Nunca um filme brasileiro soube reproduzir de forma tão singular e ao mesmo tempo tão contemporânea um dos períodos mais sinistros da ditadura brasileira. Em tempos que estivemos à beira de uma tentativa de derrubada da nossa democracia, nada seria mais adequado do que discutirmos como sociedade o quanto uma ditadura fere de forma brutal a vida e a alma das pessoas... O argumento mais vil que já ouvi de forma uníssona daqueles que de forma desiquilibrada defendem a perda da liberdade pela tomada de poder pelo militares, é o de que “não havia bandidos na rua em tempos de ditadura” ou de que havia “menos criminalidade”...
Ora, sim de fato quando tratamos de em regime de exceção em que as liberdades são tolhidas e as pessoas vivem em um regime de repressão com risco de perda de suas vidas por simplesmente andarem na rua depois das 22h, a circulação social diminui e haverá redução de todos os números, principalmente da violência... Assim como na pandemia em que a criminalidade urbana reduziu drasticamente.
Mas o que a grande sociedade esquece é que os “bandidos” de verdade desta época não estavam mais nas esquinas ou becos escuros e sim em camburões do DOPS ou ainda nos porões secretos do DOI-CODI, com credenciais do estado brasileiro e salvo condito para matar.
Porões estes, que presenciaram o ceifamento da vida de milhares de brasileiros, através da tortura de homens, mulheres e até crianças... Pais, filhos, mães... A ditadura não escolhe suas vítimas, ela simplesmente reage contra todos que a contrariam ou tentam defender os seus direitos e liberdade...
Ainda Estou Aqui, desnuda aquilo que uma massa intolerante que esteve em frente aos quartéis em dezembro de 2022 clamando pelos tanques na ruas, tenta de forma criminosa romantizar...
Não é possível que uma sociedade séria, decente e desenvolvida possa achar que o assassinato covarde de compatriotas e a consequente destruição de famílias, seja defender o seu país. É inadmissível crer que a intolerância política seja a justificativa para pregar o ódio e a segregação entre os brasileiros, afinal de contas, a Democracia também é discordar, debater e ainda assim conviver.
A grande contribuição que esta excelente produção no nosso cinema brasileiro deixa, é de que não podemos mais relativizar o que milhares de famílias Paiva experimentaram de dor e sofrimento durante a ditadura. E ao cidadão entusiasta da repressão militar, saiba que essa mesma mão que pesa sobre aqueles que tu discordas pode pesar sobre ti ou sobre aqueles que ama...
Viva o cinema brasileiro, ditadura nunca mais!
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