Repórter Guaibense

Domingo, 30 de Agosto de 2026

Colunas/Geral

Com o passado na memória

Algumas coisas se perderam no passado, mas não se apagarão da memória...

Com o passado na memória
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Convido-os a ler as colunas dos meus colegas colunistas (meio redundante isso), porque lendo e condensando as ideias e mensagens que propõem, confesso que me enchi de boa energia, aflorando um saudosismo salutar.

Existem coisas que acontecem, aconteceram ou acontecerão só em um determinado lugar, como por exemplo são, as coisas que conhecemos como folclore local, ou tradição regional. Aliás, em uma próxima oportunidade vou explicar aos leitores que a tradição nos remete ao passado mais remoto, histórias de antanho que os alfarrábios escondem dos desavisados. Já o tradicionalismo é contemporâneo, algo recente que foi despertado pelo resgate dessa mesma tradição, mas isso é tema pra outra prosa.

Agora o potro alçado chamado saudosismo me levou para longe, me vi um piazito, melena enredada, calças curtas, sandálias de couro marrom da Ortopé, sentado num banquinho tosco, trocando conversa a beira de um fogão a lenha com o meu avô, Seu Osvaldo “Barulho”. Ele magro, alto, cuia na mão, barba por fazer, olha-me fixo contando suas façanhas de quando era capataz de estância chefiando a peãozada. Coisas que me marcaram profundamente.

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Esse mesmo avô, que enfiava as mãos sobre o cós das calças e saía como um coronel vistoriando o terreiro, adorava ver os netos jogar bolita. Era só pra surrupiar alguma, muy vivaracho, escondia e depois fazia mágica de aparecer as bolitas que haviam sumido. É eu jogava bolita com meus primos, hoje em dia não se vê mais essa brincadeira por essas bandas...

Meu avô também, quando podava uma árvore, ensinava a escolher a melhor forquilha, aquela com certeza seria a funda que usaríamos para caçar passarinho (me sinto que fiz parte dos destruidores da natureza). Passarinho, que nada, no âmago de sua mente ele sabia que não acertaríamos nem as latas de azeite “Violeta”, hoje o plástico engoliu as latas de azeite e acabaram com as partidas de taco na rua da frente. Com pedaços de galhos (dependendo do desenho) podíamos fazer armas, andávamos sempre armados, afinal o Forte Apache, o Zorro e Bonanza eram clássicos da época. Isso quando não assobiávamos o Dólar Durado, fingindo duelar entre primos e amigos. Ninguém queria morrer, era sempre uma briga.

Algumas vezes meu avô saía pra cancha do “Gringo”, jogar uma bocha, as vezes (quando estava de bom humor e a gente não infernizava) ele nos levava pra ver que ele era bom na bocha. O Fernando do Gringo (filho do dono do local) era gaiteiro, dos bons, tocava Gildo de Freitas, Teixeirinha, José Mendes entre outros, enquanto o jogo corria solto, ele alegrava o ambiente com um gaitaço de primeira. Isso ocorria entre as duas horas da tarde até umas cinco e meia, daí o vô lembrava que precisava ir fazer o mate da tarde e voltávamos para casa. A vó esperava com uma cuca, um pão caseiro, manteiga e uma chimia de goiaba (que ela mesmo fazia) que era dos anjos. Aliás a minha avó era a cara de um anjo, desses de cabelo completamente branco e olhar meigo, costureira, cozinheira e uma vó dessas que não se faz mais por aí.

Também tinha, as quintas feiras, nossa incursão ao rinhadero. Dizia ele que minha avó nem minha mãe sabiam que íamos lá, era nosso segredo. Pra mim era um lugar espetacular, parecia o coliseu dos galos. Imaginem num círculo de terra rodeado por arquibancada, também circular. A arquibancada bem ajeitada, forrada de uma napa vermelha no acento e pintada de cal branca nas madeiras que as sustentavam. O dinheiro rolava e quando perguntei pro vô, pra que o dinheiro ele disse que pra ver o espetáculo tinha que pagar ingresso, que sem vergonha, era jogo de aposta e ele me passou a perna. E os galos de pescoço comprido e pernas ágeis se puavam com suas esporas revestidas de aço, uma luta sanguinária que fazia o povo a volta extasiar-se por momentos.

No domingo, quando reuniam-se todos na casa do vô e da vó, quebrávamos a rotina dos dois, o vô desligava o rádio que ficava sintonizado nas notícias a espera do Grande Rodeio Coringa e a vó não ia poder acomodar-se na banqueta para assistir o Silvio Santos.

Não importava a estação do ano, o tempo, nem a temperatura, o fogão de lenha estava sempre de prontidão com a chaleira cheia de água pra o mate e o forno aquecido pra alguma guloseima.

Em épocas de frutas, tinha também o revezamento para mexer a pá de madeira no imenso tacho de cobre, de onde saiam chimias e doces de cortar maravilhosos. A mão de obra era dos netos, que se revezavam na tarefa pra depois saborear as doçuras.

Nesse mesmo fogão, no mês de julho, tinha o preparo do famosos mocotó do vô, ele gostava de preparar o mocotó pro aniversário, a vó tirava um pouco da graxa de mocotó e fazia umas rapaduras que eram deliciosas.

Com esse casal de velhinho aprendi a gostar das coisas simples da vida, entendi que a gente tem que se preocupar em “ser” não em “ter” porque quando se vai pro outro lado, tudo que tu tem fica pra trás, mas tudo o que tu foi permanece vivo nas pessoas. Aprendi que o gari e o médico têm o mesmo valor, só que eu profissões distintas.

Se hoje posso falar de como se faz pandorga, como jogar bolita, como costurar um botão, montar a cavalo, fazer uma funda, enfim dessas coisas que o tempo apaga da vida, mas não da memória, foi porque atenciosamente escutei meus avós. E não pense que meu avô me ensinou que ir ao rinhadeiro era certo, que passar a tarde na cancha de bocha no sábado era perfeito, não. Ele tinha seus vícios em vicissitude, mas sempre me explicava o que era certo e errado.

Adoro interagir com todos os públicos, também porque meus avós me proporcionaram isso, de tratar a todos de forma igual e respeitosa.

Algumas coisas se perderam no passado, mas nunca se apagarão da memória...

FONTE/CRÉDITOS: Gavetas da memória de Mário Terres; Foto: Maris Strege
Comentários:
Mário e Tainara

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Mário e Tainara

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