Um homem cantava na calçada da cidade. Sentado ao lado de uma loja, protegido pela sombra de marquises, o homem cantava na calçada do centro da cidade. Ouvia o seu canto desde quando ainda não havia saído de casa. Um canto forte, alto, pecando, é verdade, em alguns momentos, no quesito afinação, mas sempre se fazendo ouvir. Uma voz nítida, intransigentemente presente.
Cantava sucessos que costumam povoar as rádios mais comerciais por alguns poucos meses. Sucessos que, agora, como boa parte das canções, habitam principalmente os canais de streaming. Sucessos que serão sucedidos por outros sucessos ali adiante, melodias fadadas ao efêmero, ao brilho de curta duração, ao iminente abandono. Mas agora não, agora o homem cantava uma sofrência que hoje ocupa as paradas de sucesso, as propagandas televisivas, a trilha de alguma novela das seis.
Eu já andava pela calçada do centro da cidade, quando compreendi que aquele canto que há algum tempo escutava nascia do homem sentado ao lado da loja. As pernas dobradas sobre si, os braços gesticulando numa interpretação expressiva, sem qualquer acompanhamento de instrumentos, e a letra de Wesley Safadão ganhando o ar, alçando voo, fazendo pairar o estranhamento de uma poesia exibida e brega sobre a rua que faz pulsar o centro da cidade.
As roupas do homem não eram novas, ele inclusive poderia ser alguém em situação de rua, não tenho certeza. O que posso afirmar é que a rua lhe parecia íntima, como fazemos íntimas as salas, os quatros, as cozinhas, os banheiros de nossas casas. É como se nos transformássemos em um móvel entrosado com esses ambientes. O homem que cantava na calçada da cidade sabia-se pertencente àquela calçada.
Fiquei alguns segundos sem reação, apenas observando e ouvindo sua apresentação inesperada. As pessoas passando com pressa, algumas reagindo com um sorriso no canto da boca, outras mais ostensivas, diminuindo o passo, visivelmente surpresas por caminharem sobre uma calçada transformada em palco, ainda que claramente fosse comum a todas que por ali vagavam uma sensação de incômodo, uma inquietação arredia, o homem, diante desses olhares, assimilado como uma espécie de aparelho de rádio muito antigo que, por algum equívoco, decorava uma sala mais afeita a modernidades.
Pensei em todos os carros de som que todos os dias cruzam o centro da cidade em volumes anormais, pensei nos automóveis rebaixados que lançam muitas quadras adiante a música repetitiva que sai de suas caixas potentes, pensei nas obras barulhentas de martelos e serras, a grande orquestra de ruídos inexpressivos, irregulares e utilitários que povoam a inconstante melodia urbana. E em como tudo isso não perturba a rotina dessas mesmas pessoas que agora cruzam aquela calçada.
Precisava seguir adiante, é claro, tomar meu rumo, eu também refém dos compromissos que orientam nossos horários comerciais. Em segredo, porém, faria coro àquela rebeldia musical. Desceria a rua cantalorando, enquanto pudesse ouvir, a mesma melodia que o homem seguia interpretando a plenos pulmões, protegido por marquises, fazendo da calçada o seu palco no centro da cidade.
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