A eternidade
da infância
no tronco enfermo
de uma árvore
abandonada
Os quintais da infância. As árvores que insinuam a juventude. Os quintais da infância pertencem aos avós. Aos pais não resta tempo para terrenos ociosos desse porte. Os quintais da infância nas casas de meus avós. Refúgios daquelas preocupações que eu ainda nem sabia não-preocupações de escola, de timidez, de uma tristeza que, mesmo passageira, chegava antes da hora. Os quintais da infância nas casas de meus avós. Um abacateiro maior do que a casa. Um limoeiro que resistia ao concreto que o rondava. E as tardes inteiras percorrendo as sombras desenhadas no chão de terra, cruzando os limites de terrenos móveis que o sol fundava.
Os quintais da adolescência. O tempo muda de relógio, nos resta menos tempo aos quintais. Menos tempo aos pais. Aos avós. Eles ainda estão todos lá, os quintais, os pais, os avós. As mudanças, em geral, nascem do lado de cá. Mas onde conseguimos despejar tanto tempo perdido? Ainda que, nas visitas aos quintais da adolescência, insista o perfume da infância no seu convite mutilado. Os quintais da adolescência são terrenos do passado que transitam numa dimensão equivocada, ilhas afetivas e inacessíveis cuja leitura é sempre borrada pelo tempo.
Os quintais do resto dos dias. Todos pertencentes à memória. Meus avós não possuem mais aqueles quintais de minha infância. Eu ainda sei onde eles ficam. Mas onde eles ficam já não há meus avós. Meus pais já ergueram seu próprio quintal. Eu ainda não lhes dei netos. O quintal lá está, cheio de primos mais novos. E quando os vejo correr pelo quintal de meus pais, surpreendo aquela minha entrega aos quintais de minha infância. E todas as promessas daquele tempo regressam num jorro, num corredor retroativo rumo ao abacateiro, ao limoeiro, às sombras que o sol desenhava no chão de terra. E aí está: talvez aí repouse alguma certeza nessa multidão indecifrável que habita a memória: os quintais da infância, a própria infância deve conter mesmo uma fatia disto que chamam eternidade.
*Crônica publicada originalmente no livro "Guaíba Labirinto" (Edições Outro Céu).
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