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Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

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Ataque extraterrestre

Marcianos invadem a Terra

Ataque extraterrestre
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Ando muito atento a repercussão das passagens dos trens de satélites da Constelação Starlink, enviados pela SpaceX ao espaço recentemente. 

O envio destas frotas de satélites faz parte de um audacioso e espetacular projeto que ambiciona a distribuição de sinal de internet, de forma gratuita, no mundo inteiro. Realmente um empreendimento capaz de deixar a gente de queixo caído, povoar nossos pensamentos e instigar a nossa imaginação. 

Esse encanto curioso e temeroso sobre o que há de mais misterioso muito além da estratosfera terrestre é algo presente e estimulado dentro do que podemos chamar de certa forma de Cultura Global. 

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Desde os mais remotos tempos, do princípio da observação dos astros, até os experimentos atuais que nos possibilitam cada vez mais o aprofundamento na exploração dos aspectos mais intrigantes do que chamamos de infinito, o ser humano vem tentando entender a sua origem, descobrir curas, especular novas formas de colonização e dominar tecnologias que determinem vantagens nessa eterna corrida espacial. 

Constantemente nos pegamos olhando para as estrelas e divagando. Noites estreladas nos fazem, quase por instinto, mergulhar nesse enorme abismo invertido. 

Esse hábito fascinante e natural também vem sendo estimulado por essas aparições dos “trenzinhos” de Elon Musk. 

Eu ainda não consegui ter a sorte de ver esse novo “fenômeno” passando sobre a minha cabeça. 

Até baixei um aplicativo de celular que me avisa quando os satélites estão passando aqui sobre a nossa cidade, mas não tenho dado muita sorte. 

O avistamento depende de algumas condições bastante específicas como luminosidade do céu, ausências de nuvens e ângulo do Sol em relação ao horizonte.  

Ultimamente a frota de satélites tem passado ou durante o dia, ou escondidos pelas nuvens de chuva que impedem a sua visualização. 

Eu sigo ansioso para ver e imaginando que, talvez, muito em breve essas aparições serão cada vez mais presentes na nossa rotina. 

Cada tempo tem a sua rotina e normalidade. Logo essa etapa das nossas experimentações estará assimilada e naturalizada pela nossa curiosidade. 

Mais uma fase nessa conquista do misterioso espaço.  

Dessa vez voltada muito mais para a Terra do que para a descoberta de outras civilizações além de nossa Galáxia. 

Essa curiosidade, que é a principal na jornada espacial, talvez permaneça indissolúvel por muito tempo.  

Talvez essa seja a nossa curiosidade de estimação.  

Não imagino um ser humano que não tenha se perguntado ao menos uma vez sobre a possibilidade de não estarmos sozinhos no Universo. 

É uma dúvida presente inclusive nas discussões filosóficas ao redor da exclusividade ou não de nossa própria existência. 

 Sempre imaginamos os extraterrestres como potentes civilizações “bélico-tecnológicas” invasoras e colonizadoras que chegam para nos dizimar (somos, nesse contexto, os indígenas do Universo). 

Todo esse pensamento me fez lembrar de uma história maravilhosa que aconteceu nos Estados Unidos na década de 30, no estado de Nova Jersey, mais precisamente na cidade de Grover's Mill. 

Esse é um daqueles casos que nos mostram o quanto a Arte e a vida real podem se confundir a ponto de já não mais conseguirmos distingui-las. 

A história que vou relembrar aqui, mostra como uma obra de ficção pode, por exemplo, acertar de forma tão precisa nossos medos ligados à autodefesa e aos instintos mais primitivos. 

Na noite do dia 30 de outubro de 1938, a programação da rádio CBS (Columbia Broadcasting System) foi interrompida para anunciar uma impressionante invasão alienígena.  

O relato que durou algo em torno de uma hora, nada mais era do que uma peça de rádio teatro. 

A veracidade com que os eventos eram narrados e a fictícia coleta de depoimentos e informações alarmantes sobre a suposta invasão extraterrestre acabou por causar uma onda de pânico em várias cidades nos Estados Unidos. 

Naquela época, a CBS apresentava o programa Mercury Theater on the Air, de Orson Welles. 

No mesmo programa já haviam sido apresentadas adaptações de outras peças teatrais como Drácula, A Ilha do Tesouro e A Volta ao Mundo em 80 Dias, porém nenhuma delas conseguiu ser responsável por tamanha repercussão como no caso da leitura escolhida para aquela noite. 

O texto escolhido foi uma adaptação da obra Guerra dos mundos, de Herbert George Wells, publicada em 1898.   

O enredo da história tem início a partir da observação de explosões em Marte, seguidas por aterrisagens de misteriosos cilindros nos arredores de Londres.  

Esse é o começo da invasão alienígena ao Planeta Terra e, após esse ataque hostil, somos obrigados a organizar uma evacuação em massa em busca de segurança.  

A peça narrada na noite do dia 30 de outubro de 1938 foi atualizada para o presente da época e apresentada em forma de noticiário.  

O formato de exibição e um enredo dos eventos que colocou o Estado de Nova Jersey no centro dos acontecimentos fez com que os desatentos encarassem aquilo como realidade. 

A dramatização da história, transmitida próxima as comemorações do Halloween, utilizando-se do formato comum aos programas jornalísticos, tinha todas as características do radiojornalismo da época. Obedecia a linguagem com a qual os ouvintes estavam acostumados.  

Todos os detalhes foram pensados e a execução foi suficientemente verossímil para gerar pânico nos ouvintes desavisados. 

Foram simuladas reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento e opiniões de peritos e autoridades.  

Efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas temperavam a narrativa, estabeleciam a atmosfera perfeita para o caos e estimulavam a percepção de realismo da situação insólita.  

Toda a organização da apresentação dava a nítida impressão de o evento estar sendo transmitido ao vivo.  

O programa era transmitido em formato de plantões que iam interrompendo as músicas que estavam sendo tocadas na programação “normal”. 

A transmissão continuava de forma crescente, narrando a evolução da dramaticidade dos fatos que supostamente estavam em curso.  

As interrupções prosseguiram e se intensificaram na medida em que mais informações chegavam. O “repórter” Carl Phillips passou a transmitir em tempo integral direto da cidade de Grover's Mill, onde descobriu-se que um dos supostos meteoros caídos era, na verdade, um estranho cilindro de metal.  

A tensão foi construída cuidadosamente. Foram elaboradas entrevistas fictícias com autoridades e apresentada uma espetacular descrição do monstro que saia de dentro do cilindro metálico. 

O primeiro confronto dessa batalha contra os invasores extraterrestres terminou com 40 mortos.  

No segundo ataque, infinitamente mais violento, 7 mil homens do exército, armados com rifles e metralhadoras, foram aniquilados com raios de calor.  

Após os primeiros confrontos, novos cilindros foram localizados aumentando o território sob ataque alienígena 

Os marcianos seguiam sua saga de destruição em território estadunidense e atacavam de forma brutal a ilha de Manhattan, destruindo e matando com gás venenoso. 

Enquanto isso, países aliados como Inglaterra, França e Alemanha se preparavam para oferecer ajuda nesse combate sem precedentes. 

O medo desencadeado paralisou três cidades, causando pânico principalmente em localidades próximas a Nova Jersey. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores também em Newark e Nova York. 

Os principais responsáveis pela transmissão foram Orson Welles (responsável pelo programa da rádio), que dirigiu e interpretou, juntamente com Howard Koch e Paul Stewart, responsáveis também pela adaptação do roteiro.  

Essa transmissão foi a responsável pelo impulso na carreira de todos eles, garantindo contratos e trabalhos futuros, tornando-os conhecidos mundialmente. 

A Rádio CBS informou que, de acordo com seus cálculos, cerca de 6 milhões de pessoas haviam escutado a transmissão de Guerra dos Mundos.  

Conta-se que, na noite do ocorrido, as linhas telefônicas da rádio, e da polícia local, estavam congestionadas. Os ouvintes estavam desesperadamente em busca de informações. 

É fato que houve muita repercussão, principalmente devido ao conteúdo das manchetes que surgiram na esteira desse acontecimento.  

Entretanto, segundo o serviço de comunicações que realizava pesquisas na noite da transmissão, ainda restaram controvérsias quanto ao número de pessoas atingidas por esse pânico no momento da transmissão. 

Há relatos também de processos judiciais que foram abertos contra Orson e seus companheiros. Mas nenhum foi bem-sucedido. 

A Comissão de Comunicações do governo dos Estados Unidos exigiu uma cópia do programa para que pudesse analisar o conteúdo. Um senador chamado Clyde L. Herring divulgou à imprensa sua intenção de levar ao Congresso uma lei para regular as transmissões de rádio para que incidentes como aquele não tornassem a acontecer. 

Os responsáveis pela rádio argumentaram que, além de costumeiramente apresentarem performances radiofônicas de textos teatrais naquele programa, procederam de forma correta na divulgação da exibição ao longo da programação, alegando que antes do início da transmissão foi anunciado de que se tratava de uma obra de ficção dentro de um programa de rádio teatro.  

Devido à forte concorrência do grande campeão de audiência à época, Chasen and Saborn Hour, da NBC, muitas pessoas que foram surpreendidas pela narrativa, não estavam ouvindo a rádio no momento do anúncio de que se tratava de uma representação. 

Entende-se que o que pode ter proporcionado o tamanho mal entendido foi a migração de ouvintes durante um dos momentos de intervalo do líder de audiência.  

Alguns desses ouvintes, ao buscar sintonia com outro programa de seu interesse, acabaram se deparando com o relato super dramático e verossímil difundido na Rádio CBS.  

Sendo assim, muitas pessoas que pararam para escutar aquelas informações impressionantes não sabiam que, de fato, se tratava de uma peça teatral. 

De toda forma, pensando nos que acreditaram de forma ingênua nos relatos fantásticos, sendo grande ou não o número de enganados, deve ser levado em consideração que na época, o rádio era a principal fonte de informação, principalmente em áreas rurais.   

O país acabava de passar pela Grande Depressão de 1929, e já se considerava a eminência de uma Segunda Grande Guerra o que despertava uma certa tendência a paranoias e medos exacerbados.   

Somando-se a tudo isso, a genial ideia de transmitir em formato jornalístico caiu como uma luva. 

Houve relatos de pessoas que, durante a crise de pânico, chegaram a sentir o cheiro do tal gás venenoso dos marcianos.   

Ninguém duvida que tenha atingido um enorme número de pessoas, porém, independente de quantas pessoas de fato foram “atingidas” por essa performance memorável, essa fatídica apresentação de rádio teatro repercutiu e é lembrada até hoje. 

Alguns anos depois, houve em outros países, transmissões semelhantes à realizada por Orson Welles, com resultados parecidos.   

Em 1944, em Santiago do Chile, uma rádio realizou uma transmissão parecida que acabou mobilizando tropas de infantaria. 

Em 1949, a Rádio Quito, no Equador, realizou a transmissão de uma versão do texto que acabou com o povo incendiando a rádio.   

O Brasil não poderia ficar de fora. 

Em 1971, a transmissão de uma adaptação de Guerra dos Mundos comemorou o aniversário da Rádio Difusora, de São Luís do Maranhão. Essa apresentação, assim como ocorrera 33 anos antes durante a emissão americana, também movimentou e transformou a rotina da cidade durante a sua execução. 

Lá se vão mais de 80 anos e nossa desconfiança relacionada a um eminente ataque ainda alimenta a nossa imaginação.  

Nossos olhares continuam voltados para o infinito em busca de respostas. Alguns de nós inclusive torcendo pela invasão de uma civilização extraterrestre mais evoluída. 

A Arte nos presenteou com muitas obras interessantes dentro desse imaginário.  

O Cinema e a Literatura se apropriaram dessa temática de forma magistral e a consequência disso são as nossas inúmeras referências de best-sellers e blockbusters relacionados a esse tipo de ficção científica. 

Agora, nesse estágio da nossa evolução tecnológica da vida real, chegou o momento de os trens de satélites serem colocados no espaço entre nossas cabeças e o desconhecido para, pelo menos, podermos nos comunicar de forma eficiente e “gratuita” durante a tão aguardada invasão extraterrestre. 

Seguimos observando. 

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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