Algo me desperta para além da janela de casa, uma voz, um som da cidade, uma buzina, um grito, uma canção que toca alto no rádio de um automóvel que passa, essas irrupções de vida humana que vão compondo uma espécie de múltipla sinfonia do cotidiano, cada uma delas uma notinha e, em conjunto, acordes dissonantes, claudicantes, inconstantes e resultam nisso que eu posso chamar de som estranhamente familiar que Guaíba me entrega todos os dias. Tento ouvir o que me dizem: regular o caos.
Desço as escadas e chego à Doutor Lauro, as vozes abafadas pelas máscaras se comunicam em frente à lotérica, ingressando na padaria, junto ao ponto de táxi, nas idas e vindas pela São José, dividem terreno no ar com os rugidos de carros, motos, poucas bicicletas. Um choro de criança alcança uma nota mais aguda, chama a atenção de muitos e silencia suas vozes, até que a mãe consegue encontrar uma posição confortável e o choro cessa, e então o vozerio de transeuntes, comerciantes e consumidores recupera seu protagonismo.
Eu sigo pelas ruas do Centro, o carro de som enfim aparece, a voz clássica do locutor que anunciava as festas no Itapuí e na Rioccell no tempo de minha juventude apresenta ofertas imperdíveis em lojas de vestuário, dias atrás alardeava a abertura de um novo comércio, outra semana relembrava o endereço de uma loja tradicional, há pouco tempo convocava os cidadãos para que se vacinem, e tudo junto ali naquela voz grave e familiar, as memórias daquelas festas de quinze anos ou mais, a luta de comerciantes para manterem seus negócios vivos nesse tempo de tanto medos cheios e bolsos vazios, a vitória da vida pela vacina tão esperada sendo cantada de forma incessante. É uma voz que atravessa o tempo.
A essa altura já estou na Cônego, na quadra que é tagarela de dia e silenciosa à noite, a série de pequenas lojas, restaurantes e outros comércios que se ladeiam, movimentam a economia local, abrem os olhos nas primeiras horas da manhã, cerram esses mesmos olhos quando o sol está indo embora, e só aí abandonam a via às farmácias e sua vocação para luzes e curas artificiais, uma em cada esquina, sentinelas alertas para o trânsito que mais tarde estará adormecido naquele trecho da Cônego, como de resto na maior parte do centro.
Pois, agora, quando a tarde ainda vai pela metade, é ali, justamente na Cônego, que a sinfonia parece alcançar seu clímax, o vendedor de sorvetes tenta convencer os passantes sobre a validade do estranhamento de um paladar gelado numa tarde de inverno, o dono da fruteira cumprimenta um conhecido que avança sobre a calçada no outro lado da rua, um gremista e um colorado experimentam a flauta ou a corneta desafinadas e desanimadas num tempo que ambos mais sofrem derrotas e empates do que celebram vitórias, sem falar nas sirenes dos agentes de trânsito e nas onomatopeias improvisadas pelos pedestres que tropeçam nas lajotas assimétricas das tantas calçadas assimétricas que se estendem pelo centro.
Quando chego à segunda farmácia, lá na outra esquina, ingresso na Bento em direção à Vinte, e é como se ultrapassasse uma cortina sonora. Aquele alarido, aquela multiplicidade de sons vai ficando para trás, vai soando cada vez mais distante, menor, quase uma ladainha, uma amálgama frágil de falas que compõem agora um só timbre precário, baixinho, uma voz-colagem que me diz ao ouvido e num idioma incompreensível, ainda que implacavelmente humano, um segredo vital e insondável sobre a identidade de todos nós que aqui vivemos.
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