Na coluna anterior, Papo de Bastidor, trouxe alguns termos ligados especificamente à prática teatral.
Nessa coluna, vou trazer algumas referências fundamentais para quem pensa em fazer da atuação sua profissão.
Antes de mais nada, sou obrigado a fazer um alerta:
Atores e atrizes trabalham muito. Leem muito, trabalham fortemente a parte física e mental durante sua rotina de trabalho.
Quem vê um trabalho nas telas, palcos e ruas, não imagina a carga de trabalho que há por trás de cada gesto, cada expressão do corpo, cada olhar ou entonação da voz. A perfeição só é atingida após o investimento de muito suor e neurônios.
Digo isso para que os iniciantes nessa linda arte tenham noção de que apenas o tempo e muito estudo/trabalho poderão formar um profissional com talento e bagagem o suficiente para encarar de frente, com dignidade, uma jornada tão incerta e inconstante.
Ser ator/atriz é aprender a lidar com os “nãos” e valorizar cada “sim” como a certeza de que está trilhando um caminho feito para poucos. Cada teste, cada audição, cada trabalho que não se consolida, cada momento de luz e de trevas nos forja, nos transforma.
Passando esse “alerta inicial” e pensando em facilitar a vida de quem está nessa luta, resolvi fazer essa coluna indicando algumas obras que devem fazer parte das referências do processo de construção artístico/profissional de quem quer enveredar pelos caminhos da atuação.
Os livros escolhidos enxergam a formação do ator a partir das técnicas teatrais. Essa escolha se deve ao fato de o Teatro ser a base do desenvolvimento pleno das habilidades ligadas ao processo de atuação. A partir dos fundamentos abordados nesses livros, será possível obter conhecimento suficiente para qualquer formato de atuação (Teatro, Cinema, Dança, etc).
Ao analisar a história dessa profissão tão antiga, você vai perceber que a palavra “originalidade” precisa ser reavaliada em nosso tempo. Só no Ocidente são mais de 2.500 anos de experimentações, descobertas, avanços e revisões. Será que estamos inovando em nossas práticas? As leituras que eu vou indicar podem te ajudar a responder essa e outras questões pertinentes ao trabalho com atuação.
Não vou fazer resenhas sobre cada um dos títulos pois o aprendiz deve fazer a sua própria imersão nesses conteúdos, entretanto, para facilitar a escolha dos títulos por onde começar, vou colocar as sinopses de cada um deles.
Vamos a lista:
1) A Arte de Ator – da técnica à representação

Autor: Luís Otávio Burnier
Páginas: 312
Ano de publicação: 2001
Sinopse:
Luís Otávio Burnier dedicou sua vida ao teatro. Interessou-se por mímica a partir dos 13 anos, por meio dos filmes de Marcel Marceau. Aos 18 anos, foi para Paris encontrar-se com Etienne Decroux, o pai da mímica corporal dramática, de quem se tornou discípulo e assistente. Após oito anos de aprendizado com diversos mestres das mais variadas tradições teatrais do Oriente e do Ocidente, retornou ao Brasil e criou o Lume, um centro de pesquisas da arte de ator, na Universidade Estadual de Campinas. No Lume - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais, por dez anos, Burnier e seus atores mergulharam profundamente no ''fazer'' do ator, percorrendo os caminhos do corpo e suas potencialidades expressivas e energéticas. Este livro é o registro de toda a elaboração, a sistematização e a codificação de técnicas corpóreas e vocais de representação, um verdadeiro legado para o ator de teatro. Essa herança permanece viva e em desenvolvimento no trabalho de pesquisa, ensino, criação e apresentação de espetáculos dos atores do Lume.
2) A Arte Secreta do Ator – Um dicionário de antropologia teatral

Autores: Eugenio Barba e Nicola Savarese
Tradução: Patrícia Furtado de Mendonça
Páginas: 338
Ano de publicação: 2012
Sinopse:
Um verdadeiro livro didático sobre magia prática. Educação, amizade, sedução, parentalidade, política, arte, comércio, guerra, tudo depende de um forte componente "espetacular". Este livro é uma mina de tesouro cheia de saberes surpreendentes e úteis sobre como os atores se comportam em cena, em todas as partes do mundo, ilustrado com uma profusão de fotos e desenhos igualmente surpreendentes e úteis. Mudras, minuetos, máscaras, ritual, biomecânica, dramaturgia, ritmo, encenação, improvisação, semiótica, trabalho com os pés, maquiagem, coreografia, mitologia e outros fenômenos que refletem diferentes aspectos de toda a gama da atuação humana são analisados com ênfase nos significados espirituais, comunicativos, sociais e estéticos de cada tipo de comportamento cênico. Este livro é um exemplo vibrante daquilo que o antropólogo Clifford Geertz chama de "densa descrição". A sociedade é um espetáculo. A cultura é um espetáculo. Nós somos atores e também podemos ser bons nisso.
3) Para o ator

Autor: Michael Chekhov
Tradução: Álvaro Cabral
Páginas: 224
Ano de publicação: 1986
Sinopse:
O livro de Michael Chekhov questiona as nossas concepções éticas e estéticas, independente do fato de sermos profissionais da arte dramática ou não. Nesse ponto é obra indispensável a todos os que trabalham no campo da criação. É obra obrigatória para os dramaturgos. E - por que não dizer? - para todos os seres sensíveis que buscam na beleza e na emoção uma forma de existência compatível com a fantasia que habita cada um de nós.
4) O ator invisível

Autor: Yoshi Oida
Tradução: Marcelo Gomes
Páginas: 160
Ano de publicação: 2007
Sinopse:
Em seu estudo prático e cativante da arte do ator, Yoshi Oida atende qualquer intérprete com as ferramentas mais simples que ajudam a pôr a técnica da interpretação atrás de uma capa invisível. Yoshi acredita que, quando o público se encontra totalmente consciente do método do ator, tornando-se consciente demais de sua habilidade artística, o encanto da interpretação morre.
O público não deve jamais ver o ator e sim sua interpretação. Ao longo de todo o livro, Lorna Marshall oferece rápidos comentários sobre o trabalho e o método de Yoshi Oida, os quais ajudam a entender a realização dessa singular arte teatral.
5) Manual Mínimo do ator

Autor: Dario Fo
Tradução: Lucas Baldovino e Carlos David Szlak
Páginas: 384
Ano de publicação: 2011
Sinopse:
Livro indispensável e uma referência necessária para todos os que se interessam por conhecer as técnicas da arte teatral, mais especificamente do teatro popular, que conseguem sensibilizar o espectador e motivá-lo a ficar atento à sequência da narrativa dramática. É também uma obra que alia o conhecimento vivido dessas técnicas ao contexto mais amplo da cultura, mostrando como os procedimentos da representação descortinam uma realidade mais densa do que aquela veiculada pela simples informação.
6) Teatro

Autor: David Mamet
Tradução: Ana Carolina Mesquita
Páginas: 176
Ano de publicação: 2014
Sinopse:
Este livro é uma compilação e uma destilação dos pensamentos e práticas que utilizei nos meus quarenta anos de teatro profissional. São as regras em que me baseio como artista e com as quais fui capaz de ganhar a vida. As ideias aqui contidas são aquelas que eu contaria (e conto) aos meus próprios filhos e alunos. Testarei com alegria a funcionalidade e a praticabilidade delas para qualquer indivíduo, caso ele esteja disposto a colocar à prova, na prática, sua filosofia particular. E tal prova consistiria em quê? Na capacidade de motivar um ator a executar uma ação de modo simples e desprendido; de envolver o público; e, em um nível de alguma forma mais abstrato, de comunicar uma direção ou uma visão literária aos profissionais das artes (cenografia, iluminação, figurino) que trabalharão no espetáculo.
7) O Ator-compositor

Autor: Matteo Bonfitto
Páginas: 176
Ano de publicação: 2002
Sinopse:
Como pensar em "composição" no trabalho do ator? Eis o ponto de partida deste importante estudo realizado em O Ator-Compositor, por Matteo Bonfitto, que vem integrar a rica e diversificada bibliografia teatral publicada pela Editora Perspectiva nas suas diversas coleções. Apesar de numerosas pesquisas sobre a atuação empreendidas por grandes nomes do teatro ocidental do século XX, a interpretação de si mesmo continua sendo até hoje uma prática que se faz presente no processo criativo do comediante e se define como uma espécie de forma congenial ou estilo inerente. Com base nesse fato e conduzido pela ideia de que o teatro é, sobretudo, um exercício de arte objetivado com deliberação no corpo do intérprete, a pesquisa aqui projetada "rastreia" nas práticas artísticas os elementos essenciais que, em conjunto com a investigação sistemática, levaram ao desenvolvimento de diferentes métodos de construção e plasmação da obra de auto-incorporação do autor-objeto.
8) A Arte do ator

Autor: Jean-Jacques Roubine
Tradução: Yan Michalski e Rosyane Trotta
Páginas: 116
Ano de publicação: 1987
Sinopse:
Este livro caracteriza a arte do ator na atualidade. E é impossível tratar do tema sem remeter, por exemplo, às técnicas desenvolvidas pelo Actors Studio, pelo Piccolo Teatro de Milão e pelo Berliner Ensemble, de Brecht. Ou às propostas inovadoras de Stanislavski e Grotowski. Impossível também abordar as transformações ocorridas na forma de interpretar sem considerar o advento da televisão, a criação do Théâtre du Soleil e as influências disseminadas pelas dramaturgias japonesa e indiana, entre outras. Que impacto tiveram na postura do ator em cena? E em sua relação com o público e o diretor do espetáculo? Rico em informações e de leitura extremamente agradável, A arte do ator mostra a evolução recente de um dos mais encantadores e efêmeros ofícios: o da interpretação.
9) O Teatro é necessário?

Autor: Denis Guénoun
Páginas: 170
Tradutor: Fátima Saadi
Ano de publicação: 2004
Sinopse:
O cinema tendo se apoderado do imaginário do espectador, satisfazendo a seu desejo de identificação, qual seria, então, o lugar do teatro na cena contemporânea? Um tema que vem se propondo cada vez mais ao exame crítico moderno é o do estatuto do teatro no contexto globalizado e tecnocentrado da contemporaneidade e, nesse sentido, é valiosa a reflexão que este volume da coleção Debates, traduzido por Fátima Saadi, leva ao leitor de língua portuguesa. Trata-se de responder à questão: "O Teatro é Necessário?" Para tanto Denis Guénoun acompanha, ao longo da história do teatro, a formação e as modificações do conceito de identificação com o personagem, tanto por parte do ator quanto do espectador. Na Antiguidade, a mimese não supunha a identificação, que se esboça a partir da releitura renascentista da Poética de Aristóteles e encontra seu ápice no naturalismo do fim do século XIX. Diderot, Stanislávski e Brecht são tomados como marcos na discussão sobre a ilusão no teatro, redirecionada com o surgimento do cinema que, ao se apoderar do imaginário do espectador, satisfazendo a seu desejo de identificação, torna ainda mais evidente a vocação do teatro para o jogo, para o fazer compartilhado entre atores e espectadores, capaz de articular de modo produtivo a estética, a ética e a política.
10) Para Ler o Teatro

Autor: Anne Ubersfeld
Páginas: 218
Tradutor: José Simões Almeida Júnior
Ano de publicação: 2005
Sinopse:
O trabalho artístico de Grotowski é um dos mais significativos do teatro contemporâneo. Sua foi a elaboração do training, como exercício continuado, cotidiano e personalizado para o ator; sua a primeira experimentação sistemática e concreta da relação ator-espectador em um espaço cênico unitário. Sua a definição do grupo teatral como lugar de exploração pessoal e pesquisa artística, em um trabalho protegido, só em parte finalizado em cada um dos espetáculos. Sua a proposta de uma ética do ator como sujeito de experiências autênticas, que aperfeiçoa e desenvolve as intuições de Stanislávski. Muito do teatro contemporâneo, mesmo esteticamente distante dele, não teria sido possível sem o trabalho de Grotowski. A evidência deste papel é reconhecida internacionalmente pelos que fazem, assistem e amam a arte do teatro e sua extraordinária expressão contemporânea na criação e reflexão do grande diretor polonês.
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Essas são apenas 10 dicas de títulos em um universo (em expansão) de milhares de obras relevantes entre livros e artigos.
Aconselho aos interessados na arte da atuação que procurem um grupos ou escolas de teatro que possam oferecer condições para o desenvolvimento honesto e constante de seus talentos.
Para quem não tem acesso a um grupo ou escola de teatro, recomendo que encontre pessoas que tenham o mesmo desejo e se joguem na pesquisa. O próprio ambiente virtual está lotado de informação (inclusive algumas dessas obras citadas na coluna).
O caminho não é fácil, porém é uma jornada incrível.
Siga em frente, com um olho na construção da história e outro no que é possível fazer no presente.
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