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Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

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Regresso

Caminha por uma viela de Montevidéu, as vielas decadentes e afetadas de Montevidéu. Talvez na viela mais deserta de Montevidéu. E nela uma livraria mínima, de acesso intrincado e fumaça saindo pela porta. Entra e se assusta com a quantidade de livros assombrosa num espaço tão pequeno. O dono, parece ser o dono, usa aqueles óculos de John Lennon e fuma atrás do balcão como num filme francês atual que quer ser antigo. Pergunta por livros de Quiroga, de Morosoli, mesmo de Borges (se estivesse na Hungria, ainda perguntaria por Borges). O dono da livraria desiste do cigarro e apresenta seu repertório: versões raras, lombadas alquebradas, capas envelhecidas.

Escolhe uma coletânea do Quiroga, que muito tempo depois ainda não terá lido. O que mais intriga, porém, é a trilha sonora da livraria, algo que sugere jazz, mas com uma pegada mais ligeira, apressada, maliciosa. Pergunta. O uruguaio acende outro cigarro, assume ares de mago da tribo, balançando a cabeça em ordem vertical e com os olhos semicerrados, como quem vai dizer algo muito importante. Toma nota do nome do guitarrista num cartão de visitas da livraria e entrega ao cliente. A despedida é quase silenciosa, como se respeitassem a música. O uruguaio envolto na fumaça que sobe lentamente e desaparece antes de se chocar com a caixa de som no alto da parede.

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Anos depois, encontra o cartão numa gaveta. O nome da livraria na frente. No verso, a letra desenhada do uruguaio diz Django Reinhardt. Pesquisa sobre ele, encontra algumas músicas no Youtube. E logo que os primeiros acordes soam, uma certeza se impõe: toda vez que ouvir as músicas desse guitarrista belga conhecido pela origem cigana, toda vez que ouvir seu jazz místico em dedilhar transtornado, regressará o uruguaio e sua letra desenhada, regressará a livraria de cuja chaminé é a porta, regressará a viela deserta, a viela afetada e decadente de Montevidéu.

 

Luz

A luz é rosa e cai de lá do céu. Não se surpreende o trânsito que ela faz até o rio. Ela é rosa lá no céu e é rosa cá embaixo no rio.  O trajeto sempre nos é sonegado. Há a fábrica soltando fumaça ao fundo. O trapiche de madeiras tortas com algumas pessoas sobre ele. A água rosa do rio numa queimadura benigna que não assusta as madeiras.

Eu te vejo de longe, crescendo no pouco do passo que se aproxima sem convicção. E é como se eu pudesse fotografar esse momento:  o teu passo no calçadão como se o calçadão queimasse do rosa do rio e do rosa no céu, como se essa queimadura benigna que desaba invisível sobre as águas imensas ao nosso lado te ajudasse a adiar  o encontro, numa operação que expande a saudade pela denúncia de seu objeto aos olhos, mas amarra com nós mais firmes o abraço de logo mais responsável pela sua extinção.

O rosa do céu, o rosa do rio, o trapiche torto, as pessoas no trapiche torto, a fábrica de fumaça, o calçadão que imita a queimadura, tudo então vira uma bola escura, sem forma definitiva, sem cheiro, sem som. Porque o abraço é dado de olhos fechados. E nossos sentidos sempre são raptados por ele.

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Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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