Poesia
A poesia não veste terno e gravata, não mora em mansões da norma culta, não frequenta salões da alta sociedade, não vive nos “isto posto”, nos “outrossins” ou nas mesóclises destes que se acham doutores, a poesia não se forma na faculdade, não habita dicionários, não respeita sinalizações de trânsito e nem mesmo vaga na linearidade dos ponteiros do relógio, o tempo da poesia é a eternidade das coisas e dos bichos pequeninos, a vastidão do mundo presensamente ordinário, a microfagia das horas, a poesia vai roendo as horas por dentro das horas, porque a poesia é em um desvio, é o erro aparente como caminho mais certo, é um alfabeto de assimetrias, a poeira dos dias que está sempre nos rondando, pedindo ao menos um segundo de atenção, nós todos abandonados nas cavernas internas e externas que inventamos para desperdiçar a vida com aquilo que pouco nos devolve, mas então uma brisa corre entre as portas escancaradas da casa, exige o abano ensolarado das plantas na janela, alcança, por fim, o cabelo dourado dela que subitamente deixa as costas das orelhas, onde se escondia com certa ordem, e desaba pelo rosto como quem dança sua coreografia dependurado num bungee jump, vai envolvendo e tocando e cobrindo e descobrindo a boca, o nariz e os olhos dela, camuflando e revelando, alternadamente, o rosto que há tanto conheço, mas que todos os dias inventa novas pedagogias para me ensinar sobre o amor, a beleza e a consolação.
O primeiro tombo
O primeiro tombo que caí foi de joelho e foi na brita da rua bem defronte a casa numa tarde ensolarada de dezembro quente morno úmido e comprido como os meses quentes sempre são que até parecem estender os ponteiros no calor, e a hora ganha tempo, ganha corpo, e pra passar inteira a hora até parece que arrasta pelos braços os três ponteiros preguiçosos foram meus pés que não desviaram do buraco de pouca brita e terra muita e deixaram solitário meu joelho na queda na rua bem defronte a casa, no primeiro tombo que caí jogando bola com a gurizada do bairro e pensando nos campos do mundo todo, mas que ali era demarcado por goleirinhas de tijolos bem laranjas como o sol alaranjado que esquentava a tarde molhada do suor no rosto, no braço, nas pernas e era no corpo inteiro o suor, até no joelho que foi abandonado pelos pés e pelas mãos e pelo corpo todo, até os olhos abandonaram o joelho, os olhos apertados que antecipam dor ou antecipam cura pra machucado de guri que cai o primeiro tombo, não foi o último, claro que não, nem sei na verdade se foi o primeiro porque era muito guri e a memória de antes não sei se é realmente memória ou cópia das fotografias que via, e nas fotografias não há tombos, nas fotografias há sorrisos, há muitos dentes nas fotografias, há festas e muitos aniversários, há até uma fotografia de um aniversário de antes do tombo e eu sorria na foto, eu ria muito, eu certamente não sabia que o tombo me aguardava logo ali adiante, meu joelho na brita, no jogo, no tombo, bem defronte a minha casa.
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