Repórter Guaibense

Sabado, 23 de Maio de 2026

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Cultura em movimento

O setor cultural quer participar efetivamente da construção

Cultura em movimento
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Como comentado na coluna passada, o clima de incerteza tomou conta das discussões no setor cultural da cidade de Guaíba. Desde os primeiros dias da eleição de Marcelo Maranata para a prefeitura de Guaíba, uma série de especulações e dúvidas vieram à tona chamando a atenção dos artistas e agentes culturais. Para tentar entender melhor e participar das tomadas de decisões que envolvam o nosso contexto cultural local foi criado um grupo de observação e discussão acerca das informações obtidas durante o processo de transição. 

O grupo, denominado Cultura em Movimento, é formado por artistas de diversos segmentos, fazedores de cultura e disseminadores dos mais variados saberes. O intuito é a participação na tomada de decisões, contribuindo para que os caminhos escolhidos de fato contemplem esse setor tão importante para a sociedade. Até o momento estão sendo organizadas e executadas uma série de reuniões que tratam dos mais variados aspectos pertinentes ao ambiente e fazer cultural. 

Umas das primeiras ações do movimento foi a publicação de um manifesto salientando o poder de mobilização dos agentes locais e exigindo a participação efetiva durante a preparação das políticas culturais locais. O manifesto publicado conta com a assinatura de algumas das mais importantes instituições culturais de nossa cidade e, em sua versão online, a petição já ultrapassou a casa das 700 assinaturas.  

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Ao contrário do que alguns detratores do movimento tentam argumentar, esse movimento é de apelo popular e se formou de forma orgânica a partir da percepção dos profissionais em relação aos rumos aparentemente escolhidos pela nova administração municipal. Pessoas desinformadas (ou com interesses escusos) passaram a atacar um movimento legítimo e formado pelos verdadeiros interessados no desenvolvimento da Cultura local em suas mais variadas vertentes. 

Está havendo uma tentativa de deslegitimação de um movimento plural e organizado a partir de uma lógica de valorização dos trabalhadores e coletivos de Guaíba. Alguns vizinhos mal intencionados começam a levantar a hipótese de que esse movimento PURAMENTE POPULAR tem como intenção defender a gestão passada da pasta da Cultura. Uma falta de percepção do contexto local, faz com que as pessoas tendam a pensar as ações do movimento a partir de uma lógica torpe que aponta para a troca de interesses e prevalecimento de alguns. Quem alega isso não tem noção do tamanho e abrangência deste incrível e histórico movimento. Acredita que os agentes culturais estão em busca de alguma vantagem no novo governo que começa em poucos dias. 

Cada um pensa de acordo com o que tem na mente e no coração, não é mesmo? Este movimento busca a expansão de nossas condições de trabalho e maturação no relacionamento com o poder público. Ao contrário do pensamento raso do senso comum, a Cultura envolve muito mais que um conjunto de práticas artísticas visíveis em uma apresentação. 

Segundo a pesquisadora Daniela Diana, em seu artigo "O que é Cultura?",  a “Cultura é um conceito amplo que representa o conjunto de tradições, crenças e costumes de determinado grupo social. Ela é repassada através da comunicação ou imitação às gerações seguintes”. Assim, a cultura representa o patrimônio social de um grupo funcionando como a soma de padrões dos comportamentos humanos e que envolve: conhecimentos, experiências, atitudes, valores, crenças, religião, língua, hierarquia, relações espaciais, noção de tempo, conceitos de universo. 

Segundo a mesma autora, “a cultura também pode ser definida como o comportamento por meio da aprendizagem social”. Essa dinâmica dos diversos saberes e fazeres consagram a Cultura como um precioso instrumento para a sobrevivência e desenvolvimento da espécie humana.  

Essa dinâmica construção tornou-se um dos focos da antropologia desde os estudos de Edward Tylor (1832-1917). De acordo com suas pesquisas o estudioso britânico salienta que "a cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade". 

Além dessas abordagens mais humanas e históricas da Cultura enquanto agente de construção de desenvolvimento humano, cabe ainda, mais uma vez, salientar a Cultura como um poderoso vetor de desenvolvimento econômico. Enquanto alguns desinformados e levianos afirmam que a Cultura “não faz o rancho”, o Setor Cultural emprega quase 10 milhões de pessoas de forma direta e indireta em nosso país, contribuindo com algo em torno de 4% do PIB nacional, mesmo com um investimento de menos de 1% do orçamento federal. Por meio da dinâmica do fazer cultural, diversos negócios são impulsionados contribuindo para que a roda da economia possa se manter constantemente em movimento. 

Todos esses aspectos sociais, humanos e econômicos devem estar sobre a mesa de planejamento quando se pensa em proceder com qualquer mudança drástica dos rumos da política cultural local. Todos esses apontamentos servem para demonstrar o quanto a Cultura precisa ser ainda mais debatida e entendida como uma das principais ferramentas de desenvolvimento humano e econômico. Temos um jovem Sistema Municipal de Cultura que precisa ser aprimorado e assimilado pela nossa cidade. Não podemos mudar tudo da noite para o dia como se essa construção fosse apenas obra de um governo municipal que está em fim de mandato. 

Nós, agentes e trabalhadores da Cultura queremos ser respeitados e escutados. O movimento não é personalista. Nem em sua condução (ampla e democrática), muito menos em seu estímulo principal que visa o coletivo e as ações que vão além do tempo e pessoas presentes. 

Para que não haja mais dúvidas sobre as intenções desse MOVIMENTO LEGÍTIMO, deixo, para a apreciação dos queridos leitores, o Manifesto na íntegra, incluindo também os nomes das instituições que assinaram o manifesto antes mesmo de sua publicação. Se, na cabeça de alguns pervertidos morais, a intenção é “arranjar uma boquinha” precisaremos não apenas de uma Secretaria de Cultura, mas sim de um estádio de futebol para abrigar todos os “interesseiros” de plantão. 

Dizer que o que justifica esse Movimento são interesses pessoais é, no mínimo, desrespeitar a trajetória das instituições que o compõe de forma digna e com um único propósito: ajudar democraticamente a fazer cada vez melhor. Então, para evitar a vergonha imposta pelas limitações de conhecimento sobre esses assuntos, leia o manifesto em sua íntegra e deixe seus preconceitos de lado. 

A Cultura tem seu papel de relevância nas dimensões cidadã, econômica e simbólica. Isso não pode ser debatido por leigos e sem a participação efetiva e valorizada dos principais interessados. 

Não usem o governo anterior como desculpa para cometer novos erros. Não se limitem a isso. O Setor Cultural, formado por centenas de pessoas, busca diálogo. Nada mais que isso. Nada além do que já buscávamos antes. 

Segue o manifesto: 

Ao executivo municipal: 

 
Guaíba é uma cidade repleta de expressões culturais. No campo da Memória e do Patrimônio é rica em colaboração para a identidade gaúcha e dialoga com a territorialidade latino-americana na história contemporânea. Em nossa cidade possuímos uma diversidade de agentes, espaços, coletivos e entidades culturais com atuação voltada às expressões artísticas, à pesquisa, aos saberes e fazeres populares e à produção cultural, que movimentam a economia criativa. 

Por isso defendemos a existência de uma Secretaria de Cultura com atuação no atendimento específico das demandas do setor cultural. Defendemos uma Pasta de qualidade, que dê seguimento ao calendário cultural já existente e qualifique o desenvolvimento das Políticas Públicas voltadas à Cultura.

Defendemos que a Cultura em nossa cidade possua uma Pasta forte, sólida, ética, que fomente a criação e a fruição estética e preserve nossos Patrimônios materiais e imateriais; com políticas públicas que garantam a salvaguarda de nossos Patrimônios Tombados. Que siga os preceitos do artigo 215 da Constituição Federal e garanta a produção, promoção e difusão de bens culturais; a formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; a democratização do acesso aos bens de cultura; e a valorização da diversidade étnica e regional.

Acreditamos que a Cultura deve ser compreendida como uma rede complexa de significados com sentidos inseridos no cotidiano da vida em sociedade, onde os sujeitos se utilizam dessa significação para se relacionarem consigo mesmos e com o meio. A Cultura é o conjunto de características que singularizam e dão identidade ao povo. Acreditamos nos Direitos Culturais como Direitos Humanos. E é dever do Estado exercer, manter e estimular a Cultura por todos os meios ao seu alcance, porque a Cultura é a mais elevada expressão social e histórica do espírito. Relembrando o Artigo XIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, entendemos que toda pessoa tem o direito de tomar parte na vida cultural da coletividade, de gozar das artes e de desfrutar dos benefícios resultantes do progresso intelectual.

Com isso, ao pensarmos a Cultura em Guaíba, devemos buscar a multiplicidade e a singularidade das manifestações Culturais em suas origens, histórias e memórias, bem como compreender criticamente a realidade Cultural do presente em suas novas formas e problemáticas. Devemos usufruir de Políticas Públicas voltadas ao atendimento das necessidades culturais do povo e que garanta espaços de atuação e mercado para os trabalhadores da cultura.

Preocupados com o desmonte da Secretaria de Cultura, nos posicionamos contrários a fusão com a Secretaria de Educação, solicitamos audiência com a nova gestão do executivo municipal e assinamos este manifesto.

Associação Amigos do Meio Ambiente - AMA;
Associação dos Povos Tradicionais de Matriz Africana da Costa Doce;
ASSUNTINA Produções Culturais e Núcleo Teatral;
ATG;
Banda Cabernet's;
Banda Little Red Rooster;
Bloco Se Preste;     
Casa de Gomes Jardim;
Café com Letras;
CELIG;
Coletivo de Capoeira de Guaíba;
Coletivo Cosmopolitanos;
Coletivo Talísia;
Comparsaria das Façanhas;
Editora Palavreado;
Espaço Livre Biguá;
Estação de Sonhos Escola de Arte;
Guaíba Foto Clube;
Grupo Cultural Afro Oliveira Silveira;
Grupo Teatral Realejo EnCena;
Gruvila;
Ilé Àse Alaketu Odara Enìkedjí - Candomblé ketu;
Leialogo;
Molera Boys Club – Mbc;
Núcleo de Teatro;
Pai Valdir d’oxalà;
Pelas Tabelas;
Pequena Serenata;
Sociedade Recreativa e Esportiva Império Serrano;
Teatro de Fato;
Terreiro Estrela do Oriente;
Terreiro Colina Verde;
Shakti Yoga.

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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