Quem lê nossas colunas lembra que escrevi na coluna anterior sobre as individualidades.
“Cada um tem suas verdades, gostemos ou não. Isso é intrínseco ao ser humano, nasce, cresce e se apropria das suas verdades, defendendo-as ferrenhamente, mesmo que sejam frutos da subjetividade, mas são suas e não cabe a outros buscar desfazê-las. ”
E isso é bem verdade, desculpem o trocadilho. Verdade devem ter embasamento, deve ter algo que referencie o argumento de que é uma verdade.
É que nem a perda, perder algo só o que se tem, se não temos não podemos perder, concordam?
Pois bem, o velho avô Dom Barulho certa feita me provocou reflexão tão profunda que me fez revisitar conceitos e mudar algumas das minhas verdades, algumas das mais profundas que eu carregava até então.
Estava no galpão, pitando um palheiro com yuyos (lia-se jujos) de figueirilha, exalando uma fumaça de cheiro adocicado pelo ar, preparava uma encilha e já no estender da conversa, me avisou pra pegar um basto e preparar um ruano que ele ia na gateada pra dar uma desenferrujada na carcaça.
Tínhamos que dar uma tropeada em uma tropilha que foi transferida do posto do fundo.
Saímos de passos lentos, olhando o mundo e deixando o vento bater no rosto, refrescando o calor que o sol nos entregava.
Falávamos de coisas cotidianas, ele falava das lidas e eu falava das perdas, que o fulano perdeu as terras, que a cicrana perdeu o carro, o cunhado da outra perdeu o emprego, no meio de tantas perdidas o velho me veio certeiro como facada de sangrador.
- Meu neto, não perdemos o que não temos.
Fiquei com cara de “sem rumo” e falei que não tinha entendido o que ele tentava me dizer.
Na sua reflexão ele trouxe sentido pra o que pensava e com isso, me fez refletir sobre as verdade que até então eram minhas.
Um campo, cheio de gado, imagina. Daquele que enchem os olhos de qualquer homem rural. O sujeito compra e enche cada vez mais o campo, daí vai dar uma campereada, o boi atropela, ele planta a figueira (jargão pra quem cai de cabeça de sobre o cavalo) e bate as botas.
Tudo o que ele tem vai com ele pro “outro lado”, no céu dos rurais tem um campo esperando que chegue as vacas, os bois, o pasto verdejante e tudo mais se ajuste pra ele seguir campereando?
A resposta era uma só, um NÃO bem curto e grosso. Aquilo já me incomodou na arrancada, mas seguiu e eu nem pensei em interromper.
O carro, qualquer desses automóvel mais bonito, cheio de firula que o pessoal gosta de enfeitar. Vai no posto botar gasolina, deixa o auto ali no sol e de repente pega fogo. Acabou, não é de ninguém.
Um emprego? Tu trabalha, bate o ponto, horas e horas dedicadas à uma empresa, deixa a família de lado, desgasta a saúde e em uma redução de custos ela te demite. Não era “teu” emprego?
Nada é nosso meu neto, nada nos pertence, somos almas em desenvolvimento, apenas passando por aqui para adquirirmos ensinamentos.
Uma mãe “perde” um filho. Todo falam que essa não deveria ser a ordem da vida, que ninguém merece passar por isso e coisa e tal.
Primeiro, ninguém perde ninguém porque ninguém é de ninguém, não somos donos de pessoas nem de vidas.
E a ordem das coisas são determinadas por quem? Onde escreveram ou desenharam essa tal ordem?
Sou assim um velho ignorante e sem estudo, mas creio que um ser mais poderoso que possamos imaginar construiu tudo isso e Ele tem o poder de designar o caminho e a caminhada.
Um Grande Arquiteto do Universo que nos oportuniza entender que essa passagem pode ser de aprendizado e afeto se soubermos entender essa premissa: Ninguém é dono de nada, apenas usuário.
As coisas acontecem sempre para trazer em si um aprendizado e esse aprendizado é o que nos torna, dia a dia, pessoas melhores, basta abrir as janelas da alma para aprender.
Depois dessa aula, mudei tantas verdades que esse avô me trouxe mais que tudo, reflexões sobre a vida e sua sinergia com o universo.
Dom Barulho se lavo na filosofia rural...
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