Repórter Guaibense

Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026

Colunas/Geral

Revelações e esgotamentos

As catástrofes silenciosas e nossos emblemas de cura 

Revelações e esgotamentos
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

A pandemia revela um esgotamento talvez nunca experimentado ou, ao menos, admitido por nossa geração. Boa parte das ações que considerávamos prioritárias em nossas rotinas tiveram a importância esfarelada diante da gravidade do que testemunhamos. Olho com novas lentes para meu próprio ofício e para os ofícios dos demais. Toda atividade para além dos serviços essenciais ganha cores supérfluas. Como recorrer às mesmas práticas ordinárias de trabalho quando a realidade ali perto, na intempérie contaminada das ruas, supera as mais aterradoras distopias?

Buscamos, então, refúgios nas dimensões encantadas da arte, em seriados, livros, filmes, narrativas que nos lembram sobre um mundo anterior, aquele com o qual nunca mais teremos contato. Recorremos à tecnologia para assistir aos shows que por muito tempo não frequentaremos, visitar familiares que não podemos mais acarinhar. Os cotovelos, essas esquinas subestimadas do corpo, agora promovidos à última fronteira de contato epidérmico que dispomos.

Uma catástrofe silenciosa nos envolve. Temos saudade de abraçar e beijar os pais, irmãos, amigos, aqueles que amamos. E a consciência do egoísmo que essa saudade pode representar, diante das centenas de mortes que são somadas diariamente e das ausências definitivas que essas despedidas representam, agrava ainda mais essa sensação.

Leia Também:

A mãe foi a nossa primeira casa, e estamos apartados de seu abraço. As mãos do pai, emblemas inaugurais de proteção, zelo, cuidado, nos são sonegadas por precauções necessárias. Como nossas mãos, como as mãos de todos, agora assumem ares de ameaça. A pandemia nos igualou a todos também nessa instância: o exílio voluntário dos primeiros carinhos que recebemos em vida.

Olho pela janela de casa. A rua menos movimentada de gentes e de carros. Olhar pela janela de casa, como agora faço, transformou-se em lazer. O sol que em algum momento do dia entra por ali, nas janelas de nossas casas, entrega uma memória agradável do mundo em meio a tantos medos. Brilhamos, por alguns segundos, de uma esperança ingênua, mas tenaz. A certeza de que a maioria de nós sobreviverá para contar essa história e iniciar outras tantas, como há milênios a humanidade vem fazendo, nos garante uma espécie de contentamento coletivo, apesar do permanente temor individual. E isso de alguma forma deveria nos tranquilizar.

Enquanto escrevo estas linhas, a televisão me informa que mais de vinte mil brasileiros já foram mortos nesta pandemia. Multiplico por vinte mil as minhas memórias, as minhas saudades, o meu amor, multiplico por vinte mil as minhas amizades, a morada de carinho e afeto da minha mãe, as mãos protetoras e zelosas do meu pai, multiplico por vinte mil tudo aquilo que vivi até hoje, que vivo agora e que ainda espero viver. E ainda assim falta algo nesta conta, algo sempre parece além. Uma busca previamente esgotada pelo que minha compreensão nunca vai alcançar. Porque sei, todos sabemos: não estarão somente nos números as respostas que procuramos. 

FONTE/CRÉDITOS: Aleksey Kuprikov/Pexels
Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também