Repousam sob o asfalto da Marcos de Andrade, hoje invisíveis, os paralelepípedos de minha infância. A própria Marcos de Andrade, naquela época, como a reivindicar um tempo de passado, mais lento, cadenciado, atravancado, cujo transitar dos carros levantava o pó da memória dos mais antigos. O caminho para as diligências do Engenho da primeira metade do século passado, em direção aos campos de arroz, era na terra e na sola do sapato ou do próprio pé. Nas noites mais escuras, quando hoje há dificuldade inclusive de enxergar o asfalto que se pisa, basta olhar a casa abandonada lá no alto, como que esquecida de acompanhar o tempo que fundou a atual Marcos de Andrade e seu trânsito acelerado. A casa lá no alto, cercada pelo matagal pronunciado, ergue-se como um relógio cujos ponteiros não pararam, mas que insistem em andar para trás.
A Anacleto Pratti e meus primeiros anos de vida. Na década de 1990, as ruas do Engenho ainda eram a sede principal para as brincadeiras infantis até o anoitecer. Eu, Jairo, Jader, Mauricio, Davi, Tiago, Israel, Maiquel, Guga, Lucinha, Fabiano e mesmo outros guris e gurias das imediações. A cova para as bolitas rasgada na terra que avançava sobre a brita. O futebol de goleirinha delimitado nas traves assimétricas de tijolos das obras abandonadas. As piadas afirmativas tão necessárias para aquela pouca idade, que muitas vezes escondiam a vontade de agradecer por morarmos todos na mesma rua e podermos brincar todos os dias. Sempre me lembro da manhã quando o Grêmio perdeu o mundial para o Ajax. Depois de deixar a sala onde meu pai e meus tios lamentavam a derrota nos pênaltis, encontrei na rua e no futebol com a gurizada o alento para a dor que sentia. Ainda com a camisa tricolor no corpo, passei o dia chutando aquela bola, imitando cada movimento do Arce e do Dinho com o máximo de precisão e correção, como se ali, naquela criancice doída dos meus dez anos, eu redimisse os erros de ambos e mudasse o revés de todos nós gremistas no outro lado do mundo.
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O Beco sempre foi uma dimensão à parte, um refúgio retangular e ausente da pressa do restante do Centro. A quadra de terra onde apenas as pontas resguardavam grama. As goleiras gigantes pra minha pouca idade. As muitas árvores e sombras, cenário perfeito para brincar de esconder quando a noite anunciava o fim das luzes naturais. Era um tempo de encontros sem agendar dias ou horários. Queria jogar uma bola? Bastava ir ao Beco. A casa dos avós como a garantia de ouvir os espirros de trovão do avô mesmo de lá da rua e depois receber o carinho dele e da avó para o café da tarde. Tempos atrás, entraram no Beco e podaram muitas de suas árvores, acabaram com alguns daqueles esconderijos. Foi como se, naquele verde mutilado mas ainda vivo, finalmente se materializasse a memória mutilada do Beco que sempre trago comigo.
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