafuso humano. Olha para o banco que resguarda as garrafas vazias. O banco agora também vazio do homem que sonhava pesadelos, apenas a fantasia nua de seu folião.
São seis horas da manhã da quarta de cinzas. O ar está limpo. As pedras da ilha anunciam seu habitual silêncio. A cidade também silencia. As exceções são seu coração que bate compassado e firme no peito, como um murro intermitente sobre a porta, e o homem que nada com desenvoltura em direção à hidroviária.
Um automóvel finalmente rompe aquela paz. Acelera de forma temerária desde o Parque da Juventude. Avança pela beira, ultrapassa o píer. Ele vira o rosto para ver: o automóvel passa sobre algumas fantasias que restavam no asfalto como quem rasga uma carne de carnaval, faz a curva na direção da hidroviária, tenta realizar uma nova curva para subir a José Montaury, perde o controle, capota, voa, gira e desaba no rio.
Agora, vê dois homens nadando no rio. Um deles de forma desenvolta, o outro de forma atrapalhada, como quem busca salvar-se de si mesmo. Eles se encontram segundos depois. O homem desenvolto agarra o companheiro de água e o arrasta pouco a pouco na direção da orla enquanto o automóvel termina de afundar na água escura.
Pensa que a humanidade deve ser isso mesmo: uma ressaca contínua de festas que não queríamos terminadas, um nado constante e sem destino certo, um naufrágio inevitável e sempre à espreita, a esperança derradeira de que, quando esse naufrágio aconteça, encontremos alguém disposto a nos salvar.
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