Nossa série de entrevistas com artistas e agentes culturais de Guaíba segue a todo vapor.
Já tenho uma lista de pessoas que estão no radar do Drone Cultural.
Não canso de falar que nossa cidade é um verdadeiro celeiro de craques.
Como se já não bastassem os nossos talentos locais, também temos a sorte de contar, nesse estrelado elenco de artistas dos mais diversos segmentos, com talentos que escolhem nossa cidade como seu lar.
O bate papo dessa semana é com uma atriz catarinense que escolheu Guaíba como seu lar há três anos.
Essa conversa, além de ser uma forma de conhecer um pouco da trajetória de mais uma das nossas trabalhadoras da Cultura, também é uma oportunidade de conhecer o ponto de vista de alguém que chega em nossa cidade e busca se integrar no nosso microcosmo cultural local.
Mais um bate papo bem legal que eu tenho muito orgulho de disponibilizar aqui nessa coluna.
Pega um cafezinho, te ajeita na poltrona e vem comigo conhecer a atriz Aline Helena Elingen.
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DRONE CULTURAL – Primeiramente muito obrigado por ter me concedido um tempinho para essa conversa.
Você, como tantos outros artistas de nossa cidade, não é natural de Guaíba. Chegou aqui já adulta e dando continuidade à sua carreira de atriz e ao seu empreendimento cultural.
Conte para nós um pouco sobre a tua trajetória. Como a Arte entrou na tua vida?
ALINE – Primeiro, quero agradecer por me convidar para essa entrevista. Agradecer também a você e ao Repórter Guaibense, por ter esse espaço aqui onde a gente pode conhecer os artistas da cidade e falar sobre cultura.
Bom, eu nasci em São Bento do Sul/SC, onde morei até os 17 anos. Sai de casa com essa idade, quando passei no vestibular da UFSC e fui pra Florianópolis.
A ideia inicial não era ir pra Floripa, mas eu já ia sair de casa com essa intensão de cursar Artes Cênicas.
Eu fiz o vestibular da FAP – Faculdade de Artes do Paraná. Passei na primeira fase. A segunda fase eu zerei a prova prática, porque esqueci o texto no meio da apresentação pra banca. Foi bem horrível na época. Tanto que eu lembro da cara do diretor da FAP até hoje, se eu ver ele na rua, eu sei que é ele. Até então eu não tinha participado de um grupo de teatro ou feito algum curso.
Eu fazia teatro na escola, esporadicamente, e dançava em grupos de danças folclóricas alemã, algo muito presente na cultura de São Bento. Eu vivi no meio disso. Acho que vontade de fazer teatro e ter a profissão de atriz veio de um jeito que não sei bem explicar.
Não tem ninguém na família que faça teatro.
Minha mãe conta que meu avô teve algum contato com teatro. Ele faleceu quando eu ainda era criança, então nunca conversei com ele sobre isso.
Só sei que era e é o que quero fazer pro resto da vida.
Lembro que quando eu estava no ensino médio, passou pela cidade aquelas agências de modelo e atores, que fazem testes. Eu decorei o texto, fiz a cena e passei. Ficou por isso, porque pra ir pra próxima etapa, meio que tinha que vender um rim.
Estou contando isso porque acho que esse acontecimento reafirmou minha decisão de estudar pra essa profissão. Acho que na época me deu um pouco mais de coragem, digamos.
DC – Como você veio parar em Guaíba?
ALINE – Vim junto com meu esposo, que é nascido aqui. Nos conhecemos na faculdade e acabamos nos mudando pra cá em 2017.
DC – Qual é a tua impressão com relação à nossa cidade?
ALINE – Gosto daqui. Sempre que a gente vai morar em outra cidade, o começo é meio tenso. Até conseguir se instalar, e tudo o mais. Mas me adaptei muito rápido. E fui vendo que Guaíba tem muita gente talentosa, não só no teatro. Me sinto muito grata por estar aqui.
DC – O que vem te chamando mais a atenção?
ALINE – Acho que algumas coisas culturais são bem fortes. No começo eu achava interessante as pessoas estarem em qualquer lugar, tipo, qualquer lugar mesmo, com uma cuia de chimarrão. Lá a gente não vê isso com tanta frequência. Ou então ver alguém andando pilchado. Lá só vemos quando há algum evento. Algumas palavras também, que antes não conhecia.
DC – Como está sendo o acolhimento nesses três primeiros anos em solo gaúcho?
ALINE – Me senti bem acolhida. Acho que como eu não vim sozinha, vim com alguém que já morou aqui, isso conta muito também. E antes de vir pra morar, já tinha visitado a cidade algumas vezes.
DC – São Bento do Sul, sua cidade natal lá em Santa Catarina, é conhecida como Terra do Folclore.
É uma cidade mais ou menos do mesmo porte que Guaíba e possui uma forte ligação com a cultura alemã devido a sua colonização.
Guaíba, como Berço da Revolução Farroupilha, também possui uma identidade muito marcante.
Você e sua família, pelo que sei, sempre participaram ativamente dentro desse universo germânico em terra brasileira.
Como isso contribuiu para o seu gosto pelas artes e, especificamente, pelos palcos? Você acredita que essas expressões muito presentes em determinado contexto local pode ofuscar outras formas de expressão artística? Como contornar possíveis dificuldades de troca de conhecimento e, até mesmo, de aceitação de compartilhamento?
Eu dancei minha infância toda e adolescência, até os 17 anos, em grupos folclóricos. Acho que isso pode ter contribuído de alguma forma sim, pois também é uma arte e uma forma de expressão. Mas acho que sim, em alguns lugares esse tipo de expressão artística é mais presente do que outras artes. Tem a ver com a cultura do lugar, a questão da tradição.
Em São Bento, por exemplo, na época que eu morava lá, eu conhecia um grupo de teatro. Sei que o diretor desse grupo ainda atua lá. Enquanto grupos folclóricos era e é uma lista enorme. Seja em escolas, seja grupos particulares.
Não estou dizendo que esses grupos não são importantes. Mas temos que ver que existem inúmeros segmentos na área da cultura, e que todos são fundamentais e tem o seu valor, seu espaço na construção social.
Acho que todos devemos abrir os olhos para isso, seja o governo, os próprios agentes culturais e o público.
DC – Vamos falar um pouco sobre a tua trajetória nas Artes Cênicas:
Quando foi o teu primeiro contato com o Teatro?
ALINE – Bom, como disse no início, na época da escola.
As vezes tínhamos algum espetáculo que passava pela escola. Lembro de algumas vezes irmos no centro cultural da cidade ver alguma peça. Ou então nas apresentações do final do ano. Às vezes eu participava. Mas eu era muito tímida, então eu sempre chorava antes de apresentar. (risos)
A primeira experiência de subir num palco e apresentar para o público, foi na faculdade mesmo, um trabalho que fizemos no final do semestre, em 2011. E aqui eu não posso deixar de citar Os Dias de Penélope que foi o primeiro espetáculo que apresentamos com o Grupo Teatral Realejo EnCena, do qual faço parte e sou cofundadora.
Estreamos ele quando eu estava no segundo ano da faculdade.
Quanta coisa aprendi com esse trabalho! Foi muito estudo em cima dele, durante quatro anos.
Com ele fomos pra um Festival em Araçatuba/SP. Era um festival de cenas curtas. O espetáculo tinha em torno de vinte minutos. Já tínhamos apresentado ele diversas vezes e até então estava tudo ok.
Nesse festival, tinha o júri, pois era com premiação.
Quando chegou nossa avaliação, eles falaram tanta coisa que tínhamos que melhorar, que quando retomamos o trabalho de pesquisa, o espetáculo se estendeu pra cinquenta minutos.
Como sou grata por esse trabalho, pois ele me fez ver e entender muita coisa. E eu sei que ainda posso aprender mais com ele, se formos retomar em algum momento.
DC – Para ti, o que é Teatro?
ALINE – Vejo no teatro uma ferramenta poderosíssima de transformação, construção social, formação do ser humano. O teatro faz com que a gente veja o outro, precise do outro. Nos torna mais sensíveis e generosos. Ninguém faz nada sozinho.
DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração?
ALINE – Uma das coisas que aprendi é bem essa questão da generosidade e humildade. Uma professora na época da faculdade sempre dizia que temos que ser humildes, estar abertos e aceitar o que o teu colega de cena propõe. Se você não tapar o buraco do teu colega quando ele errar, se você deixar ele cair, você cai junto. E também terá a nossa vez de errar.
E isso vale não só pro momento da cena.
Então aqui eu cito duas professoras que tive, que foram muito, muito importantes mesmo, pra que eu chegasse até aqui, e que me ensinaram muito, que é a Priscila Genara Padilha e a Sassá Moretti, arte-educadoras e artistas grandiosíssimas, que são uma inspiração pra mim, nas áreas do Teatro que atuo.
DC – Do ponto de vista de uma atriz e sócia de um grupo teatral, pensando desde a pesquisa até prática, na tua opinião qual é o maior desafio?
ALINE – Tudo é um desafio. Do início ao fim. Envolve muito trabalho e dedicação.
Mas posso destacar duas coisas: descobrir e entender quem é o personagem que está ali.
Que corpo ele tem, que voz ele tem, o que ele faz quando ele não está ali nas situações que o texto traz.
É uma vida a ser descoberta. Mas que quando se coloca no palco é uma sensação indescritível.
Outro desafio, e o maior de todos, é viver da arte, infelizmente. Muitas pessoas ainda não enxergam a arte como profissão e parte da economia.
DC – O Teatro é necessário?
ALINE - Sem sombra de dúvidas. O teatro transforma quem assiste e quem faz.
DC – O que o Teatro acrescentou na tua vida?
ALINE – Me fez ver o mundo com olhos mais atentos, menos julgamento. Me ajudou também com a timidez. Não que isso ainda não seja um desafio. Falar em público, ou falar de mim ainda é difícil (risos, mas de nervoso). Agora, por exemplo, estou suando. Mas isso mudou demais desde que comecei a fazer teatro. O problema não é subir no palco e apresentar, porque ali não sou eu. O problema é no dia-a-dia mesmo.
DC – Que tipo de aspecto da tua vida tu acha que deve exclusivamente a Arte e ao fazer teatral?
ALINE – Se não fosse o teatro eu não estaria aqui, onde estou agora. Não teria conhecido meu esposo. E consequentemente eu não teria minhas gatas. Não teria conhecido pessoas tão diferentes de mim. Talvez eu não tivesse a visão de como o mundo funciona que eu tenho hoje. Acho que seria outra vida. Talvez eu tivesse morando perto dos meus pais, isso sim faz falta. Mas nada que não dê pra resolver, exceto na pandemia. Mas não mudaria se eu pudesse fazer de novo, porque me trouxe muitas coisas positivas e um trabalho que me realiza.
DC – Mesmo longe, a tua família com certeza tenta te acompanhar bem de pertinho.
Qual é a influência da tua família em relação ao que tu fazes? Como eles encaram a tua escolha e esforço pela carreira? Eles conseguem entender tudo o que você faz, ou ficam meio perdidos no meio de tantas correrias?
ALINE – Meu pais e meus irmãos sempre me apoiaram. Eu e meus irmãos seguimos carreiras bem opostas. Meu irmão mais velho trabalha na área da computação. E meu irmão mais novo em gastronomia. Minha mãe é enfermeira e meu pai trabalha na área administrativa de uma loja. Mas sempre tive incentivo e apoio deles.
No início minha mãe não queria que eu saísse de casa. Meu irmão que conversou muito com ela. E correu tudo bem. Sou muito grata à eles. Porque se não fosse o apoio deles e ajuda financeira, mesmo quando sei que era difícil pra eles, eu não teria chego até aqui. Lá em casa sempre nos ajudamos e nos apoiamos. E eles sempre acompanham nossos trabalhos. De longe, de perto quando podem. Sabem que o teatro é nosso trabalho, e que exige muito. Digo nosso, porque me refiro ao grupo, à mim e meu esposo.
DC – Temos muitos amigos que não fazem parte desse nosso mesmo ramo de trabalho. Sempre surgem muitas curiosidades durante as conversas. O que os teus amigos dizem sobre a tua escolha profissional? Pode nos contar alguma pergunta curiosa que já te fizeram em relação ao teu trabalho?
ALINE – Sim, tenho amigos que não são do meio, que me apoiam, e prestigiam quando conseguem. Tanto de São Beto, quanto de Floripa e daqui também. Não me vem em mente nenhuma pergunta curiosa deles. Mas a gente acaba passando por algumas situações às vezes, do tipo “quando você ficar famosa” ou “como assim, tímida, se você é atriz”, essas coisas.
DC – Você pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória artística, que tenha te emocionado além do "normal"?
ALINE – Lembro quando terminamos uma temporada de Fando e Lis, trabalho de conclusão de curso. Eu interpretava a Lis e a peça tratava de um relacionamento abusivo.
A peça começava no teatro e ia pra um ônibus que circulava em volta do campus da UFSC.
No final o Fando bate na Lis até que ela morre. A cena ocorria fora do ônibus, e depois ele ia embora com o público.
Quando acabamos a apresentação me deu uma crise de choro, que não consigo explicar até hoje. Pra mim foi como uma despedida da Lis. E o texto trata de um assunto muito pesado.
Outra que me tocou muito, foi ano passado quando apresentei o Livre-se, nosso espetáculo de lambe-lambe, em São Bento.
Uma menina de três anos estava com a avó e queria assistir. O lambe-lambe é pra uma pessoa de cada vez. Coloca-se o fone de ouvido e assiste o teatro em miniatura dentro da caixa.
Achei que ela não ia assistir ao espetáculo todo, por outras experiências com essa faixa etária. Mas ela viu tudo, muito atenta. E apareceu no dia seguinte com a mãe e a tia pra assistir. Achei o máximo! As crianças sempre nos surpreendem.
DC – Falando em emoção: Para ti, o que é estar em cena?
ALINE – É muita responsabilidade, respeito e cumplicidade. E fisicamente, sinto um leve formigamento misturado com leveza, não sei bem. Mas é algo que só sinto em cena.
DC – Tens algum ritual que execute antes de entrar em cena? Como é a tua rotina em dia de espetáculo?
ALINE – Tem a preparação e concentração antes de entrar em cena, que varia de acordo com o espetáculo, com o que foi construído, com a necessidade do momento. Procuro não me preocupar com outras coisas no dia de apresentação. Coloco todo o foco naquilo. Reviso as coisas várias vezes, se não estamos esquecendo nada, e lógico, desejar merda para quem está ali envolvido. Procuro também dormir bem na noite anterior, comer bem ao longo do dia mas não pouco antes do espetáculo.
DC – Por mais que nos preparemos, as saias justas estão sempre presentes. No meio de tantas coisas lindas que já aconteceram ao longo da tua experiência, qual foi o maior perrengue que tu passaste em cena?
ALINE – Todo espetáculo tem o seu perrengue. No Livre-se já estragou o fone de ouvido na hora da apresentação. Tive que sair correndo comprar outro antes de iniciar. No momento era uma amiga e a mãe dela que ia assistir, então foi menos catastrófico.
Em Os Dias de Penélope usávamos projeção e eu entrava em cena quando trilha começava junto com a projeção. E as imagens eram muito importantes. A projeção falhou mas eu continuei mesmo assim. Inclusive isso foi no Festival em Araçatuba.
Em uma apresentação que fizemos na faculdade também, uma adaptação de Senhora dos Afogados, numa cena eu tinha que entrar segurando um par de sapatos, que era o objeto cênico principal que eu e o outro ator usávamos. Umas cenas antes, outra atriz usava os sapatos e deixava na coxia pra eu pegar. Segundos antes de eu entrar, os sapatos não estavam lá. Não sei o que houve. No desespero eu peguei o primeiro sapato que vi no camarim, e que não tinha absolutamente nada a ver com a estética da cena, a parte de dentro era com estampa de oncinhas. Hahahhaha Me lembro até hoje.
DC – Esse com certeza é um dos momentos mais confusos que a classe artística já enfrentou. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, deixou nossas atividades suspensas. Estamos sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma.
O teu grupo estava no meio do processo criativo para a montagem de um espetáculo. Seria o retorno do grupo às montagens voltadas ao palco, já que nos últimos dois anos estavam dedicados ao Teatro de Animação, mais precisamente o Teatro Lambe-Lambe (o teatro em miniatura que os leitores já tiveram a oportunidade de conhecer aqui neste espaço na coluna Fique à vontade, pode espiar).
Inevitavelmente, vocês foram obrigados a alterar o cronograma de execução do projeto.
Conta para nós como está sendo esse momento para o grupo.
Como estão funcionando os processos de adaptação do grupo e o teu?
Qual está sendo a principal dificuldade encontrada e quais pontos estão mais te surpreendendo positivamente?
ALINE – Assim como todo mundo, demos uma pausa que achávamos que seria breve. Não tem sido fácil se adaptar, tentar encontrar saídas pra agora e pensar em como executar as atividades assim que pudermos voltar, tendo que pensar em algo que possa ser apresentado ao público, mas com algumas medidas ainda.
Com relação ao espetáculo, procuramos fazer coisas que não dependem de reunião presencial. Pensar em coisas de produção, escrever projetos, essas coisas, falamos pelo grupo no whats... Mas não vemos a hora de voltar a ensaiar.
Temos alguns projetos do nosso canal no YouTube também, o Realejo TV. Por exemplo, fui contemplada num edital emergencial do estado, então temos uma série de entrevistas com agentes culturais, que começarão em breve.
DC – Ainda aproveitando um pouco mais a temática da Pandemia, na tua opinião qual é o papel da Arte nesse momento?
ALINE – Manter nossa saúde mental bem, fazer a gente refletir sobre tudo o que está acontecendo, transformar as pessoas, denunciar e protestar, aumentar nossa visão de mundo. Vejo que a arte é mais do que entretenimento. Ela é, mas é também ferramenta de transformação e construção.
DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade?
ALINE – Antes de tudo a reflexão. De forma geral, mas principalmente sobre a importância da cultura. Acho triste precisarmos de um momento assim, pra que algumas pessoas entendam a importância da arte.
DC – Infelizmente, não temos como prever muitas coisas para os próximos meses. Continuamos na luta para nos mantermos na atividade. Buscando alternativas em meio ao caos.
Uma dessas tabuas de salvação, mesmo que com bastante atraso, chegou através do edital FAC-Digital, do governo Estadual, através da SEDAC. Um edital que vai contemplar projetos culturais que possam ser exibidos através de plataformas de internet e redes sociais.
Você foi uma das sete pessoas selecionadas aqui em Guaíba.
Poderia contar um pouco sobre o teu projeto e qual a importância desse edital nesse momento?
ALINE – É o edital do qual falei. Será uma série de entrevistas com artistas de diversos segmentos. Iremos falar dos trabalhos desses artistas, sobre o momento atual e também alguns quadros descontraídos.
Editais assim são muito importantes para que, de alguma forma, possamos continuar a exercer nossa profissão e levar arte para as pessoas, mesmo tendo que nos adaptar a este momento, de forma digital.
DC – Uma outra boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação, através da LEI ALDIR BLANC, de recursos para os trabalhadores e espaços culturais.
Esse dinheiro, que só pode ser investido no setor cultural, virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade.
Como você vê a importância dessa lei nesse momento e qual é a tua expectativa atual com relação a isso?
ALINE – É importante não só para a classe artística, que poderá exercer sua profissão e receber pelos trabalhos executados, mas também para os outros setores da economia, visto que, por exemplo, quando se produz um espetáculo, vários outros setores são envolvidos.
A gente compra materiais pra cenário, figurino, precisa de transporte, precisa de alimentação, precisa de alguém que trabalhe com costuras... não construímos um espetáculo sozinhos.
Espero que esses recursos ajudem os trabalhadores que dependem da cultura pra sobreviver, que tem a arte como profissão.
DC – Quais sonhos você alimenta para o seu futuro artístico/profissional?
ALINE – Quero voltar a ensaiar o espetáculo que estávamos construindo, voltar a apresentar o Livre-se. Quero construir algum outro espetáculo de teatro de animação também, com algum boneco grande, ou sombras, ou outro lambe-lambe.
DC – Tem algum personagem que tu gostarias de interpretar? E, caso tu tivesses recursos suficientes, qual tipo de texto/espetáculo tu gostaria de montar? Nos teus sonhos mais malucos, por onde tua imaginação viaja?
ALINE – Há algum tempo tenho vontade de montar algo que denuncie a violência à mulher. Já foi falado tanto sobre isso, mas ainda é tão presente. Algo que ajude ou encoraje mulheres pra que elas denunciem e percebam que a violência não é só física. Não que eu sofra de algo nesse sentido. Mas nosso papel não é só falar do que nos atinge, né?
DC – Como você gostaria de ver o Teatro Guaibense nos próximos anos?
ALINE – Deveríamos nos conhecer mais. Não só entre os artistas de teatro, mas entre os segmentos. Acho que esse mapeamento que estão fazendo agora vai nos ajudar também nesse sentido. Um lugar onde eu pudesse acessar e procurar por um músico pra algum novo projeto, por exemplo. Guaíba tem potencial pra ter apresentações culturais todo fim de semana. Temos artistas, temos a Beira, as praças, temos público, podemos ocupar esses lugares.
DC – Para quem tem vontade de seguir esse caminho, que conselho você pode dar?
ALINE – Estudar, não desistir, conversar com pessoas que já estão nessa profissão, e ser humilde.
DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir?
ALINE – Vou citar o último livro que li, que é O Poder do Ator, da Ivana Chubbuck. Ele é bem objetivo e traz etapas que podem ser seguidas para estudar um roteiro. Além de ter muitos exemplos.
DC – Estamos encerrando a nossa conversa.
Não poderia deixar de, mais uma vez, agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo. Foi muito bacana conversar sobre a tua trajetória.
Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade.
Pensado exclusivamente para dar ainda mais visibilidade aos nossos colegas ao mesmo tempo em que pretende aproximá-los de nossa comunidade local.
Gostaria que você deixasse uma mensagem para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos.?
Aproveita também que é ano eleitoral e manda um recado aos pré-candidatos que estão se preparando para o pleito. Vários deles estão sempre por aqui e juntos podemos construir uma cidade melhor.
Fique à vontade, Aline. O espaço é seu.
ALINE – Aos trabalhadores da cultura desejo que sejamos fortes, são tempos difíceis, mas vai passar. Vamos tirar projetos da gaveta e aproveitar pra nos inscrever nos editais dessa lei, assim que saírem. Aos vizinhos, prestigiem os artistas da nossa cidade! Aos pré-candidatos, estamos aqui, e somos parte importantíssima da sociedade e da economia.
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E aí, gostou?
Legal, né?
Fico pensando em quantas histórias legais transitam pelas mesmas ruas que nós e não temos nem ideia.
Quanta gente batalhadora, sensível e resistente divide as filas e pontos de ônibus comigo?
Quem será a próxima estrela a nascer aqui nesse solo tão fértil?
Que tipo de artista o destino vai trazer para nossa cidade?
Como podemos continuar estimulando nossos conterrâneos a criar cada vez mais, ao mesmo tempo em que nos mantemos como uma cidade receptiva e auspiciosa para os novos moradores?
Tudo isso é uma construção coletiva.
E essa obra só se concretiza quando pensamos efetivamente de forma coletiva, visando valorizar igualmente o passado, o presente e o futuro, aliando o que temos de mais “nosso” ao que vem contribuir para a consolidação da tal identidade local.
Essa construção coletiva é o que gera o sentimento de pertencimento que nos faz realmente vizinhos.
Temos muito para pensar e fazer, né?
Que bom.
Seguimos construindo. Tijolinho por tijolinho. Trabalhador por trabalhador.
Quer continuar conhecendo nossos artistas e agentes culturais?
Quer saber um pouco mais sobre essa tal construção coletiva?
Então continue visitando essa coluna.
Semana após semana está sendo um prazer trocar ideias com vocês e conhecer/apresentar esse monte de gente interessante.
O que será que vai rolar na semana que vem?
Do lado de cá da margem do Guaíba o que não falta são talentos para entrevistar e se orgulhar.
Te espero aqui.
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