Aqui estamos novamente sendo pautados pelo “bom gosto cinematográfico” do pai do Júnior.
Em seu último grande infortúnio fílmico o título a receber a chancela de “Os Filmes do Júnior” pelo meu bom pai foi, “O Poço”. Pois bem, vamos falar sobre essa obra. Não contém spoilers (sou contra).
O Poço (Original Netflix)
2019 / Ficção científica/ Terror / 1h 34m
Um filme de suspense e terror espanhol de ficção científica, primeiro filme de longa-metragem dirigido pelo talentoso Galder Gaztelu-Urrutia e lançado em 2019.
Abra sua mente para assistir esse filme da Netflix que utiliza elementos de horror gore, mas tem muito mais a dizer do que apenas assustar.
O filme funciona como uma incrível metáfora para os problemas referentes a desigualdade que circunda as sociedades capitalistas modernas, revela um claro embate entre classes, regado pelos conflitos inerentes às relações de poder.
Já combinamos que aqui na minha coluna o que importa realmente é o que há por trás da cortina, nas entrelinhas, nos subtextos das personagens, então vamos lá;
“Óbvio!” é a palavra que marca o filme O Poço (The Platform). Filme que caiu no gosto de muita gente nessa quarentena. O motivo? As críticas sociais que o filme “claramente” faz e a identificação com a sensação claustrofóbica que toma conta do mundo nesse período.
O poço que de “óbvio” não tem nada é uma metáfora explícita sobre a selvageria proporcionada pelo capitalismo e a desigualdade social, mas é mais do que isso. Impressiona o tanto que o filme se conecta a esses tempos inéditos de confinamentos e restrições.
O filme jamais economiza nas imagens extremas para provar seu ponto -- violência gráfica e tabus como canibalismo, escatologia e estupro fazem parte do cardápio que a trama oferece até seu desfecho onírico, enigmático e sem soluções fáceis.
O Poço afunda nosso olhar para muitas feridas do comportamento humano, nossa falha nas capacidades de empatia, cumplicidade, solidariedade, convivências, conveniências e afins.
Na miríade de tramas e subtramas de “O Poço”, um exercício é proposto pela narrativa, e se fossemos nós naquela situação? Minhas conclusões não foram nada aprazíveis e acredito que nenhum ser honesto de nossa espécie concluiria diferente. Talvez a resposta plena nunca venha porque o buraco é fundo demais, literalmente o buraco é mais embaixo.
Cada um de nós é um próprio poço, onde aprisionamos nossos medos, anseios, frustrações, vitórias, fracassos e demais emoções, sensações e etc... Tudo isso oscilando posições e prioridades. Os de cima, os de baixo e os que caem.(quem assistiu sabe do que estou falando).
Mais importante que concordar com minha interpretação, ou com qualquer tipo de análise profissional, “O Poço” dialoga com cada espectador, indistinta e inalienavelmente, um processo empírico e individual que chega a dar saudade de Igmar Bergman (com respeito as devidas e cabíveis proporções aqui).
Muitos certamente pensam como meu pai, “é só um filme sem sentido que acaba do nada... "Os filmes do Júnior” e não é apenas por sua temática sombria e incômoda, e final aberto... O Poço não cai bem em qualquer estômago, e nem importa muito qual andar esteja.
Entre muito bons momentos do filme um diálogo me chamou a atenção mais que o normal Trimagasi interpretado por Zorion Eguileor pergunta para Goreng vivido por Ivan Massagué:
- Você é comunista?
- Os de cima não escutam comunistas.
Fui obrigado a dar um pause nesse momento do filme, meu pensar e meu raso conhecimento histórico me fizeram viajar longe em assimilações e analogias. Esse é o verdadeiro poder da arte, ela não se compromete com seus posicionamentos, não julga... Ela incita, provoca, chacoalha... Então queridos leitores, vale muito a pena assistir “O Poço” pois esse filme transborda de criatividade, domínio da linguagem e imaginação, mas se estiver no fundo dele, melhor ver alguma comédia banal.
Gaztelu-Urrutia diretor de “O Poço” ao ser perguntado se a mensagem foi recebida, ele respondeu:
“Isso é algo que você deve perguntar à sociedade. É com a gente… depende se nós vamos querer continuar sendo a espécie mais miserável que já pisou no planeta ou não.”
Segue agora uma lista com 10 “Filmes do Júnior” que tratam de Desigualdade.
- O Pagador de Promessas (1962) | Anselmo Duarte
- Ônibus 174 (2002) | Felipe Lacerda, José Padilha
- Lemon Tree (2008) | Eran Riklis
- O Som ao Redor (2012) | Kleber Mendonça Filho
- Expresso do Amanhã (2013) | Bong Joon-ho
- Trash - A Esperança Vem do Lixo (2014) | Stephen Daldry, Christian Duurvoort
- Desajustados (2016) | Dagur Kári
- Roma - (2018) | Alfonso Cuarón
-Projeto Flórida (2017) | Sean Baker
-Coringa (2019) |Todd Phillips
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