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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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As falácias por uma visão turva

Afirmaria isso na frente do juiz de direito e do comissário?

As falácias por uma visão turva
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Rememorando meu velho e sábio avô, Dom Barulho, ele já dizia (desprendido de dogmas e crenças), calçado em toda a sua filosofia arcaica, que o ponto de vista não depende só do ponto, mas também da vista.

Parece uma observação capciosa, um tanto quanto redundante e sem propósito. Que tolice eu achar que meu avô estava caducando. O tempo nos ensina a perceber as coisas que nem sempre a soberba da juventude nos permite, meu avô era sábio, o ignorante era seu neto, arrogante e pretencioso.

Pontos de vista são percepções próprias, de imagens cotidianas que construímos mentalmente, mesmo que de situações corriqueiras e que não significam verdade. São as verdades de cada observador. E verdades próprias estão interligadas com crenças, com a psique que constrói nosso certo e errado.

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Pois bem, se depende do ponto, ponto nos remete a uma questão de perspectiva e isso muda completamente a interpretação do fato. Em perspectivas distintas, algo redondo pode ficar quadrado, algo claro pode parecer escuro, algo simétrico pode parecer disforme, enfim o ponto tem influência dependendo da perspectiva.

Imaginem então a visão nessa questão de observação. Se os olhos turvam, ou ofuscam, acabam por distorcerem tudo o que veem, daí então se distorce a mirada do mundo.

O turvar da visão é proveniente da transformação de nossa mente, que por vezes perde a consciência de coisas simples, da percepção da retidão, da empatia, a perda da efetividade, da fraternidade e do afeto.

Olhamos uma cena, desconhecemos os fatos, mas já julgamos. Julgamos o ser pela roupa que veste, a natureza pela beleza que mostra, uma casa pela cor escolhida, enfim somos juízes sem espada nem balança e isso nos torna quase cegos, de visão turva e congestionada.

Eis que a filosofia daquele velho me toca até hoje de tão simples e precisa, quando tratávamos de falácias de fulano ou beltrano, quando ouvia minha avó ou minhas tias falarem mal de alguém, dizia ele com voz firme: Afirmaria isso na frente do juiz de direito e do comissário? Eita que a prosa encerrava.

Dom Barulho sempre me explicava as suas atitudes e sobre esse tema estávamos no galpão, ele preparando a encilha de um zaino entonado, eu na volta com uma petiça tordilha, aprendendo a prender o látego, me pediu para parar e olhar o morro que tinha no fundo do campo.

Mandou olhar pra onde a vista alcançasse e lhe relatar tudo o que tinha visto, fui narrando sem parar tudo. Quando terminei, com a pausa costumeira, ele me alertou que não falei da pitangueira que tem na tapera do posto do fundo, que está carregada de frutos e nem da cachopa de marimbondos no oitão da velha tapera com os bichos nervosos pelo calor.

Parei por um tempo sem entender (ele sabia que eu não podia ver isso de onde estávamos) e disse que ele estava louco, jamais viria isso, é muito longe.

Ele contestou que eu não poderia dizer que tudo o que ele me relatou não existia, afinal eu não tinha visto, mas ele afirmava que estava lá.

Respondi com um “Entendi vô!” Seguimos em direção ao posto do fundo e fomos passando pela tapera, não vi pitangueira, nem marimbondo, muito menos oitão, a antiga casa era ruína despedaçada ao tempo.

Não falei nada e seguimos, mas me roncou nas tripas e indaguei sobre o que havia dito Dom Barulho, meu avô tão querido, mentiu pra mim pensei. Que nada, tapa na cara do piazote.

Ele apeou e fez eu olhar o rancho, disse com voz calma e tranquila:

“Por mais que confies no teu avô, um dia ele pode ter tido a visão turva e o que ele vê do mundo não é o mesmo que tu verás. Vá ao encontro das verdades que te soam verdadeiras, baseado mais nos fatos vistos que nas convicções relatadas, assim pode imprimir tua mirada, sem que turvem as lentes do caráter, da hombridade e do discernimento. Teu avô sabia que não havia nada do que disse, mas tu acreditasses porque me conhece, pois bem, até teu avô é falho e o mundo se apresenta diferente a cada ser. Seja teu próprio juiz meu neto, mas nunca juiz dos outros, nenhum homem pode julgar porque apenas o Divino tem pleno conhecimento do que deve ser julgado. ”

Eu chorei, agradeci ao grande arquiteto do universo pelos ensinamentos e prometi que seria juiz de mim mesmo, para que eu possa mudar meu coração sem pretensão de mudar os outros.

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Mário e Tainara

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Mário e Tainara

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