Repórter Guaibense

Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

Colunas/Geral

Alfabeto de assimetrias

A palavra como vaga-lume

Alfabeto de assimetrias
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Poesia

 

            A poesia não veste terno e gravata, não mora em mansões da norma culta, não frequenta salões da alta sociedade, não vive nos “isto posto”, nos “outrossins” ou nas mesóclises destes que se acham doutores, a poesia não se forma na faculdade, não habita dicionários, não respeita sinalizações de trânsito e nem mesmo vaga na linearidade dos ponteiros do relógio, o tempo da poesia é a eternidade das coisas e dos bichos pequeninos, a vastidão do mundo presensamente ordinário, a microfagia das horas, a poesia vai roendo as horas por dentro das horas, porque a poesia é em um desvio, é o erro aparente como caminho mais certo, é um alfabeto de assimetrias, a poeira dos dias que está sempre nos rondando, pedindo ao menos um segundo de atenção, nós todos abandonados nas cavernas internas e externas que inventamos para desperdiçar a vida com aquilo que pouco nos devolve, mas então uma brisa corre entre as portas escancaradas da casa, exige o abano ensolarado das plantas na janela, alcança, por fim, o cabelo dourado dela que subitamente deixa as costas das orelhas, onde se escondia com certa ordem, e desaba pelo rosto como quem dança sua coreografia dependurado num bungee jump, vai envolvendo e tocando e cobrindo e descobrindo a boca, o nariz e os olhos dela, camuflando e revelando, alternadamente, o rosto que há tanto conheço, mas que todos os dias inventa novas pedagogias para me ensinar sobre o amor, a beleza e a consolação.

Leia Também:

 

O primeiro tombo

 

            O primeiro tombo que caí foi de joelho e foi na brita da rua bem defronte a casa numa tarde ensolarada de dezembro quente morno úmido e comprido como os meses quentes sempre são que até parecem estender os ponteiros no calor, e a hora ganha tempo, ganha corpo, e pra passar inteira a hora até parece que arrasta pelos braços os três ponteiros preguiçosos foram meus pés que não desviaram do buraco de pouca brita e terra muita e deixaram solitário meu joelho na queda na rua bem defronte a casa, no primeiro tombo que caí jogando bola com a gurizada do bairro e pensando nos campos do mundo todo, mas que ali era demarcado por goleirinhas de tijolos bem laranjas como o sol alaranjado que esquentava a tarde molhada do suor no rosto, no braço, nas pernas e era no corpo inteiro o suor, até no joelho que foi abandonado pelos pés e pelas mãos e pelo corpo todo, até os olhos abandonaram o joelho, os olhos apertados que antecipam dor ou antecipam cura pra machucado de guri que cai o primeiro tombo, não foi o último, claro que não, nem sei na verdade se foi o primeiro porque era muito guri e a memória de antes não sei se é realmente memória ou cópia das fotografias que via, e nas fotografias não há tombos, nas fotografias há sorrisos, há muitos dentes nas fotografias, há festas e muitos aniversários, há até uma fotografia de um aniversário de antes do tombo e eu sorria na foto, eu ria muito, eu certamente não sabia que o tombo me aguardava logo ali adiante, meu joelho na brita, no jogo, no tombo, bem defronte a minha casa.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também