Seguindo a saga que me desafiei a escrever, com prosas imaginárias entre avô e neto, trago mais de Dom Barulho e suas histórias de vida. Sempre buscando curar as feridas de curiosidade de um neto questionador mesclando um dialeto rudimentar e campeiro com experiências mundanas.
Ele existiu realmente e me inspira diuturnamente, sempre rebuscava em suas histórias e ensinamentos palavras para usar como profilaxia as minhas inquietudes, entregando tudo sem cobrar nada.
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O CENÁRIO
Manhã de junho, serração forte e frio de dois graus, o avô mateia ao lado do fogão a lenha que acordou cedo para acender. Vestia bombacha cinza de favos, chinelo de couro, camisa de botões já batida do tempo de uso, boina preta sobre a melena gris e um pito criollo com figuerilha, que serve de incenso para espantar as energias negativas.
Fico quieto inicialmente, sentado a sua frente em um banquinho que ele mesmo construiu, calças de brim coringa, sapatos de camurça, camiseta maga longa e um blusão de lã que a mãe habilidosamente construiu, carrego também o brilho nos olhos de quem tem sede de aprender e conhecer as histórias desse velho senhor, rude e paciente, que chamo de avô desde que aprendi a falar.
OS QUESTIONAMENTOS
Acompanho com os olhos o movimento dele sorver cada gole de mate, (cada ruga naquele rosto deve ter uma história para contar) depois de esperar ele fazer roncar o mate, vem o pito com fragrâncias de figuerilha. Ele serve o próximo mate, enchendo a cuia direto da chaleira de ferro que está sobre o fogão, sempre fumegando, me oferece aquele mate topetudo de barão, bem espumoso e ao pegar a cuia já solto a pergunta:
- Se o mate é herança dos índios, o que mais a gente herdou deles vô?
Depois de lançar o questionamento, reparo que ele carrega traços primitivos em sua pele. Emendei outra:
- Porque as pessoas chamam os índios de bugres?
Não sei se foi impressão, mas notei um olhar repreensivo, um tanto tristonho. Tragou mais um pouco do pito, olhou para a cuia em minhas mãos e sem falar, seu olhar dizia pra que eu apurasse que ele queria outro.
Entreguei a cuia sem agradecer. Ele no ritual de servir colocou o tanto de água necessário. Largou o criollo de lado, agarrou a cuia com as duas mãos e entregou em voz branda toda a sua sabedoria:
- Bugre não é uma boa palavra, assim como índio. Já expliquei que os primeiros habitantes de cada lugar são os primitivos, índio foi o Colombo que ao desembarcar na América achou que tinha chegado às Índias e chamou todos que via de Índios. Bugre é uma palavra que os missionários, que se diziam porta-vozes de Deus, denominavam os primitivos dessa terra por tratá-los como heréticos, discriminando sua crença, também trazia em sua expressão os argumentos pejorativos de inculto, sem alma, selvagem e pagão.
Agora que tu entendesses que, como dizia o General Borges Fortes “os primitivos habitantes deste próspero lugar”, esqueça índios e dedique-se a entender que eles estavam aqui desde o princípio e foram eliminados por ganância de exploradores sem escrúpulos.
Nessa frase entendi aquele olhar de que falara anteriormente. E a voz veio embargada por vezes ao discorrer o assunto, mas em seguida animou-se.
- Em contrapartida ao escárnio, os primitivos deixaram tantas heranças que nem sei se vou conseguir traduzi-las todas. Mas lembro do mate que já falamos, as boleadeiras foram eles que inventaram, arma de caça usada para buscar do que se alimentarem. Os Gê plantavam erva mate e nos deram essa bebida maravilhosa de presente, também foram conhecidos como Coroados, Botocudos hoje Caingangue, os Minuanos e Charruas caçavam e assavam a caça em espetos de pau, legando o assado aos nossos costumes. Também utilizavam faixas na cabeça e chiripas, chamados chiripas primitivos, uma espécie de saiote adotado pelos Guaranis é outro legado. Os Guaranis plantavam mandioca, milho, feijão, amendoim, abóbora, porongo e plantas medicinais, preparavam os alimentos em fogo de chão. Quanta coisa nos deixaram, o uso da coivara (queima de mato para adubar com as cinzas) e os Charruas aprenderam a domar e utilizar os cavalos habilmente. Aprenderam a guasquear, construíram laços de couro das vacas que andavam alçadas pelos campos, aprenderam a construir calçados do couro dos potros mortos e nos deixaram as ‘botas de garrão” como tantas outras heranças.
Herdamos desses mesmos primitivos o pala, a cultura do fumo, a doma tradicional, várias palavras que até hoje usamos (capivara, chirú, chê, mate, pampa, charque), o uso das plantas medicinais: sálvia, arruda, boldo, catuaba, entre tantas. Quem hoje não gosta de um churrasco bem gordo, com a graxa pingando na brasa e depois uma boa farinha de mandioca pra salivar essa delícia? Somos muito conectados aos primitivos meu neto, mais do que gostaríamos e menos do que eles merecem, pois são relegados ao esquecimento.
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Quanta história de homens que lutaram batalhas e morreram pela pátria gaúcha tu já escutaste meu neto, nas tuas aulas no colégio, desse teu avô, de algum outro tipo que gosta das coisas da terra? Mais que a dos índios que nos ensinaram a plantar, a domar e rebanhar gado, a pescar e a usar habilidades manuais e os produtos naturais para fazer nossa vida mais prática e salutar.
Não sou um defensor desses primitivos que hoje perambulam por aí, mas se eles se perderam no caminho, nós os “civilizados” ajudamos a apagar a trilha que seus ancestrais deixaram.
Recolhi minha curiosidade, peguei o mate que ele me alcançou e me calei por longo tempo, sem ter uma palavra pra expressar o sentido que aquilo me trouxe a vida e ao cenário contemporâneo. Esse avô tão tosco e tão rude, acaricia a minha vivência com coisas que ainda hei de contar aos meus.
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