O texto de hoje foi escrito em parceria com a minha companheira de vida e de trabalho: Aline Helena Elingen. Escrevemos como parte do E-book Teatro do Oprimido e Palhaçaria - Conversas e Convergência.
O link para acessar o livro completo estará disponível no final do texto.
Esperamos que apreciem o texto e se interessem pelo livro. Na verdade apelidamos de "Livrista". Que é a mistura de livro com revista. Formato adotado no momento da criação do material.
Tem bastante conteúdo interessante (não apenas para os envolvidos diretamente com as áreas abordadas), disponibilizado de forma GRATUITA como contrapartida do projeto realizado com recursos provenientes da Lei Aldir Blanc, no âmbito do Edital Criação e Formação - Diversidade das Culturas, dentro das ações propostas pela parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura (SEDAC-RS) e Fundação Marcopolo.
Boa leitura!
___________
Quando fomos convidados para este projeto ficamos, além de muito felizes, surpresos com a possibilidade de ser uma pesquisa com fomento público, algo bastante raro, ainda mais em tempos de enfrentamento a ciência.
Em tempos cada vez mais líquidos e voltados para o produto final, o trabalho de pesquisa vem se tornando um ato de resistência exercido por profissionais em condição praticamente de marginalidade.
Nosso ato de resistência partiu do desejo de encontrar pontos convergentes entre duas linguagens cênicas distintas mas que lidam diretamente com os sentimentos humanos ligados tanto à individualidade quanto à coletividade. Assim, como outros tantos trabalhos de pesquisa, igualmente relevantes, o intuito deste projeto não é encontrar respostas definitivas, mas sim revisitar antigas questões e elaborar novas perguntas, para dessa forma contribuir com a construção de conhecimento baseado nas experiências passadas, nas vivências do presente e com os olhos no futuro.
Tendo dito isto, torna-se praticamente redundante falar sobre a importância do fomento público aos ambientes de pesquisa, sejam eles nas Universidades, nos laboratórios, ou nas iniciativas independentes que busquem mapear, criar e difundir conhecimentos, técnicas e tecnologias.
A proposta de execução do projeto nos apresentado pela Jaqueline Iepsen de cara nos colocava diante de uma situação inusitada: como, durante uma pandemia*, encontrar a melhor forma de pesquisar e testar as conversas e convergências existentes entre o Teatro do Oprimido e a Palhaçaria? De que forma tornar e manter vivo um trabalho que, a priori, exige a presença física?
O caminho a seguir era apenas um: explorar todas as possibilidades que o ambiente virtual pudesse nos oferecer. Conseguimos estabelecer uma boa rotina de trabalho e um cronograma razoável de execução.
Partindo desta organização, entendemos que o que antes parecia limitação, na prática, se apresentou como uma solução na medida para o que estávamos pretendendo durante o percurso da pesquisa. Estando livres de limites geográficos conseguimos expandir os horizontes e sincronizar agendas, a ponto de, cada um em seu espaço de trabalho, atravessarmos, por pelo menos duas vezes, o Oceano Atlântico e percorrer o país. Conversas e trocas de conhecimento que seriam inviáveis do ponto de vista geográfico e financeiro, só foram possíveis devido ao uso da tecnologia e das ferramentas disponíveis e acessíveis no momento. Vale destacar que as ferramentas virtuais utilizadas, tanto para a comunicação quanto para o armazenamento do material das entrevistas, eram de uso gratuito.
Por meio desta rede de troca de informações criada a partir deste projeto, tivemos a oportunidade de conversar com o francês Jean-Pierre Besnard, que estava na Bélgica, com o auxílio da tradutora, também francesa, Laetitia, que estava no Rio de Janeiro, enquanto nós estávamos em Guaíba/RS, nossa base de trabalho de onde conseguimos contato também com Celso Willusa, na Alemanha, com Alexandre Penha em Maringá/PR, com Cláudio Thebas em São Paulo/SP, com a Tefa Polidoro em Florianópolis/SC, e com Silvia Balestreri, Tânia Farias, Patrícia Sacchet e Guilherme Comelli em Porto Alegre/RS.
A tecnologia também nos possibilitou divulgar os caminhos percorridos ao longo da pesquisa. Além de nos ajudar a propagar conceitos ligados ao universo das duas linguagens nas quais estamos debruçados, nos trouxe a possibilidade de conhecer outros trabalhos e de alguma forma sermos transpassados por estes na mesma medida em que podemos contribuir.
Este foi o caso do encontro com A Grupa Gestar, um momento de interação viabilizado pela repercussão nas redes sociais que nos proporcionou este encontro com o grupo formado por mulheres que estudam as técnicas do Teatro do Oprimido e também da Palhaçaria, em diversas partes do pais.
Rompendo com os limites geográficos e com o auxílio da tecnologia, neste encontro foi possível realizar essa troca de saberes e de vivências dos dois grupos que ali estavam, contribuindo para a nossa pesquisa. Embora os jogos do Teatro do Oprimido geralmente contem com a presença física, neste encontro pudemos realizar alguns jogos de forma virtual, sem a necessidade do contato físico com o outro, proporcionando um ambiente de entrega, divertimento e descobertas, prestigiando uma atmosfera de absorção de informações, propícia para testar técnicas e repassar conhecimento.
Como ponto negativo, podemos dizer que a ausência da presença física ainda causa algumas limitações à melhor execução da pesquisa em seus diferentes caráteres. Entretanto, a experiência virtual nos trouxe outras possibilidades de trabalho dentro das condições atuais e que sem dúvida permearão nossas práticas presenciais em momento propício.
A linha de trabalho fortalecida pela aproximação facilitada por meio da tecnologia é um benefício que veio para ficar, abrindo o leque de possibilidades de pesquisa de campo e troca efetiva de informações. Quanto tempo levaria, há poucos anos, até que conseguíssemos uma troca de conhecimentos com um grupo francês, por exemplo?
Chegando ao final desse processo de investigação tão abrangente e comunicativo, não poderíamos concluir esta etapa de maneira diferente. Decidimos encerrar com uma oficina, testando os limites da técnica em um ambiente virtual, e uma live coroando o espírito deste trabalho: a conversa.
Muito além de fazer uma pesquisa, fizemos amigos, encontramos companheiros, e tivemos a oportunidade de conversar com um francês na Bélgica, um brasileiro, que foi quase atropelado horas antes, na Alemanha, um casal de palhaços com suas cachorras, e uma gaúcha que não estava aprendendo a dirigir em Florianópolis. Escutamos histórias divertidas emocionantes que poderiam servir de inspiração tanto para um número de Palhaço quanto para uma discussão em Teatro Fórum. Nos emocionamos até chorar de rir. Contamos histórias pessoais, vistas, vividas e inventadas.
A pesquisa é feliz!
____________
Gostaram?
No livro têm uma porção de textos que especialistas escreveram exclusivamente para este projeto.
Não deixe de acessar o conteúdo.
Não poderia encerrar sem agradecer aos demais companheiros de pesquisa Jaqueline Iepsen (Palhaça Assuntina) e Araxane Jardim e Déia Alencar (Ponto de Cultura Biguá). Com eles, o caminho foi lindo, leve e produtivo..
Também é importante aplaudir cada um dos participantes/convidados que colocaram o seu tijolinho nessa construção coletiva:
Abrão Slavutzky, Alexandre Penha, Ana Elvira Wuo, Celso Welusa, Cláudio Thebas, Eduardo Teixeira, Guilherme Comelli, Henrique Dallmeyer, Jean Pierre Besnard, José Guilherme Benetti, Laetitia Birbes, Nathy Ananias, Patrícia Sacchet, Sandra Alencar, Silvia Balestreri, Tânia Farias e Tefa Polidoro. Sem eles, não haveria pesquisa.
Até a próxima conversa!
Clique aqui para ler o E-book completo.
________________
Comentários: