Um compromisso moral que carrego comigo, desde que comecei a aprofundar meu interesse nos livros que contam a nossa história e passei a construir meu entendimento acerca do movimento político militar, efetivado por Imperiais e Republicanos na Revolta Farrapa é falar de Porongos. É crucial e meritoso resgatar a valia e grande participação dos negros na Revolução Farroupilha e rememorar a morte desses lanceiros negros, que fora de forma horrenda, equivocada e friamente covarde.
Vou fazer o relato, como se fosse um dos meus irmãos mortos naquele tempo, como se estivesse lá, junto aos meus irmãos de cor, de dor e de armas.
“O dia era 14 de novembro, o ano era 1844, vínhamos de marchas penosas e largas, cansados e famintos, mandaram-nos acomodar no descampado do Cerro de Porongos, lugar um tanto desguarnecido para montar abrigos e ficar aguardando o tal tratado de paz. Diziam os coronéis que era eminente esse tratado, que um tal Duque de Caxias já havia alinhavado os trâmites com nosso general Bento Gonçalves e David Canabarro. Nós da brigada de Lanceiros Negros e os demais, por conta do próprio comandante-em-chefe David Canabarro estávamos cansados dessa guerra interminável, mas peleávamos pelas nossas vidas e pela tão sonhada liberdade, que nos era oferecida para que participássemos de cada investida.
Éramos um grupo de negros que só tinha a vida pelo que lutar, empunhávamos lanças como se na ponta delas estivessem o coração de nossas famílias, os que montavam cavalos, davam guarda aos que iam a pé, sem temer nada, afinal a morte não poderia ser pior que a escravidão.
Brilhavam nossos olhos quando a liberdade se aproximava em cada vitória, arrancávamos sangue e vidas em troca das nossas próprias, era uma constante barganha com a morte. Nem todos viam nosso progresso vitorioso com bons, olhos. Achavam que negros peleadores, armados e libertos, poderiam ser ameaça a sociedade escravagista e feudalista da época.
A noite se apresentava como nossa irmã, negra e linda, os corvos pressentiam um mal agouro, aranhas seguiam firme trançando suas teias enquanto os quero-queros davam sinais de movimentação nos campos de cima.
Seguíamos ao redor do fogo, com ração provisionada por fazendeiros locais e preparada por um companheiro de origem ameríndia, as estrelas olhavam para nós como que querendo avisar da noite nefasta e as bruxas trançavam crinas para incomodar os coronéis.
A última vez que vimos o tal de Canabarro, estava com seu boticário e a tal da Dona Papagaia arrumando malotes e caixotes de forma estranha e acelerada, como éramos errantes e de infantaria, esse movimento não nos causaria espanto.
Foi quando uma coruja, sobre uma figueira grande, soltou um canto de horror, estalaram gravetos no mato que cercava o acampamento e rangeram metais no cimo do cerro, acabara ali o sonho de liberdade.
Alguns dos meus irmãos foram trespassados pelas espadas imperiais, sem nem saberem de onde saíram aqueles soldados. Outros foram alvejados a queima roupa por garruchas e mosquetes, desfalecendo atônitos, com os olhos abertos buscando a infinita liberdade daquela noite.
Eu demorei a cair, foram três golpes até que meus pulmões se inundassem em sangue e meu corpo tombasse. Meus olhos ainda conseguiram ver alguns de meus irmãos sumirem no horizonte e minha alma se despediu dessa vida com um pouco de luz por perceberem que alguns dos meus irmãos conseguiram escapar desse trágico final.
Desencarnei e minha alma vagante descobriu que meus irmãos, aqueles que pensei terem escapado, foram trucidados, encontraram Teixeira Nunes, mas foram emboscados e morreram juntos ao seu comandante.
O sonho de liberdade se despedaçou no aço da espada, na dureza do estanho pela acidez das intrigas e na avareza da ambição.
Tratados foram assinados com o sangue dos negros, usando a pena da covardia e o escárnio de tiranos. Porongos pôs uma mancha na história que os alfarrábios esqueceram e o sul ovaciona heróis esquecendo que sem a força dos lanceiros não haveriam vitórias, sem os negros valorosos, a guerra de dez anos duraria uma investida e mais nada.
Eu peço perdão em nome de todos esses malditos e brado ao tempo e ao vento: “Salvem meus irmãos negros, salvem lanceiros negros de Teixeira Nunes, enquanto eu puder, suas almas serão exaltadas por trabalhos valorosos aos ideais do povo gaúcho”.
Porongos nunca mais...
Comentários: