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Sabado, 23 de Maio de 2026

Colunas/Geral

Sobre formas, cores e sombras

A arquitetura do verbo

Sobre formas, cores e sombras
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Formas

Não sou íntimo dos métodos, normas e formas, aliás, tenho certa dificuldade de compreendê-los. Deve ser por isso que gosto tanto de caminhar sobre fronteiras. Não sabendo exatamente como escrever um conto, transformo ele um pouco em poema. Não sabendo exatamente como escrever uma crônica, transformo ela um pouco num conto. Não sabendo exatamente como fazer um poema, transformo ele um pouco em canção. Não domino as formas, mas sou um apaixonado por elas, sou um apreciador de suas belezas. E tento, aos poucos, incorporar suas normas, nem que seja para alargá-las, desobedecê-las com mais consciência de minha rebeldia. Até as cores precisam de margens para fundarem algum sentido num quadro, compreendo isso. E busco intuir esse aprendizado das formas para conseguir entregar as mensagens que desejo. Tenho amigos arquitetos e engenheiros, sempre fico espantado com a habilidade que eles possuem em erguer edificações, planejarem no papel prédios imensos e depois materializarem esses monumentos de moradia ou comércio. Não gosto tanto da maneira como eles nos roubam o céu, mas alimento um sentimento contraditório de belo estranhamento diante deles, milagres do artifício humano. Me orgulho desses meus amigos. Olho para as flores, as árvores e outras formas que a natureza também nos entrega. Essa arquitetura sinuosa, viva, particular, lentamente construída. Os prédios mais bonitos também devem ser construídos assim. Os mais belos poemas, da mesma maneira. Todos eles, no fim, são molduras que criamos para fotografar a beleza.

 

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Livro

Os livros me salvam há muito tempo. De mim mesmo, do mundo. Eu converso com Vinicius, com a Hilda, a Clarice e o Graciliano. Eles me contam histórias, colorem esses lugares que me cercam com versos e prosas sobre o amor, sobre a amizade, sobre esse aprendizado lindo e espinhoso que é viver. Descolorem quando tratamos de assuntos mais sombrios. Nem só de sótãos é feita a vida, os porões também precisam ser visitados. Ocorre que todo escritor e toda escritora são profetas que conjugam verbos invisíveis no futuro do pretérito. A literatura não é sobre aquilo que foi, é ou será, mas sobre o que poderia ser. Esse tempo verbal que até no nome carrega poesia: um futuro do passado, uma espécie de premonição retroativa, uma memória expandida e não linear. Os livros me salvam há muito tempo. A leitura é uma espécie de viagem no próprio tempo, paradoxo que esse tempo verbal sugere. Aquele texto do Vinicius de décadas atrás me encontrou, aos 20 anos, no início deste século. Agora, enquanto escrevo, aos 36, recorro àquele primeiro contato com o texto do Vinicius, encontro a ele e encontro a mim mesmo, jovem, maravilhado e grato por estar vivo, por ter sido salvo ao menos naquele instante, por entender que, dali em diante, fundei dentro de mim um lugar para onde sempre regressarei e jamais poderá ser demolido: o meu próprio templo de poesia.

 

Carreata

Eles cruzavam as ruas das cidades com seus carros imensos e suas bocas abertas e cheias de dentes, era domingo à tarde, o vazio das ruas dos domingos à tarde agravado pelo silêncio dedicado aos muitos que se despediram da vida recentemente, e eles quebravam esse silêncio do domingo à tarde com suas bandeiras verdes e amarelas, com seus sorrisos, isso mesmo, eles gritavam e sorriam, buscavam nas janelas algum contato visual para despejarem seus ódios sorridentes, a raiva que carregam dentro de si, o luto recalcado que insistem em espancar, carreatas que celebram a morte, isso mesmo, cabiam 280 mil mortos naquelas carretas, as mortes que já aconteceram, as centenas que provavelmente aconteciam naquele momento em que eles cruzavam as cidades com seus buzinaços e algazarras, cabiam mais, na verdade, cabiam também as que ainda irão acontecer, todas elas reunidas naquelas bocas, naqueles dentes, naquelas mãos, naquelas carros que atravessavam a cidade e que ainda atravessam, seguirão atravessando, até que a última morte, infelizmente ainda tão distante de acontecer, entregue a eles e a todos nós o espólio definitivo da ignorância.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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