A Peça
Era sábado à noite, eu e Vivian estávamos em frente à lareira, uma neblina densa e gelada lá fora. Enquanto as lenhas estalavam e resolvíamos o que seria da janta, cruzei com o post de uma peça-filme que seria veiculada, minutos mais tarde, pelo grupo de teatro O Bonde em seu canal no YouTube: “Desfazenda: me enterrem fora desse lugar”.
Adquirimos o ingresso (que é gratuito) e sentamos em frente à televisão (conectada ao notebook) para “irmos” ao teatro.
Que sorte a nossa.
“Desfazenda...” é uma peça-filme doída e linda. Não sei bem se são esses os adjetivos. Porque é uma beleza que machuca, dilacera, atravessa, espanta e cura ao mesmo tempo. Musical à brasileira, forjado na particular vocação brasileira pra fala cantada, pro canto falado, a trova, suas derivações modernas, o rap, o slam, o que há de aproximação e partilha mesmo entre a fala e a canção.
A nossa grande tragédia exposta, gritada com o necessário verbo da poesia. No Brasil oficial de nossos dias que insiste em recalcar as verdadeiras brasilidades, especialmente a brasilidade negra, "Desfazenda..." tem a textura, a potência, a ternura e a coragem de um renascimento - no mínimo um manifesto urgente de sua possibilidade.
Neste final de semana tem mais, busca as informações lá no Instagram deles: 0__bonde. Tu não vai te arrepender.
O Livro
É claro que gosto de livros novos. Eles têm certa semelhança com roupas e outros objetos que adquirimos sem um uso prévio, sem uma marca particular de alteridade. Não há indício de uso humano sobre eles, há sim o traço presumido de sua elaboração, mas um traço que normalmente não se deseja presente, autoral, único.
É no contato com o texto que nós, leitores, faremos deste objeto cheio de palavras e folhas, que possui dezenas, centenas, milhares de outros idênticos a ele, algo inimitável no mundo. Como se, nessa primeira visita, nos fosse possível acessar o grau zero de suas existências. Nessa ilusão deliciosa, nós que investiremos valor, memória, afeto e vida sobre eles: demiurgos do utilitário.
Mas confesso que os livros "usados" me encantam mais. Parecem carregar uma memória prévia, uma segunda escritura, um rastro de leitura inapagável, como se o leitor anterior nos passasse o bastão, falasse conosco ainda que não perguntemos, habitasse em conjunto aquele território, mesmo que filho de outro tempo.
Esses dias, encontrei entre meus livros este exemplar de "ROSSHALDE", do Herman Hesse. Nunca havia lido. Devo ter comprado há alguns anos em uma Feira do Livro de Porto Alegre, naqueles balaios maravilhosos com exemplares a 3, 5, 10 reais.
Além da assinatura de seu provável primeiro leitor, João Luiz Hofel, feita a lápis há quase 50 anos, fui surpreendido com a queda de um cartão postal escondido em suas páginas centrais. Um casal de mãos dadas olha para as folhas despencadas das árvores pelo aparente outono. Não enxergamos seus rostos. Talvez hesitem sobre para onde ir, talvez apenas brinquem com o tapete das folhas amareladas estendido sob eles, as solas dos calçados estalando as folhas secas.
Quando inicio o livro, sinto que já não estou sozinho. Além de Herman Hesse e seus personagens, João Luiz Hofel e o casal do cartão postal me acompanham, se sustentam nas margens do romance como uma espécie de ascendência esquisita, torta, mas implacavelmente humana.
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