Os sons da cidade quando é madrugada. Acalmados todos como que para não despertá-la. Não que a cidade esqueça a própria voz. Ela fala. A cidade sonâmbula. Vigia o próprio sono em rumores de sonhos e pesadelos anunciados em sua voz. O rumor impertinente da fábrica, o vagar cauteloso do rio, o trânsito ocasional de automóveis, os longos apitos de guardas noturnos, os animais domesticados que chamam pelos humanos que os abandonaram ou de quem se perderam: a voz da madrugada tem uma pele de saudade e uma textura de despedida.
Mas então a manhã chega, o sol começa a erguer a própria luz sobre os morros de Porto Alegre, tingindo as águas do rio de um laranja incendiário, como se nele ardessem os primeiros fogos do mundo. Lentamente o vestido negro que cobria os contornos da cidade é deposto, fazendo soar cada nota de seu corpo: as linhas familiares decoradas, repetidas e tão necessárias a cada café da manhã nos Bom dia, nos Dormiu bem?, nos Se alimenta direito, nos Não esquece o casaco, nos Boa aula, nos Bom trabalho, nos Eu te amo que movem a todos em direção à porta e aos clamores do mundo. A manhã, então, em seus ritos recorrentes de nascimento e de conforto, se impõe como a zelosa mãe do dia.
Quando a tarde chega, nossa intimidade com o dia já está estabelecida: dele criamos memória. É verdade que o seu futuro nos reserva acontecimentos de igual tamanho do que o recente passado, o que faz da tarde um tempo de travessia. Há a resistência ao sono maldormido após os excessos do almoço, há o falatório mais alto e abundante por conta do despertar completo do corpo, quase esquecido da própria cama, há um trânsito exaltado em todos os sentidos, em geral apressado pela urgência nos horários do estudo, do trabalho, de qualquer invenção que nos distrai a vista do relógio e da maneira perversa como seus ponteiros declaram o roubo gradual de nossa vida. A tarde, já engravidada de todas as promessas da noite e ardendo nas temperaturas mais altas que aquelas vinte e quatro horas vão experimentar, a tarde é a própria adolescência do dia.
A verdadeira liberdade do dia é experimentada quando o sol se despede, nos primeiros horários noturnos. Claro, falamos aqui dos dias ordinários, dedicados a atividades obrigatórias, que comungamos, estranhamente, chamar de “úteis”. A noite resguarda consigo o único momento do dia em que podemos escolher plenamente nossas ações, livres do ofício necessário à própria manutenção financeira (não para todos, é verdade). A noite carrega consigo os gritos definitivos do dia, seus últimos suspiros de vida. Logo a madrugada chega com seus delírios e sonhos. Cabe à noite estender-se o quanto pode, arder-se manhã e tarde num só corpo, enganar sua sucessora, invadi-la: a noite é a resistência definitiva do dia que reluta em acabar e que ainda almeja a eternidade.
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